A HISTÓRIA DE UMA INESPERADA SURPRESA

Nesse dia do ano 2000, a cabeleireira do lar não estava disponível e D. Maria do Carmo precisava mesmo de lavar a cabeça e pentear-se. Decidiu, pois, sair e ir até à cabeleireira do bairro. Conversa puxa conversa (a gente sabe como é…) e a surpresa apareceu assim de repente, completamente inesperada, mais inesperada do que todas as surpresas.

9
1997

A mãe do capitão

Não era a primeira vez que D. Maria do Carmo ia ali. Contudo, desta feita, vendo que a cabeleireira era uma senhora africana, teve curiosidade em saber donde viera.

            – Da Guiné – respondeu.

            – E donde exactamente.

            – De uma aldeia chamada Suzana. Fica situada a 5 km da fronteira com o Senegal, no noroeste da Guiné-Bissau.

            – Suzana? Mas foi em Suzana que o meu filho esteve e aí comandou a sua Companhia…

            – Mas a Senhora é da família do senhor capitão que morreu na guerra, o capitão Luís Filipe Rei Vilar?

            D. Maria do Carmo estremeceu ao ouvir soletrar o nome completo do filho.

            – Sim, sou a mãe. Ele morreu, sim, em combate na Guiné. A 18 de Fevereiro de 1970… Mas a senhora, que é tão nova, como sabe o nome do meu filho?

            – É que, em Suzana, nós veneramos muito a memória dele!

            D. Maria do Carmo estremeceu ainda mais.

            – Sim? Porquê?

E a cabeleireira começou a desfiar, com entusiasmo, o rosário de benefícios que o capitão conseguira trazer para a aldeia, quando ali estivera em serviço com a sua companhia. Lutara, sim, ele e os seus homens, para defenderem a população, garantiu a cabeleireira; mas o mais importante ainda foi toda a obra social aí levada a cabo, nomeadamente no domínio da instrução, mediante a construção de uma escola, uma escolinha de 25 x 10 metros. «Lutando, construindo e ensinando» era a sua divisa! Em Suzana chamavam-lhe o Capitão dos Pretos! As crianças eram recolhidas num raio de 5 km para irem à escola e, antes de serem levadas para casa, partilhavam o rancho dos soldados, da sopa deles… Por isso, esses meninos eram apelidados de “sopitos”. E ainda hoje o são!

A surpresa da família

A novidade caiu inesperada. Sobre a comissão de Luís Filipe Rei Vilar, nascido em Cascais a 12 de Novembro de 1941, e, sobretudo, acerca das circunstâncias da sua trágica morte chegaram a divulgar-se informações contraditórias e a família, contristada, preferiu continuar a ficar com a recordação do excelente percurso académico e militar que o filho tivera. Fora brilhante aluno na Escola Técnica e Liceal Salesiana de Santo António, no Estoril;  praticara hóquei em patins no Grupo Dramático de Cascais; notabilizara-se na Academia Militar e, nomeadamente, na equitação, tendo participado em vários concursos no Hipódromo de Cascais, que tem hoje o nome de Manuel Possolo, mestre de equitação do Luís.

Essa informação trouxe, pois, de novo à memória os momentos bons e também os maus.

D. Maria do Carmo viria a falecer em 6 de Janeiro de 2004. Os filhos Duarte, Manuel e Miguel é que não ficaram sossegados enquanto não tiraram a limpo o que acontecera e qual a razão dessa veneração dos Felupes pelo seu irmão mais velho.

Fora-lhe atribuída, a título póstumo, a Medalha de Serviços Distintos Prata com Palma («Diário do Governo» de 11-5-1970), tendo sido destacado, na circunstância, que «no campo da acção psicológica actuou como um verdadeiro apóstolo, conquistando o respeito e admiração das populações, que nele confiavam cegamente; no campo operacional salientou-se pela firme determinação em bater o inimigo nas zonas de refúgio e pelo exemplo da sua presença nos locais de maior risco». Soube-se depois que, também em Suzana, após a sua morte, fora colocada uma placa em sua memória, hoje desaparecida.

O Município de Cascais, por deliberação unânime de 5 de Junho de 1970, dera o nome ‘Capitão Rei Vilar’ a um arruamento do Bairro Navegador, no mesmo dia em que foi decidido homenagear, no mesmo bairro, a memória de outro cascalense, o Furriel João Vieira, que, aos 23 anos, fora morto em combate, em Angola, a 6 de Agosto de 1965. Aluno da Escola Salesiana do Estoril também ele.

A obra em marcha

Em primeiro lugar, a notícia dada pela cabeleireira causou na família muito espanto e alguma dúvida.

Sucedeu, porém, que, em Abril de 2016, o irmão Miguel recebeu a mensagem de um desconhecido, um certo Luís Costa, antropólogo, recém-chegado da Guiné, aonde fora em preparação da sua tese de doutoramento e que vivera quatro meses em Suzana. O teor era o seguinte:

«Quero-lhe dar conta que a Memória do seu irmão, Cap Cav Luís Filipe Rei Vilar, comandante da CCAV 2538 […] continua bem viva e respeitada. Os habitantes de Suzana falam com entusiasmo e saudade do seu irmão e contam o interesse e respeito que ele tinha pelas gentes da Guiné em especial pelos Felupes».

E, assim, em Janeiro de 2017, no seguimento desta mensagem, os três irmãos Manuel, Duarte e Miguel partiram para a Guiné. Escreve o Manuel, a 30 desse mês:

«Quando chegámos a Suzana, a surpresa! À chegada, tínhamos uma recepção de cerca de 200 crianças a cantarem e a bailarem, todas lindamente penteadas, limpas e bem vestidas. Não estava a acreditar! Toda a população nos esperava! Permanecemos em Suzana 4 dias, alojados na missão católica. Foram 4 dias a conviver com a população, com os Felupes, a etnia local. Fomos ao sítio onde tudo se passara. Ainda há alguns guias felupes vivos que incorporaram a Companhia nessa altura e os seus pormenorizados relatos, nomeadamente das circunstâncias da morte do Luís, foram para nós testemunhos muito importantes». Entre outros, o do Padre Zé (José Fumagalli), já com 80 anos, que dirigia a Missão Católica nesse tempo e que conheceu e conviveu com o Capitão, também confirmou essas informações.

As autoridades locais (o Conselho dos Homens Grandes) acolheram-nos, pois, de braços abertos; e a Missão Católica (liderada então pelo Padre Abraão e, posteriormente, pelo Padre Vítor) proporcionou-lhes um básico alojamento, porque, na verdade, Susana é aldeia pobre, minguada de meios.

O resultado dessa primeira viagem a Suzana foi a promessa dos irmãos Rei Vilar de continuarem a obra, no que respeitava à educação das crianças, em tão boa hora iniciada pelo irmão Luís Filipe, em circunstâncias assaz adversas. Foi assim que surgiu, espontaneamente e com esse objectivo, o Projecto Kassumai, que deu origem, em 2020, à constituição da Associação Anghilau («criança», em língua felupe).

Foram assim apadrinhadas 35 crianças: a Adelaide da Silva, o André Djejo, a Bequita Ampabagai, o Davide N’Manga, a Necas Sambu, o Olívio Bussa, por exemplo, que aparecem, felizes e tímidas, no vídeo Kassumai, que Casper Steketee e Manuel Rei Vilar realizaram, não apenas para dar conta da vida do irmão Luís, mas, de modo especial, para fazerem jus ao bom acolhimento havido por parte da população e, sobretudo, para motivarem os amigos e familiares a aderirem a este projecto educacional.

Kassumai, o nome do projecto, é a saudação felupe, que significa simultaneamente «felicidade, paz e liberdade». E quando alguém saúda outrem – «Kassumai»! – o outro deve responder «Kassumai Kep», que quer dizer «para sempre!». Um toque de humanidade a reter dos nossos irmãos africanos!

Daí até à sugestão de reabilitar a escola e de fazer um edifício a condizer com as necessidades foi um passo. O Jardim-escola, que se encontrava decrépito, foi completamente reabilitado: renovação do telhado, pavimentação das salas, pinturas das paredes, aquisição de nova mobília adequada ao ensino pré-escolar, arranjos das portas totalmente danificadas, novas instalações sanitárias com duas fossas sépticas, criação duma pérgula para as crianças tomarem as refeições e brincarem nos dias de chuva e elaboração duma cerca para maior protecção da miudagem.

Em 2017, os irmãos Rei Vilar tinham encontrado em Suzana um homem branco, da ONG VIDA – Voluntariado Internacional para o Desenvolvimento Africano, organização criada em 1992, com sede em Lisboa, na Rua Nova do Almada (http://vida.org.pt), que focou muito da sua actividade na Guiné, em prol de contribuir para acudir às prementes necessidades de nutrição, mormente das crianças, através duma implementação correcta do Programa Nacional de Nutrição da Guiné-Bissau que contribua para a sua sustentabilidade. Como é lógico, gerou-se, de imediato, uma útil parceria com a futura ‘associação’ das boas vontades que a família conseguira congregar em torno de si.

A partir desse encontro, a figura de um felupe, o Sr. Olálio Neves Trindade, hoje responsável da ONG VIDA na Guiné-Bissau, veio a ser o homem de campo do Projecto, em colaboração com o Prior de Suzana, o Pe. Vítor Pereira. Os media foram indispensáveis para manter uma ligação quase quotidiana com Suzana e para difundir as actividades do Projecto.

E, a 18 de Fevereiro de 2020, 50 anos depois da morte do Capitão, dia após dia, as novas instalações pré-escolares foram solenemente reinauguradas, com o nome Jardim-Escola Capitão Luís Filipe Rei Vilar, nome escolhido pela Direcção do Agrupamento Escolar de Suzana, na presença de doze padrinhos e madrinhas, que se deslocaram a Suzana para esse fim, das autoridades locais (administrativas, religiosas e escolares) e do Comité das Mães.

Actualmente, o Jardim-Escola tem uma capacidade para mais de 70 crianças e o Agrupamento Escolar de Suzana, que resultou da pequena escola criada pelo Capitão Rei Vilar, é frequentado por mais de 700 alunos.

A construção de uma Residência dos Professores de Suzana foi o segundo objectivo do projecto, crucial para fixar os docentes em alojamentos condignos. A nova residência encontra-se terminada e apta a acolher os professores a partir do próximo ano lectivo: foi entregue nas últimas semanas às entidades escolares.

A reabilitação do Jardim-Escola assim como a construção da nova Residência para professores foram totalmente pagas com os donativos do apadrinhamento das crianças.

O que falta?

Compreende-se, porém, que projectos deste teor nunca podem considerar-se terminados e, após uma solução encontrada, outro problema por resolver se depara com premência.

Neste sentido e neste momento, um terceiro projecto tem como objectivo reabilitar os restantes edifícios escolares, incluindo o acabamento do Liceu, que foi inteiramente construído pela comunidade de Suzana.

Em Março de 2020, a Associação Anghilau, recentemente constituída, decidiu dar conhecimento do trabalho realizado em Suzana à Câmara Municipal de Cascais, tendo sido pedida, para esse efeito, uma reunião com a Divisão das Relações Internacionais. Nessa reunião, a Câmara dispôs-se a analisar este terceiro projecto, baptizado de Projecto Cascais-Suzana, que se encontra ainda em apreciação.

A aprovação desse projecto seria, de facto, o reconhecimento de todo o trabalho realizado até aqui e também, de certa forma, uma maneira de o Município poder honrar, tal como os Felupes o fizeram, a memória do Capitão Luís Filipe Rei Vilar, um filho de Cascais, sempre presente nesta vila e no coração dos habitantes de Suzana.

9 comments

  1. Uma agradável surpresa, esta, cuja divulgação faço com todo o gosto, não apenas pela sua importância e por toda a acção ter sido desenvolvida sem alardes e com eficácia, mas também pela amizade que, desde os bancos da Escola Salesiana, me liga a toda a família, de resto bem conhecida em Cascais
    Feliz por me haver sido proporcionada a oportunidade de dar a conhecer a obra que – sem se saber em Cascais – começou por um dos seus filhos e está a ser continuada, tenho a certeza de que outros se juntarão a esta causa de elevada benemerência.
    Feliz também pela coincidência do comentário de Carlos Narciso, a quem agradeço a prontidão do acolhimento e o entusiasmo por dar a conhecer esta história, que, afinal, também lhe diz muito:
    «A Guiné-Bissau é a minha pátria do coração, tenho uma ligação emocional, intuitiva, com o sítio e as pessoas de lá.
    Conheço bem a tabanka de Suzana, toda a região de São Domingos. Na linha de fronteira, no mato, ainda lá estão pilares de pedra que traçam a linha que divide a Guiné do Senegal que dizem “província da Guiné, República portuguesa”.
    Esta história é interessante. Os felupes foram a etnia que combateu ao lado dos portugueses contra o PAIGC. Questões velhas do tribalismo, não tem nada a ver com outra coisa. Pagaram com língua de palmo essa opção, depois da independência».

  2. De facto, é o que nós sentimos. Uma grande solidariedade com este povo de grandes tradições e que com uma grande tenacidade e coragem enfrenta a sua pobreza, visto que pouco têm como subsistência, apenas um pouco de arroz, amendoim e vinho de palma… continuando e vivendo as suas tradições nesta linda terra a transmitir a sua alegria e a sua amizade. De facto, na Guiné-Bissau não se encontra qualquer tipo de animosidade contra os portugueses, apesar da nossa historia não ter sido sempre digna dos nossos valorosos navegadores…outros tempos, outros interesses, outras lutas e outras misérias. E há surpresas!

    Aconteceu um episódio interessante, foi que por acaso da primeira vez que chegámos a Bissau, nos encontrámos à porta da Sede do PAIGC… sem dar por isso… e quatro brancos nomeio de todos os africanos… dá nas vistas ! Imediatamente, dois homens saíram da Sede e vieram-nos perguntar o que estávamos ali a fazer e nós dissemos a razão: que vínhamos pisar a terra onde o nosso irmão morreu. Os homens abraçaram-se a nós e convidaram-nos a entrar na Sede do PAIGC, onde fomos recebidos no Salão Nobre com as paredes cobertas de fotografias da Guerra Colonial! Permanecemos mais uns instantes com os nossos amigos do PAIGC que se despediram de nós com mais abraços e saudações fraternas. Daqui se mostra que parece que os Portugueses não deixaram só más recordações… para sermos recebidos assim pelo “inimigo”! O Povo Guineense é duma enorme humanidade.

    Portanto o comentário do Carlos Narciso que eu não conheço mas a quem apresento as minhas saudações, não me surpreende e só vem confirmar o que eu e os meus irmãos sentimos pela Guiné e pelos seus habitantes.

  3. Deste extenso, comovente e brilhante texto de José d´Encarnação, retenho ensinamentos valiosos:
    _ que há valores e forças em que vale a pena acreditar num mundo marcado pelo caos;
    _ que a morte do capitão Rei Vilar não foi em vão, como a de tantos jovens atirados para uma guerra inútil;
    _ que é possível a união entre os povos com base na troca afectiva e de respeito pelas diferenças;
    _ que a união familiar pode levar mais longe, e dignificar, os esforços dos seus membros.
    A criação de estruturas de apoio, numa terra pequena e pobre, aos vários graus de ensino, é meritória. E o envolvimento de toda a população é o maior testemunho de que o capitão Rei Vilar era amado pela população local. Afinal deve estar reconhecida pelo trabalho que ele desenvolveu para dignificar a vida das crianças locais. Um agrupamento escolar que hoje serve setecentos alunos, é o prosseguimento de um feito notável.
    Um projecto Cascais – Suzana soa bem. Soará melhor aos familiares deste jovem natural de Cascais que veio a deixar a vida lá longe. E apesar da beleza desta história, estou a pensar na emoção da mãe que, por acaso, acabou por saber mais notícias do filho que tinha perdido de forma tão dolorosa.

    • Obrigado pelas observações judiciosas. De facto, o meu irmão deixou sementes que deram e que continuam a dar fruto. A sua memória persiste neste povo onde a tradição é importante. O nosso terceiro objectivo é agora dar uma Escola digna a estas crianças. Sublinho aqui a importância que tem a Educação para os Felupes de Suzana que sozinhos e sem outras ajudas construíram com as suas próprias mãos um Liceu. Deram o seu trabalho. Os acabamentos do Liceu não podem ser concluídos sem ajuda financeira, porque tudo é caro na Guiné e a população não dispõe dos fundos necessários para concluir esta obra. E é para a reabilitação da Escola Secundaria e o acabamento do Liceu que submetemos à CMC
      o Projecto Cascais-Suzana.

  4. Na verdade, também eu digo que a Guiné é uma das minhas “pátrias” do coração. Estive ali em 1968-69 e, felizmente, tive uma “boa guerra”, pois era oficial de transmissões e estive em Mansoa no Comando de Agrupamento 2952 (que integrava o batalhão de S. Domingos), de onde passámos para Bissau para formar o COMBIS (Comando de Bissau). Isso deveu-se ao facto de Spínola ter alterado a estratégia militar e o meu comando tinha muito bons oficiais superiores, como era o caso do Major Carlos Fabião. Este era também muito considerado na Guiné do meu tempo e acompanhei-o em pequenas missões como voluntário (só ele me levava a arriscar-me, até porque nessa altura eu já estava casado e tinha um filho).
    Mas não era possível ganhar uma guerra daquele tipo e ninguém acreditava que seria possível combater com a finalidade de a vencer em termos militares. Por isso, pela descrição que me deram, tenho pena de não ter conhecido o Capitão Luís Filipe Rei Vilar. Conheci sim outras pessoas notáveis, como alguns missionários franciscanos (da gafaria de Cumura e de Bubaque, nos Bijagós) e o Padre Mário de Oliveira que pregava na igreja de Mansoa contra a violência praticada por alguns militares, o que lhe valeu a saída da Guiné, da capelania militar e, mais tarde, um famoso processo da PIDE que o levou à prisão. Muitos de nós tentavam sim compreender a cultura das gentes de diversas etnias. Historiador que era e sou, ainda tentei fazer um estudo numa área em que não era especializado — a Antropologia — sobre a etnia balanta, que se espalhava por toda a Guiné, mas que tinha áreas em que predominava, como o “chão” de Mansoa.
    Na Guiné também aprendi a gostar do que se chamava o “In” (inimigo, que não era), nomeadamente a figura carismática de Amílcar Cabral, pelo que vim a orientar uma tese de doutoramento, que é a melhor obra (publicada em várias edições) sobre o combatente pela independência, que tinha uma formação bem portuguesa, da autoria de Julião Soares Sousa, nome europeu de um mancanha da zona de Bula, acima de tudo um grande amigo e um excelente intelectual guineense, que só tem como defeito (neste mundo) ser humilde de mais. E também coordenei a publicação e prefaciei um ensaio da guineense-caboverdiana Ângela Benoliel Coutinho sobre o PAIGC.
    Enfim, guardo imensas memórias da Guiné (onde voltei por duas vezes a convite do Centro Cultural Português, de Bissau, de que era director o Dr. Mário Matos e Lemos, que se tornou um grande colaborador do que tenho feito e que ele faz sozinho, ou com a minha colaboração, muito melhor) e não resisti a escrever estas linhas, sobretudo porque se tem por vezes uma ideia muito errada das nossas relações com essa região de África, em especial por parte de “intelectuais” ou pseudo-intelectuais que não sabem bem o que é esse continente e querem ver sempre em tudo colonialismo e racismo. Tal como vêem mal o interior deste país, em alguns casos tão abandonado.
    O colonialismo existiu, obvia e indiscutivelmente, mas também houve quem entendesse que a África e a sua população deveriam ser respeitadas e amadas, sem tentar alterar os aspectos fundamentais das suas culturas. Fui opositor do Estado Novo e sei que foi um crime o que sucedeu ali — o prolongamento militar de uma situação colonial insustentável que levou muitas vidas —, mas também admiro que na Guiné não haja um anti-portuguesismo sistémico, que por certo será evidente noutros lugares.
    Porquê? Porque a guerra ali foi mais limpa (se é que há alguma guerra limpa)? Porque a Guiné é uma terra pobre e foi mais uma feitoria do que uma colónia? Porque se respeitou mais as culturas das diversas etnias? Porque os portugueses ali eram mais raros e tentavam compreender o lugar onde estavam e amá-lo, como sucede ainda hoje com o meu antigo aluno Miguel Nunes, da Casa Nunes, que ali continua e onde (segundo me disse) ali quer morrer. Proprietário do Hotel Coimbra, convidou-me há tempos para ali passar uma semana, que eu só não aceitei devido à minha idade já avançada e a problemas de saúde, mas principalmente porque, a voltar ali, não seria como viajante (costumo dizer que nunca sou “turista”) sem dar alguma coisa de mim a essa terra, como sucedeu nas outras vezes.
    Chega de conversa (é muito mais do que um “comentário” o que escrevi), embora esta seja sentida, a pensar no capitão de Suzana — saudações aos seus irmãos, que mantêm viva a sua memória — e a pensar no povo guineense (mesmo no povo autêntico, de todas as etnias), que, apesar de ser pobre (sobretudo segundo padrões europeus), é rico nas suas culturas e no seu carácter. Esperemos, pois, que a Guiné, sem sair dos conceitos da identidade africana e das suas gentes, se torne um país pacífico e em constante evolução.

    Figueira de Lorvão (Penacova – Coimbra), 17 de Agosto de 2021

    Luís Reis Torgal

    • adorei ler o seu comentário, tenho pena que não possa voltar à Guiné. Mas, se lá voltar, gostaria de o acompanhar com a minha câmara de vídeo. Abraço forte.

  5. Caro Carlos, agradeço-lhe as indicações para ver as duas vídeos sobre a Guiné…um sobre o passado recente e outro sobre a Guiné dos nossos dias de hoje. Lastimamos sempre o que aconteceu neste pais depois da sua independência onde uma guerra intermitente minou todas as energias dos guineenses. Há muitos problemas ainda por resolver! Mas o segundo video é fabuloso e é verdadeiramente tónico! Sem queixumes, sem amarguras, as gentes da Guiné na sua extraordinária diversidade vão “lutando, ensinando e construindo” o seu dia-a-dia e o seu futuro com optimismo e com harmonia. Costura, farmacopeia tradicional, musica, dança… Este video será enviado a todos os sócios e amigos da nossa Associação. Algo que se sente nesta terra é a harmonia com que as diferentes etnias e religiões convivem umas com as outras e a força desta Guiné. Muito obrigado pela sua sugestão!

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