Quando se abandonam soldados…

Peço desculpa a alguns leitores, mas, “apaixonado” por produções literárias ligadas à pandemia, e não só, vi-me compelido a suspender a colaboração regular na imprensa, atividade que, prometo, irá retornar à “normalidade”.

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Em 1980, em França, integrei a equipa do Dr. Abdul, um médico afegão que logo me marcou pela afabilidade e competência.

A frequentar um “estágio contrarrelógio”, para regressar ao meu país e integrar a equipa do Prof. Linhares Furtado que, meses depois, em Coimbra, iria realizar a primeira colheita e a primeira transplantação de órgãos bem-sucedida, só uma ligeira bruma enevoou o nosso fácil relacionamento. Oriundo dum país carenciado, e detendo competências raras, por que não regressava ele à sua pátria?

Uma dúvida que prontamente esclareceu, no nosso primeiro almoço na cantina do hospital: a regressar, seria “simplesmente” morto à sua chegada a Cabul.

– Mas, porquê? – Estranhei.

– Porque sou diferente deles. Já mataram quase toda a minha família e eu próprio fui torturado. Safei-me, por um triz, por ser médico e ter tratado gente importante.  

A serenidade e a mágoa que perpassaram pelo seu rosto, não me deixaram dúvidas de que, no seu país, não eram reconhecidos direitos humanos elementares. Comparada com aquela gente, a PIDE, de que Portugal se havia libertado poucos anos antes, não passaria de uma instituição de bem-fazer.  

Anos mais tarde, assisti, com natural curiosidade, à desastrosa invasão soviética e, depois, à entrada triunfal dos EUA, no Afeganistão: duas intromissões mal desenhadas e que só fariam sentido para instalar um poder local sólido, capaz de impor valores que são de toda a Humanidade, incluindo a comunidade islâmica.  

No início do século XXI, muitos afegãos acreditaram que, sob o escudo da NATO, a “civilização moderna” iria finalmente impor regras no seu país. Erro fatal porque, vinte anos depois, enquanto uma minoria residente em Cabul está a ser resgatada dum vespeiro, milhões de afegãos estão em fuga ou organizam bolsas de resistência, para não serem escravizados ou mortos.

Como foi possível tal desastre?

Após a saída de Obama, a NATO “desapareceu” do mapa-mundo, tendo-se sucedido uma longa série de graves erros, na gestão daquele “protetorado”. Sem rumo, os EUA deram mesmo em negociar uma retirada sem garantias, que acabaria por se traduzir na derrota mais vergonhosa alguma vez infligida a qualquer superpotência, ainda que recuemos a Alexandre Magno: uma rendição incondicional e ignóbil, saldada no sacrifício dos aliados locais e que passou pela entrega das próprias armas, à barbárie.

Nenhum comandante, digno desse nome, abandona sem ponderosas razões os seus soldados. Sem perdão, coautores de um crime contra a Humanidade, Trump e Biden só poderão vir a integrar a grande galeria dos vilões da História.

Perante a emergência humanitária criada, alguns militares portugueses integraram recentemente uma operação dirigida por Espanha, que liberou dezenas de afegãos que, ao lado de Portugal, confiaram na construção de uma sociedade mais justa e fraterna. Um esforço que devemos sublinhar e que até poderia constituir um exemplo para todo o mundo, se marcado pelo Comandante Supremo das Forças Armadas: em tempos recentes, Eanes e Delgado, e talvez Soares, não hesitariam em vestir um camuflado e honrar tal missão com a sua presença.

Centrados nos direitos humanos e em cooperação, que nunca em colonialismo, a atual realidade afegã merece ainda outras reflexões.

Em 1975, também Portugal abandonou muitos cidadãos africanos à sua sorte, depois sacrificados pelo seu abraço a uma causa que, claramente, ia contra os ponteiros da História. A crise política, porque passámos, ressalva os erros duma descolonização que, não sendo “exemplar” e tendo travado muita violência, não impediu tragédias humanas, sobretudo na confinada Guiné.

No entanto, a manchar a nossa consciência, Portugal ainda deixou outras vítimas para trás. Vítimas da hipocrisia dum regime, que taxava fortemente a transladação dos corpos dos seus militares mortos, nunca regressaram a solo pátrio muitos daqueles que perderam a sua vida na guerra colonial,

Desde sempre desprezados pelas autoridades portuguesas, que nunca se dignaram a um qualquer preito, um desses cemitérios foi recentemente alvo duma homenagem organizada pela população de Bissau, que, em festa, exibia bandeiras portuguesas. Apesar dos excessos de uma guerra inútil e inglória, ainda hoje mantêm saudáveis laços de amizade com quem melhor se cruzaram. Tal como em São Tomé e Príncipe, quantos deles não prefeririam o estatuto de região autónoma e livre, integrante de Portugal e da Comunidade Europeia?   

Nenhum comandante digno, nenhum país honrado, deixa para trás soldados. Num momento em que milhões de jovens, no Afeganistão e não só, são vítimas dos ideais em que acreditaram, a iniciativa de construir um memorial para receber as cinzas dos combatentes portugueses sepultados em solo estrangeiro, mais do que a reconciliação de uma parte significativa da população portuguesa com a História que leram, é um imperativo ético de um pequeno povo que só tem de se orgulhar da grandiosa “obra”, que espalhou pelo mundo.     

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