Crime Perfeito

Quando o criminoso confessa, mas não assina a confissão. Quando o criminoso confessa, mas não diz onde escondeu o corpo. Quando o criminoso confessa, mas sabe que a Justiça já nada pode contra ele.

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Na madrugada de 2 para 3 de março de 2014, Carla Santos foi esfaqueada até à morte pelo marido, Moisés Fonseca, na residência em Belas, Sintra. Três meses antes, Marcelo Santos, o irmão de Carla tinha sido dado como desaparecido. A morte de Carla foi confessada por Moisés. As razões do crime são as do costume para desfechos fatais de crimes passionais: ciúme.

Moisés foi julgado e condenado. Vinte anos de cadeia é uma pena pesada, no âmbito do código penal português. Ainda está a cumprir essa pena.

Depois de julgado e condenado, Moisés confessa ter morto igualmente o irmão de Carla. Tratou-se de uma confissão informal. Foi uma confissão falada e nunca passada a escrito e assinada. No entanto, os agentes da Polícia Judiciária que escutaram a confissão fizeram um relatório do ocorrido.

Segundo consta nesse relatório, a confissão decorreu ao longo de seis “conversas informais” que tiveram lugar no Estabelecimento Prisional da Carregueira e nas instalações da PJ. Essas conversas foram sempre testemunhadas por três inspetores da PJ.

Curiosamente, nas descrições que fez dos acontecimentos que levaram às mortes de Carla e Marcelo, há grandes semelhanças. Nas palavras de Moisés, tanto Carla como Marcelo foram os primeiros a tentar agredi-lo, ambos munidos de facas, aos dois Marcelo conseguiu subtrair a arma e aos dois esfaqueou até à morte, sempre em legítima defesa. A diferença entre os dois crimes é que, no caso de Marcelo o corpo nunca foi encontrado e no caso de Carla não houve maneira de disfarçar as evidências, apesar do criminoso se ter desfeito da roupa que vestia e que ficou manchada do sangue da vítima.

Enquanto a morte de Carla teve o preço estipulado pela Justiça, a de Marcelo permanece impune. O relato dos inspetores da PJ não teve consequências, estamos perante um crime perfeito e as “conversas informais” apenas serviram para satisfazer o lado mais escuro do ego de Moisés.

Amélia Santos, a mãe que perdeu os dois filhos que tinha, afirma sem medo que “a Polícia judiciária não investigou como deveria” o desaparecimento do seu filho e que foi igualmente incompetente a investigar os indícios de práticas de pedofilia que foram encontrados no computador de Moisés.

Amélia diz que “passados sete anos continua tudo na mesma. O criminoso já confessou que matou o meu filho, e até como o fez, e o que aconteceu? Nada…”

Amélia ainda não fez o luto por um filho que sabe estar morto e continua a reclamar por justiça.

(continua)

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