O outdoor autárquico em Lisboa que apela ao voto… em Viseu

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Já estamos habituados de eleições anteriores a ter em solo lisboeta outdoors eleitorais de Loures, Odivelas ou outros concelhos limítrofes, mas campanha autárquica de um concelho a quase 300km da capital é uma originalidade que nos faz pensar: afinal, deve ou não a política
autárquica da capital ter em conta os milhares de portugueses que passam mais tempo em
Lisboa do que nos seus concelhos de residência?

Os Censos de 2011 apontavam que a população lisboeta crescia diariamente cerca de 70%,
alcançando cerca de 926 mil indivíduos, face aos 550 mil habitantes registados,
aproximadamente. Dados mais recentes, do INE (Inquérito à Mobilidade, 2017), apontam que
por cada 100 habitantes, registam-se 110 entradas na capital, diariamente. Por mais que os
dados possam ser pré-pandemia, e que a mesma possa alterar com alguma significância a
sobrecarga gerada por este fluxo, é de questionar até que ponto os destinos da cidade de Lisboa possam ser apenas ditados com os seus residentes em mente.

Agora que estamos em campanha autárquica, várias ideias e propostas são avaliadas por
pessoas que, ‘utilizando’ a cidade, nela não residem, e como tal terão uma opinião que, legítima enquanto habitantes de facto de Lisboa, será provavelmente distinta dos residentes, votantes, da mesma.
Quando se fala de transportes públicos gratuitos, fala-se dos que levam ao trabalho ou às
compras quem mora na Penha de França à Baixa, ou do 708 que liga o Martim Moniz a Sacavém?
Quando se fala de silos de estacionamento, pensamos nos moradores que pagam dístico e não
têm lugar ou naqueles que todos os dias buscam espaço perto duma boca de metro para entrar
na rede citadina de transportes? Quando se constroem ciclovias procura-se beneficiar os
residentes ou prejudicar quem não tem outra alternativa a não ser o carro porque vem de fora?

A nivel de autocarros está a ser concluído o concurso metropolitano de transportes mas, em
muitas outras áreas, é imperativo que a organização da vida em sociedade e o planeamento de
Lisboa e arredores seja efetuado com visão supramunicipal, no âmbito da AML. Lisboa é
demasiado grande para ser gerida apenas a partir da Praça do Munícipio. Poderão alguns dizer
que no final do dia são os lisboetas que votam, e que para se preocuparem com os residentes
em Loures e de Odivelas existem os respetivos edis. Não sei se isto é um bom argumento.
Façamos uma analogia nacional ou mesmo europeia. Isto seria o mesmo que dizer que para
preocupar-se com os migrantes do norte de África, ou de quaisquer outras regiões, existem os
seus presidentes (ou ditadores..). E neste caso, felizmente, a União Europeia por exemplo não
procede assim. Sabemos que uma cidade, país ou continente só se desenvolve e alcança a paz,
o equilíbrio e a prosperidade se as regiões limítrofes tiverem um nivel razoável de
desenvolvimento e bem estar.

Para o próprio bem de Lisboa, da sua sobrecarga diária que afeta a mobilidade, a capacidade de resposta na saúde e na educação, a limpeza urbana e a habitação, entre outros problemas, é fundamental que haja a preocupação de garantir que os concelhos limítrofes têm a capacidade de cada vez mais fixar população, garantir emprego e bem estar, para que os quase 3 milhões de “lisboetas metropolitanos”, e de outras origens, não se concentrem demasiado no pouco espaço concelhio da capital, esgotando-a, e levando a uma degradação da qualidade de vida de todos os que cá passam a maior parte da sua vida. Todos, residentes ou não.

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