No futuro vamos ter miniflorestas urbanas

Faculdade de Ciências de Lisboa: está a nascer uma mini-floresta urbana. Biodiversidade para lidar com as alterações climáticas. A cinco de Junho, passam três meses exactos desde que começou um projecto inovador em Portugal: uma mini-floresta descrita no site oficial da FCULresta como sendo “densa, biodiversa e multifuncional”, fruto de um projecto europeu designado como 1Planet4All, nascido de uma aliança de 14 organizações não governamentais europeias que trabalham com o objectivo de fazer das alterações climáticas uma causa e problema comum a todas as regiões da União Europeia.

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Conversámos com António Alexandre, professor de Biologia na Faculdade de Ciências da Universidade lisboeta, que apresentou o projecto: “Este cuidado com a natureza e o querer fazer espaços que ao mesmo tempo envolvam a natureza e a comunidade é uma coisa que eu, o David Avelar e muitos dos meus colegas da Horta da FCUL já fazemos há mais de dez anos. Tivemos a oportunidade de trabalhar com um projecto europeu que é 1Planet4All, basicamente, um projecto para capacitar os jovens para as alterações climáticas, e nesse sentido pensámos em actividades para fazer com eles, que os capacitassem para de uma forma real para lidar com isso. E algo que nos interessou, há mais de um ano, foi este método do professor Miyawaki (um método de um professor japonês) que pretende transformar espaços pouco produtivos e pouco diversos em locais mais parecidos com aquelas que seriam florestas desenvolvidas e maduras, em locais urbanos”, descreve.

Ao que se sabe, em Portugal este é o primeiro projecto inspirado no trabalho e ensinamentos do botânico Akira Miyawaki, embora já existam trabalhos na Holanda e Reino Unido. O docente recorda o interesse dos dirigentes da Faculdade: “A Faculdade ficou muito interessada nisto e até nos ofereceu espaços maiores que este para fazermos isto. Quisemos fazer neste espaço pela ligação que ele tem quase pessoal connosco (o projecto da Horta FCUL) mas também pelo facto deste local ser interessante: tem as dimensões certas para testar o método e também este declive… decidimos apostar neste espaço”, acrescentou.

Uma das características do terreno, que tem uma dimensão máxima de 300 m2 (seguindo as indicações do método Miyawaki), é a ligeira inclinação, que para alguns poderá ser um obstáculo, mas como frisa o professor de Biologia, essa inclinação até joga a favor da mini-floresta porque permite por exemplo a criação de um um charco que ajuda a reter água. A mini-floresta possui cerca de 45 espécies de flora no projecto, bem como alguma fauna: insectos, estando ainda previstos répteis e anfíbios.

António Alexandre lembra que o solo deste projecto foi enriquecido com composto da Valorsul, a partir de resíduos alimentares das populações. Um solo em plena malha urbana estará “contaminado” com poluição atmosférica e com elementos circundantes (cimento, asfalto, por exemplo). O docente explica que é preciso retirar um pouco do solo que já existe e criar um solo novo. “É importante referir: antes de implementarmos isto, fizemos análises ao solo que estava aqui. E é uma das várias componentes da monitorização científica que vamos fazer ao longo dos anos, ver como está o solo. Marcamos vários pontos aqui pelo espaço, retirámos várias amostras do solo, e fizemos análises, para perceber como as coisas estavam. E logo nas análises, vimos que não existia nenhum desses elementos que seriam completamente nocivos para as plantas ou mesmo para nós. Ficámos mais seguros com isso e aplicámos o composto com a confiança de que iria correr tudo bem”.

Apesar disso, António Alexandre recorda que as plantas “são excelentes a conseguir processar elementos que consideramos nefastos”. São capazes de existir em solos contaminados e mesmo de os melhorar ao longo do tempo: “quando estamos a falar de plantas, na verdade, a essência disto é o solo, a vida microbiana, as bactérias e os fungos que se vão desenvolvendo ao longo do tempo, com a interacção das raízes, e os seres vivos que aqui estão. Tudo isso irá eventualmente levar a que o solo fique mais ‘limpo’”, frisa.

“Estamos a fazer uma monitorização científica dos vários elementos que a floresta tem”. Ou seja, a equipa da FCULresta procura saber se o método japonês pode funcionar no contexto português, que é um clima mediterrâneo/atlântico. A equipa monitoriza as plantas e animais, faz amostragens de tudo em cada mudança de estação visando várias características. Já houve mesmo câmaras a vigiar as várias espécies e chegou mesmo a haver morcegos. Sobre estes mamíferos, o entrevistado explica que os morcegos europeus comem fruta ou insectos, pelo que não atacam outros animais ou seres humanos. “A natureza tem vários papéis para os vários elementos e os morcegos, como um desses elementos, têm o seu papel”, explica. “Na altura, quando definimos as espécies já pensando um pouco nesse aspecto de como é que vão crescer e de que forma vão crescer. Esse é que é o desafio aqui. Porque a densidade com que plantamos isto, ou seja, o número de espécies por metro quadrado, é muito mais elevada do que encontraríamos naturalmente seja no Alentejo ou noutra parte qualquer. Não sabemos, na verdade, como é que elas vão reagir: não sabemos se vão crescer bem umas com as outras, ou se vão haver certas espécies que vão dominar as outras ao longo do tempo, se algumas espécies vão desaparecer ao longo do tempo…”, recorda o biólogo.

Nesta fase é sobretudo a observação de como evolui o projecto, ver os padrões da existência das espécies, para mais tarde poder aconselhar quem queira replicar a experiência noutros locais. Algo que António Alexandre espera que aconteça, em Lisboa e noutros locais do País.

O biólogo lembrou ainda que “nós, como homo sapiens sapiens, 90% da nossa existência foi em contacto com a natureza” e que “a criação deste tipo de projectos nas cidades, para além do valor comunitário (que para mim é muito relevante, porque cada vez é mais preciso que as pessoas não só estejam com a natureza, mas em conjunto com a natureza e a respeitem em conjunto)… num mundo cada vez mais dependente das tecnologias, este é um local que permite esse reconhecimento de uns para com os outros”.

Outra das novidades deste projecto é o uso de “bolas ou bombas de sementes”, um conceito estranho para a maior parte do público: quando se cria solo e composto, a seguir coloca-se a chamada manta morta; por exemplo, as folhas mortas que caem no solo criam essa manta morta, que não só dá nutrientes ao solo como o cobre e protege da radiação solar, evitando a evaporação da água existente. Quando se coloca palha como recurso, as sementes que seriam lançadas ficavam debaixo da mesma, e ao crescer iriam fazer um esforço extra para passar entre a palha. A equipa da FCUL decidiu usar uma técnica em permacultura chamada bolas ou bombas de sementes, “uma mistura de argila e composto: fazemos pequenas bolas compostas de 50% de argila e 50% de composto. A argila vai dar água e estrutura à bola e o composto os nutrientes, e há três meses atrás, no dia 5 de Março, com todos os participantes, produzimos centenas dessas bolas com sementes de plantas nativas e outras comestíveis, para promover e maximizar este espaço. Quando a bola de semente cai em cima da palha, fica lá e vai germinar em cima da palha, não tem aquela dificuldade em atravessar e já está num meio que não só tem água e humidade pela argila como tem o alimento do composto, e o efeito é termos agora plantas gigantes que não têm um mês e meio. Foi algo que funcionou bastante bem, algo inovador que trouxemos para cá”.

“O nosso grande objectivo é promover mais espaços naturalizados, sejam florestas, sejam hortas, sejam jardins mais biodiversos, porque nós achamos que é mais importante esta parte de trazer a natureza para as cidades e de trazer as pessoas para a natureza”, acrescenta o docente universitário, que lembra a existência de vídeos na plataforma Youtube para quem quer descobrir mais sobre este projecto. “Temos que ir pelos exemplos práticos, temos de criar espaços para mostrar às pessoas coisas que muitas vezes achavam que não sentiam falta, mas quando elas têm ou podem aproveitá-los, elas percebem esse valor. Muitas vezes percebemos que as pessoas que passam por aqui sentem e percebem a importância que estes espaços têm e isso motiva-as muito”.

O nome vem do seu criador, o botânico japonês Akira Miyawaki, que levou a cabo vários trabalhos de campo sobre florestas no Japão, onde chegou a mapear toda a vegetação natural existente em território nipónico, bem como mapas de potenciais futuras florestas. Estes mapas ainda hoje são utilizados em investigação científica na área.

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