População Sem Abrigo: fazer igual e esperar resultados diferentes?

A criação de ‘mega estruturas’ de apoio aos sem abrigo conduzirá sempre a um foco de insegurança na envolvente, dado estarmos a falar de pessoas dependentes de álcool ou drogas, que necessitam de ajuda, e que ao não poderem consumir dentro da estrutura o farão nas zonas ao redor, cometendo pequenos furtos que lhes alimentem os vícios. Conseguir que estas situações sejam um mal menor em prol de um bem maior numa determinada envolvente só pode ser conseguido concentrando pequenos grupos de pessoas, apoiados com equipas capacitadas e em número suficiente.

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Foi notícia que a Câmara Municipal de Lisboa aprovou um investimento de quase 1 milhão de
euros para qualificar o Quartel de Santa Bárbara, em Arroios, transformando-o num ‘mega’
centro de acolhimento de pessoas em situação de sem abrigo, “com capacidade para 130
pessoas, podendo chegar às 200”, segundo o Vereador Manuel Grilo.


Voltemos a Março de 2020, quando o Pavilhão do Casal Vistoso, no Areeiro, foi definido como
resposta de emergência para acolhimento de pessoas em situação de sem abrigo em Lisboa.
Com capacidade anunciada para 40 pessoas é agora referido que as 90 pessoas que aí
pernoitam vão ser transferidas para Santa Bárbara. O claro overbooking do Pavilhão Casal
Vistoso poderá ajudar a justificar os relatos de aumento da toxicodependência, mendicidade,
assaltos e vidros partidos nas redondezas do Pavilhão (reportadas no Correio da Manhã em Maio e no Público em Novembro). Aliás, não será por acaso que, na sua página oficial na rede social Facebook, a Junta de Freguesia do Areeiro comunicou aos seus seguidores esta transferência para Arroios como um modo de “devolver a tranquilidade e segurança desejada e natural da área envolvente”.


O projeto no Quartel de Santa Bárbara, tal como foi o do Casal Vistoso, é outro mau
exemplo de como a Câmara Municipal espera ter resultados diferentes fazendo mais do
mesmo. A criação de ‘mega estruturas’ de apoio aos sem abrigo conduzirá sempre a focos de
insegurança na envolvente, dado estarmos a falar de pessoas dependentes de álcool ou de
drogas (cerca de 40% da população em situação de sem abrigo, segundo dados da CML), que
ao não poderem consumir na estrutura o farão nas zonas ao redor, cometendo pequenos
furtos que lhes alimentem os vícios. Conseguir que estas situações sejam um mal menor em
prol de um bem maior numa determinada envolvente só pode ser conseguido desconcentrando e apoiando pequenos grupos de pessoas, com equipas de apoio numerosas e capacitadas.


Não sendo assim, é de esperar que as imagens de delinquência, insalubridade, de vidros de
automóveis partidos, de ‘salas de chuto’ a céu aberto e de insegurança que se tornaram
regulares nos grupos de vizinhos do Areeiro se mantenham, só que desta vez noutra freguesia.
Não é uma inevitabilidade que o apoio aos sem abrigo num determinado espaço tenha de
trazer problemas à envolvente – não se pode é insistir em ‘mega’ soluções que já provaram
não funcionar.

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