Quando Nuno Santos foi crucificado na RTP

Um texto sobre Ana Leal abriu uma caixa de pandora sobre o célebre visionamento pela PSP de cassetes na RTP. Há uns anos. Foi um facto obsceno. E aconteceu assim, como vou contar. Perdeu a RTP, ganhou Nuno Santos que se tornou um ‘Ronaldo da TV’

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Eu era, nessa altura, membro do Conselho de Redação (CR). E, assim, faço já a minha declaração de interesses e, ao mesmo tempo, atesto a autenticidade do que escrevo.

Não foi Luís de Castro quem facilitou o visionamento das cassetes. Foi uma jornalista. 
E Nuno Santos não esteve implicado nesse visionamento. Temos assim duas pessoas fora deste grave acontecimento. E uma terceira escondida até hoje, apesar de referida num relatório e de ela própria confirmar a sua culpa.

Armadilha montada contra Nuno Santos

Escrevo estas linhas ao abrigo do artigo 12 do Estatuto de Jornalista, que me permite expressar ou não a minha opinião, na qualidade de jornalista.

Li com toda atenção os relatórios produzidos contra Nuno dos Santos. Era textos contraditórios. Gatos com rabo de fora.

O caso das cassetes visionadas pela PSP foi uma torpe armadilha contra Luís Castro e contra Nuno Santos. 
Luís nunca escondeu as suas legítimas ambições em ser diretor de Informação da RTP. E tinha currículo para o ser. 

E Nuno Santos nunca se deu bem com o presidente Alberto da Ponte, que já faleceu. Alguém aproveitou o caldo para armar a zaragata.

O jogador que sabia de mais

O alerta sobre o visionamento surgiu quando Nuno Santos se encontrava fora do país. Eu fui abordado por um jornalista que chefiava o Telejornal. Tratava-se de uma pessoa com fragilidades várias, uma delas ser jogador compulsivo.

Estava na Redação com outro elemento do CR e  ele confidenciou-nos: “Vocês sabem o que eu ouvi? Nuno Santos falou com a PSP para permitir o visionamento de umas cassetes da manifestação”.

Que estranho, só agora ele dizia! Pior, como sabia o que falara Nuno Santos pelo telefone, dias antes?

Incriminação metida na casa de banho

Nuno Santos foi posto de imediato ao corrente dos murmúrios contra ele. Duas horas depois foi deixado na casa de banho um papel incriminador.

Uma produtora pedia, sem autorização da sua chefia,  por requisição, as cassetes em causa aos arquivos. E lá estava a requisição, no lavatório. Depois deste caso, ela subiu a subdiretora, claro!
Quem trabalhou durante largos anos na RTP, sabe que este procedimento não é habitual! 
A RTP é um bastião da liberdade de Imprensa. E nele trabalham valentes jornalistas, desde sempre entalados entre administrações, espectadores influentes, Conselhos de Opinião, Governos e políticos.

Reportagens editadas com o TJ ainda no ar

A regra na RTP foi sempre a confiança pessoal. Telefona-se, vai-se lá, fala-se com o companheiro: Olha! Tens aí as cassetes disto ou daquilo. Tens o clipe no AGS?  

A confiança é tal que o Telejornal está no ar e as histórias estão ainda a ser editadas, sob pressão do telefone: Oi! Essa gaita está pronta daqui a quantos segundos? Daqui a quantos segundos? Foi e será sempre assim. A RTP tem excelentes profissionais.

Todas as imagens tinham passado em directo

Todas as imagens das cassetes foram exibidas durante a manifestação. Era tudo metido no ar pelo carro de exteriores. A multidão deu a cara. E foi também filmada pelas autoridades, como infelizmente se tornou hábito. Curioso foi o realizador da RTP nunca ter sido ouvido no processo.
O caso do visionamento das cassetes foi um golpe montado para afastar Nuno Santos e implicar Luís Castro. Luís sentiu-se acusado e disparou em todos os sentidos, sem necessidade. Estava tão inocente como Nuno Santos.

O presidente RTP queria mandar na Redação

Em rigor, há muito que admistração de Alberto da Ponte queria interferir na Redação e mandar em Nuno Santos. Por via de uma pequena artimanha cervejeira: seria obrigatório justificar a mais pequena despesa, tipo ‘bilhete de eléctrico’.

A administração de Alberto da Ponte e da senhora que o assessorava e que tinha vindo de um banco queria, que fossem previamente comunicadas despesas de deslocação fora de Lisboa.

Esta medida estúpida dava à administração de Alberto da Ponte a possibilidade de controlar todos os movimentos dos jornalistas, incluindo as reportagens. Mais! permitia antecipar todos os movimentos dos jornalistas.

Chegou até a substituir-se jornalistas de Lisboa em investigação de casos por jornalistas de delegações por imposição da administração. A interferência de Alberto da Ponte tornou-se insuportável.

Nuno Santos queixou-se várias vezes ao Conselho de Redação desta e doutras interferências inaceitáveis.

A guerra de Alberto da Ponte tinha uma mão escondida. Nuno Santos respondeu com bravura e levou com as ‘cassetes’.

A Administração roeu a corda

O problema da RTP foi ter um presidente das Cervejas, que ia muitas vezes pedir ajuda aos Serviços Clínicos. E ter uma senhora bancária a picá-lo.

Numa reunião com o Conselho de Redação, durante um intervalo. Sugeri à Alberto da Ponte, na presença de outro membro do CR, um encontro com Nuno Santos para sanar a confusão. Da Ponte anuiu, mas a senhora bancária meteu-se na conversa e repreendeu o presidente: ‘isso seria inaceitável’. E Alberto da Ponte? ‘É melhor não’. Era um homem fraco, que sonhava com apenas com palcos

Três falsas testemunhas

Depois pensou-se num comunicado conjunto do Conselho de Redação,  da Direcção de Informação e da Administração, esclarecendo estarmos perante um caso da responsabilidade de uma jornalista, que admitiu a culpa.

A Administração roeu a corda das conversações, do bom senso e da verdade e acusou Nuno Santos numa nota pública, facto único na história da RTP. Com base em depoimentos erróneos de três pessoas.

Os declarantes nem sequer conseguiram afirmar com rigor onde estavam quando também ouviram o tal suposto telefonema de Nuno Santos. Uma vergonha!

Quem foi o mandante do Caso das Cassetes?

O que aconteceu no caso das cassetes visionadas pelos agentes da PSP foi um “Crime do Expresso do Oriente” apoiado pela Administração de Alberto da Ponte, ajudada por três outras pessoas com interesses muito específicos.

Mas a RTP prosseguiu o seu rumo. Luís Castro encontrou local para os seus méritos de jornalista brilharem. E Nuno Santos fez um extraordinário percurso que o tornou um “Ronaldo das televisões”.

O caso das cassetes foi um pretexto ignóbil para afastar Nuno Santos da RTP, felizmente para ele. E infelizmente para a RTP. Ficou por revelar o nome do mandante do Caso das Cassetes. Mas não será difícil saber quem foi.