Apanha ilegal de amêijoa no Tejo

Numa vídeo reportagem do jornalista Miguel Szymanski no canal franco-alemão ARTE, a Europa e o Mundo ficaram a saber da apanha ilegal de amêijoa no rio Tejo, dos perigos para a saúde pública que a atividade pode representar, da miséria que rodeia os que vivem desta função.

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Em 11 de maio, os jornais e as televisões acordavam as pessoas com a notícia de uma grande operação policial que acabava de desmantelar vários grupos internacionais que lucravam com a apanha ilegal de amêijoa no Tejo. Mas as notícias esqueceram a questão social, que a reportagem exibida no canal ARTE evidencia.

Miguel Szymanski escreveu agora no seu Facebook que “após uma operação policial, que estava a ser preparada há um ano e meio, centenas de famílias de apanhadores de amêijoa nas margens do Tejo estão hoje sem dinheiro para comprar comida.”

Assim é. Neste momento há milhares de pessoas que estão sem meios de subsistência. Muitos deles já tinham sido empurrados pela pandemia para as margens lodosas do Tejo, perdidos os empregos na restauração, na hotelaria, no turismo, nos espetáculos.

O jornalismo que hoje quase todos fazemos sem tirar o cu da cadeira é manifestamente insuficiente para retratar estes casos. Seria preciso viajar até à Trafaria, Montijo, Seixal, embarcar nos botes da Cova do Vapor ou enterrar as pernas nos baixios debaixo da ponte Vasco da Gama. É aí que a ação se passa, não nos press release da polícia.

Seria, talvez, a única maneira de sensibilizar governantes e legisladores que também não tiram o cu da cadeira para ir saber dos problemas das pessoas. A Lei é para ser cumprida, sim. Mas a Lei tem de servir a comunidade, porque quando se limita a criminalizar e não oferece alternativas, apenas serve para arrastar pessoas para as margens igualmente lodosas da Lei.

Neste momento, a polícia cumpriu e fez cumprir a Lei, os políticos e deputados almoçam, tranquilos, arroz de tamboril com gambas, depois de uma requintada sopa de amêijoas, no restaurante do edifício novo da Assembleia da República. Mas Miguel Szymanski reporta no Facebook  que uma compradora habitual de amêijoa lhe disse que “vieram dezenas de pessoas bater-me à porta a dizer que estão a passar muito mal sem dinheiro para comer”. Não é demagogia. É a vida, mesmo.

Tudo isto é ainda mais lamentável se pensarmos que a amêijoa que se apanha no Tejo é uma espécie invasora. Veio agarrada nos cascos de navios cargueiros desde o Mar da China até ao Mar da Palha. As águas e o lodo poluídos do rio fazem destas amêijoas um produto perigoso para consumo humano, mas se a atividade tem viabilidade económica podiam ser criadas infraestruturas para a depuração das amêijoas e podiam ser implementadas regras de proteção ambiental adequadas. Mas é mais fácil proibir, claro.

fotografias de Miguel Szymanski

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