A primeira “Miss Portugal” da nossa História

- A minha cédula nada refere sobre a raça dum “pimpolho” que, nascido de pés bem assentes na Terra, ainda hoje perscruta as estrelas na procura incessante da verdade. Iluminada pela ciência e pela técnica, a Arqueologia foi das constelações que mais visitei ao longo da minha vida, tendo-me proporcionado viagens inimagináveis…

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Bem referenciado nos meios afetos e desafetos à lusa Arqueologia, onde gozo de prós e contras, não raro me são presentes artefactos antigos, para análise. Há cerca de um ano, já em plena pandemia, fui visitado por um antiquário que, entre várias outras, exibia três pequenas peças que interpretei como um ceptro policromado de uma incerta estatueta e duas cabeças de bovídeo, estas sobras de uma indefinida composição.

– É tudo em marfim! – Garantiu, como se tal informação promovesse o produto.  

Assim confirmei e, para valorizar a “amostra”, ele até se dera ao cuidado de eliminar alguma “sujidade” das cabeças, para assim evidenciar a matéria-prima. Uma perda de tempo porque, com tudo retirado do contexto e sem datação possível, nada daquilo acrescentaria qualquer coleção que obedecesse a critérios estreitos.

No final de mais uma profícua visita, recordo-me de ainda me querer oferecer aquele “desperdício”, brinde que delicadamente recusei:

– Muito obrigado, mas, assim isolados, estes fragmentos só me causam pena. Procure a proveniência. E nunca devia ter limpo as cabeças…

– Pertenciam a uma coleção muito antiga e era tudo quanto existia naquela casa. – Assim encerrou o assunto, algo desconsolado.    

O tempo voa e, há dias, o mesmo antiquário pediu-me que o recebesse, desta a pretexto de uma “peça nunca vista”.

Mas que raio é isto? – Assim me expressei, ao deparar com uma insólita estátua feminina de osso ou marfim, policromada, com sessenta centímetros e quase sete quilos.

– Também nunca vi nada igual. Esta estátua foi achada em Almeirim, no século XIX, e adquirida há dias, por um colega. Pertencia a uma família de colecionadores que, há pouco tempo, fez partilhas. Já está meio-apalavrada, para seguir para Espanha. Mas, antes do meu amigo a despachar, pedi-lhe que a mostrasse em Portugal.  

Pensando já ter percorrido as “sete partidas” da arqueologia, confesso que aquela soberba peça me deixou estupefacto. Inequivocamente autêntica, e extremamente bem conservada, parecia-me de origem oriental. Porém, a pouco e pouco, revelava contornos misteriosos: a coroa reproduzia, em três dimensões, não uma muralha chinesa mas um castrejo idêntico ao de moedas lusitanas, da época em que Sócrates circulava por Atenas; a enfeitar o pescoço, percebia-se mais um “leão ibérico” do que um “cão de fó”; e o medalhão da cintura exibia uma espécie de “medusa”, adorno comum na arte fenícia, grega e cartaginesa e não na do Extremo-Oriente. 

– Mas que pena! Em tão bom estado e logo lhe falta o ceptro, na mão esquerda! – Não deixei de lamentar, enquanto conferia a falta de alguns enfeites e os estranhos desenhos que decoravam um traje alienígena. Para, de repente, se me soltar uma faísca: – E onde pára aquele ceptro, que me mostrou o ano passado?

A resposta saiu tão pronta, como honesta:

– Ainda o tenho comigo. E, agora reparo, também as cabeças de touro, que então limpei, se parecem com estas aqui representadas.

Nos dias seguintes, foi irresistível, marquei várias entrevistas com o “Doutor Google” e espalhei a minha perplexidade por entre amigos, na tentativa de resolver aquele quebra-cabeças. E, de surpresa em surpresa, em breve “achava” estátuas semelhantes, conhecidas nos meios arqueológicos ibéricos como “damas”. Embora parentes muito pobres da peça que me fora presente, todas constituem grandes atrações nos museus de Ibiza, Elche, Granada e Basa. E mais ainda. Certo e certeiro em abono da autenticidade da “minha dama”, também alguém acusou a existência de artefactos de prata, com representações idênticas às que decoravam as vestes daquela “Dama de Almeirim”, designação que prontamente atribuí àquela obra de arte.

Para a história “sair na perfeição”, já só faltava reunir as três pequenas peças em falta, o que aconteceu nos dias seguintes e com a devida explicação: ciosamente guardada, a coleção primitiva fora dividida por dois ignotos herdeiros, que haviam dividido o espólio entre si, sem noção de que se tratava de um conjunto. O “puzzle” acabara de se compor.

Um ano depois, adquirida por outro antiquário, e sem necessidade de certificado anticovid-19, a incompleta “Dama de Almeirim” estava em vias de emigrar para Espanha, onde certamente seria alvo de peritagem oficial antes de ser transacionada, a preço justo. Sei lá se não acabaria em exibição num qualquer museu, enquanto “Dama de Almeria” ou coisa parecida, que a imaginação dos arqueólogos é fértil e os interesses em presença muitas vezes obrigam a mistificações.  

Esta “Dama de Almeirim”, uma peça arqueológica de dimensão europeia e até planetária, e que enobrece a arte e a arqueologia do nosso país, é um dos achados mais impressionantes alguma vez encontrado em Portugal, onde, ao contrário de muitos outros, que desapareceram ou moram em Espanha, conseguiu garantir “asilo” certo e seguro.

Resta-me uma pequena confissão. Ao comparar a extraordinária elegância e a pose superior desta “dama”, com as das suas congéneres, recordei, sem querer, certos concursos de beleza em que fui membro do júri. Por vezes, um desconsolo, tivemos de reconhecer, que só ligando o melhor de várias candidatas se conseguiria uma “miss” de jeito. Uma realidade que não se verifica neste certame de antiguidades ibéricas, em que a nossa “miss Almeirim” supera todas as expetativas e arrasa a concorrência. 

15 COMENTÁRIOS

  1. Ana, a Dama de Almeirim estava “meio apalavrada”, mas “casou” em Portugal e ponto final. Na verdade, comungo da sua preocupação ao assistir, desde há muitas décadas, à pilhagem que prossegue no nosso país, em prejuízo de uma Arqueologia que poderia figurar entre as mais “ricas” do mundo. Verdadeiramente seguras, desde há muito, só os cacos e as peças sem valor. ou as pegadas dos dinossauros e as gravuras do Côa. Estas, seguramente, por não poderem
    voar. Mas são mais respeitadas no Azerbeijão, por exemplo, do que em Portugal.

  2. Este “artigo” é real ou ficção?
    Não apresenta fontes.
    Não diz onde a peça está.
    Não apresenta uma solução ou perspectiva de estudo científico, antropólogico e histórico sério que um artefacto desta dimensão mereceria.
    É a única notícia que se encontra sobre o assunto…

  3. Existir por existir existe muita coisa.
    Que siga o curso natural e pelo melhor.
    Se a peça é autêntica é realmente de suma importância para a História não só de Portugal mas da Humanidade.
    Eu não sou ninguém para tecer nenhuma crítica, de facto sou só um leigo apreciador de boas peças de Arte.

  4. Bom dia,

    Concordo perfeitamente consigo, ilustre Raul Fernandes. Esta peça, bem como milhares de outras que tenho referenciado, e algumas até adquirido e doado a museus para salvaguarda de património nacional, antes de voarem para o estrangeiro, há muito deveriam ter sido catalogadas e objeto de estudo científico, antropológico e histórico sério por parte de uma Arquelogia que, na sua generalidade, se desviou do caminho traçado pelo grande Leite de Vasconcelos. Nada que admire num país em que muitas Instituições estão a saque e onde o justo não passa duma bola de trapos nos pés dos pecadores. Ou será que isto é fição?

  5. Este artículo como otros apuntan deja muchas dudas, también un sentimiento de tristeza.

    Porqué no se ha datado la pieza y catalogado adecuadamente?

    Porqué no se ha puesto en conocimiento de la autoridades competentes en Portugal la existencia de esta pieza? Porqué de ser auténtica quizás el gobierno quisiera entrar en un acuerdo para que no salga del país.

    Dado el interés arqueológico de la misma pienso que tendría que ser estudiada adecuadamente. Mi curiosidad principal es saber si es anterior a las otras damas iberas descubiertas en España?

    Gracias.

    • Perfeitamente de acordo com o seu comentário, reitero também muita tristeza pessoal porque, até hoje, nenhuma entidade competente, ou mesmo qualquer instituto ou arqueólogo português, manifestou interesse técnico-científico por este género de artefatos. Numa tentativa de preservar o nosso património, e o divulgar, até já doei algumas centenas de peças a diversos museus, com prévio conhecimento oficial, mas sem outras consequências senão desconsiderações pessoais e mesmo ameaças veladas. Sintetizando o estado da arte, e o mesmo aconteceu em Espanha até há muito pouco tempo, acrescentaria, simplesmente e sem medo, que a raposa ainda toma conta do galinheiro.

  6. Perfeitamente de acordo com o seu comentário, reitero também muita tristeza pessoal porque, até hoje, nenhuma entidade competente, ou mesmo qualquer instituto ou arqueólogo português, manifestou interesse técnico-científico por este género de artefatos. Numa tentativa de preservar o nosso património, e o divulgar, até já doei algumas centenas de peças a diversos museus, com prévio conhecimento oficial, mas sem outras consequências senão desconsiderações pessoais e mesmo ameaças veladas. Sintetizando o estado da arte, e o mesmo aconteceu em Espanha até há muito pouco tempo, acrescentaria, simplesmente e sem medo, que a raposa ainda toma conta do galinheiro.

  7. Apesar de esta crónica ter já tantos comentários, eu queria acrescentar umas palavras.
    Foi ainda em vida que o Dr. Cândido Ferreira, médico nefrologista, coleccionador e político desiludido, falecido recentemente com 73 anos, teve ocasião de responder a algumas perguntas pertinentes que aqui foram colocadas.
    Se a peça de que tão generosamente quis dar conhecimento, não foi devidamente estudada e catalogada, muito se deve à incúria das instituições que, tal como ele referia e bem, há muito se demitiram de responsabilidades maiores. Algumas mais não podem fazer com os escassos recursos de que são dotadas. Outras prioridades se instalam por motivos esconsos.
    Talvez amenize apreensões o facto de se saber que este cidadão exemplar, no dizer dos Amigos, não reteve nada do que coleccionou. Legou cerca de 700-800 peças à sua terra natal – Febres, em Cantanhede – para que, com ajuda do Município, prossiga e se conclua o Museu de Arte e Coleccionismo que as deixará patentes ao público.
    Resta-me deixar aqui as suas palavras tão autênticas e actuais: “…quase sempre o justo não passa de uma bola de trapos nos pés dos pecadores”…
    O que ele preservou, foi um legado inestimável que todos podem admirar, assim a Câmara Municipal de Cantanhede, que também merece um louvor, abra as portas desse Museu.

  8. Creio que em vez de 800 peças serão 800.000…E se por acaso já estiver concluído o projecto e a funcionar, assumo a minha falta de actualização em relação a este tema.
    O essencial está no corpo do texto acima.

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