Morreu Almerindo Marques: o melhor ‘jornalista’ da RTP

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Morreu o homem que foi incumbido de privatizar a RTP mas que rapidamente voltou atrás: Almerindo Marques.
Se não fosse ele, o Serviço Público de Televisão em Portugal teria naufragado para sempre.

Almerindo Marques era um homem colérico. As reuniões da Comissão de Trabalhadores da RTP com ele eram muito tensas, apesar da moderação de Ponce Leão, Luís Marques e Gonçalo Reis. Mas eram frequentes.

ACABARAM-SE OS TACHOS DE DIRECTORES DE MAMA

Almerindo exterminou os ‘tachos’ que envergonhavam a RTP e que proliferavam no tecido empresarial português.

Pôs fim à “Unidade de Queimados”, onde se acoitavam, num edifício frente à RTP, uma cambada de inúteis directores milionários nos salários. A gabarem-se de nada fazerem.

E muitos a passar férias no Algarve, num apartamento que RTP por lá tinha.
Foi Almerindo Marques que mandou vender de imediato o Jaguar verde de uma anterior administradora sem bom senso.

ANGOLANOS E COMPANHIA QUERIAM FICAR COM A RTP

Almerindo tinha por missão privatizar RTP, começando pela RTP 2, que seria despachada para a News-Hold dos angolanos, que depois se viu no que deu.

Foram muitas as reuniões da Comissão de Trabalhadores com Almerindo Marques e a sua equipa. Mais parecia um conselho de gestão alargado. Ele era respeitado, porque todos perceberam de imediato que Almerindo não fazia jogos de cintura.
Cortava a direito.

Era um homem diferente, que o sistema político passou a odiar. Afinal os políticos manhosos tinham-se enganado no presidente que haviam escolhido. Imaginem, Almerindo almoçava no refeitório da RTP. Ia para a fila de tabuleiro na mão. E depois sentava-se numa das mesas ao lado de qualquer um de nós. Uma heresia!

PRESCINDIU DO DIRECTOR QUE FEZ LISTA DE DESPEDIMENTOS

Bem me lembro, como pôs de imediato na ordem um diretor que fez uma lista de despedimentos para agradar a administração. Na lista estava até uma grávida. Para assim aterrorizar todos. Almerindo zangou-se seriamente com esse homem gago e prescindiu de imediato dos seus serviços, colocando-o num lugar sem importância.

Ouvi Almerindo Marques dizer, de forma bem clara, que não tinha chegado à RTP para despedir ninguém. Mas sim para abrir a porta aos que sentiam a mais.
E foi o que fez. Saíram centenas de pessoas. Não houve um único despedimento na RTP, nem tão pouco sinais de assédio moral. Honra lhe seja feita.

ALMERINDO RECUSOU FRETES A SARMENTO E RELVAS

O combate contra a administração de Almerindo Marques foi duro e contou com uma rede de jornalistas de outras TVs e jornais. Houve greves, manifestações, abaixo assinados.

Mas ao fim de seis meses, Almerindo Marques e a sua equipa defendiam à RTP de Serviço Público de Televisão com unhas e dentes. Almerindo recusou fazer fretes a Morais Sarmento e a Miguel Relvas, que se escudava na Loja U… do Grande Oriente Lusitano.

500 MIL EUROS DE BÓNUS DE SAÍDA HÁ QUASE 30 ANOS

Se Almerindo Marques tivesse chegado mais cedo à RTP nunca se teria pago 500 mil euros de bónus de saída a dois elementos… há quase 30 anos. Nem haveria pessoas que saiam com indemnização e pouco depois eram contratadas.

Nem outras que se reformavam e eram contratadas pelos maridos a recibo verde. Nem um director a dizer publicamente que tinha oferecido cassetes porno aos seus subordinados em reunião de Natal.

E a RTP Comercial nunca teria existido. Nem se teria pago fortunas por ‘servers’. Nem se teria ‘dado’ o equipamento da TV Expo a um operador. Tanta coisa enumerada pela Comissão de Trabalhadores, que pela primeira vez teve forte presença de jornalistas.

OS JORNALISTAS RETORNARAM A SER POVO

Ainda mais brilhante foi quando Almerindo Marques reconduziu os jornalistas da RTP ao seu verdadeiro lugar de jornalistas.

As festas, o champanhe, as grandes galas, isso era coisa para os canais privados. O jornalistas tinham de ser espartanos, rigorosos e ao serviço do povo.

As reportagens ganharam vitalidade, clareza e maior verdade. A dose do remédio de Almerindo foi forte, mas resultou.

DEDO APONTADO A CARLOS PINTO COELHO

Acabaram-se os gastos milionários, como emissões de Carnaval o dia inteiro, comissões na compra de material. Carlos Pinto Coelho foi intimado a prescindir de direitos autorais… mensais! que duplicavam o seu faustoso salário. E da corte de ‘sábios’ pagos como príncipes.

Desceram a pique os salários milionários não blindados. Mas Almerindo foi travado pelo poder político. Luís Marques queria que ele continuasse. Mas a saúde de Almerindo Marques era frágil. E as pressões para sair gigantescas. Aquela administração era o contrário do que alegadamente se pretendia.

JUDITE DE SOUSA EM 32 LUGAR

Uma das ações mais curiosas foi a divulgação dos conteúdos de um dos 5 dvds de uma consultora sobre a RTP: Judite de Sousa aparecia no lugar 32 da lista dos melhores trabalhadores entre 1200; o primeiro lugar era de um trabalhadora administrativa sem funções definidas e o último era ocupado por uma jurista qualificada no seu sector.

Por curiosidade, era irmã de um jornalista que acabara de se tornar secretário de Estado de Durão Barroso. Estávamos perante um retrato enviesado da RTP feito pelo que restava do “aparelho” e que chocou Almerindo e a sua administração.

OS AUTOMÓVEIS LOUCOS DE ALMERINDO

Almerindo Marques deambulava pelos corredores da RTP, metendo o nariz em tudo. Num desses cruzamentos chamou-me para confidenciar que os carros da administração deveriam ser simples Volkswagens. E… que deveriam recolher ao fim do dia à garagem da RTP. Almerindo estava fora do controlo político.

O mundo deveria ter mais Almerindos. A RTP deve-lhe muito. O Serviço Publico de Televisão ainda mais.

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