Lisboa diz adeus à Viúva Lamego

A loja da Viúva Lamego fecha dia 23 de abril, depois de 172 anos de porta aberta ao público. Trata-se de uma decisão economicista, apenas. Acreditam que vão desenvolver o negócio sem loja, que lhes basta a internet. Poupam na renda e talvez nos salários de alguns trabalhadores, mas perdem carisma e perdem o lugar onde fizeram História, o que não é pouco. É o que tem feito a diferença, a favor desta empresa que produz azulejos.

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A empresa já passou algumas crises, mas sobreviveu. Nas montras está a representação da última crise ultrapassada. Na montra da esquerda, um martelo velho e muita loiça partida. Na montra do lado direito, um martelo em porcelana que simboliza o renascimento da Viúva Lamego. A funcionária que nos recebeu confidenciou que “talvez esteja na hora de fazer outro martelo” que simbolize o atual momento.

Os azulejos da Viúva Lamego estão espalhados um pouco por todo o Mundo. Em Lisboa passamos por eles e nem reparamos, por exemplo, em algumas estações do Metropolitano, em reproduções ou originais de obras de arte de artistas plásticos portugueses.

Estamos acostumados a olhar para o azulejo como um revestimento de interiores, para cozinhas ou casas de banho. Mas nem sempre foi assim, há 200 anos o azulejo era o material de revestimento por excelência e muito utilizado em paredes exteriores. Em muitos casos, o azulejo pintado foi o material utilizado para os mais antigos outdoors publicitários de que há memória.

Muitas vezes, a publicidade servia de decoração para as paredes exteriores da loja ou da empresa que queria dar nas vistas. Foi o caso da Casa Viúva Lamego, que revestiu a loja e a fábrica com os seus próprios azulejos.

 A loja fecha e, de repente, o futuro de mais uma das Lojas com História de Lisboa torna-se uma incógnita. Têm sido muitos os casos em que estas lojas históricas são desperdiçadas depois de vendidas ou do negócio encerrar. A Câmara de Lisboa classifica os imóveis, mas depois não tem tido vontade política para os preservar.

No caso da loja da Viúva Lamego, o edifício tem a classificação de imóvel de interesse público e a fachada, em azulejo de estilo naïf oitocentista, é considerada exemplo pioneiro no uso do azulejo como meio publicitário. 

Construído entre 1849 e 1865, o edifício do Intendente apresenta a fachada decorada na íntegra por azulejos figurativos, da autoria do diretor artístico da fábrica, Ferreira das Tabuletas.

“Originalmente a oficina de olaria de António Costa Lamego, veio a converter-se em fábrica, e adoptou a denominação Viúva Lamego quando a mulher de António Lamego assumiu a sua gestão, na sequência da morte do marido, em 1876”, tal como conta a empresa na sua página web.

E se no lado do largo do Intendente nos parece ser um pequeno edifício, a fachada do lado da Almirante Reis revela-nos uma frente com mais de 50 metros, com a fachada completamente decorada com azulejos com mais de 170 anos.

Durante mais de um século a empresa manteve-se sempre na mesma família. Há cerca de 16 anos foi vendida ao grupo Aleluia Cerâmicas, tendo há quadro sido comprada pelo seu atual CEO, Gonçalo Conceição.

A Viúva Lamego continuará agora a produzir na fábrica-atelier, na Abrunheira, Sintra, onde tem o showroom aberto ao público. 

6 comments

  1. Espero muito que seja preservada e restaurada! Azulejos maravilhosos!
    Alguns julgo que serão do meu bisavô Pintor/Decorador PEREIRA CÃO (José Maria Pereira Junior) que tambem penso que na época chegou a ser Director Artístico na Fábrica! Eu gostaria de saber mais sobre esses azulejos.
    Filipa de Victoria Pereira R. de Barros

  2. Uma boa oportunidade, talvez, para a Câmara Municipal de Lisboa preservar o edifício com todas as suas características, e dentro dele até, o lugar mais apropriado para o MUSEU DO AZULEJO PORTUGÊS.
    Desafio quem ler este poste, a partilhar pelo maior número de pessoas possível, acrescentando sua opinião pessoal também.

  3. Faz todo o sentido preservar este edifício e penso que seria a Câmara Municipal de Lisboa a ter essa obrigação cultural. Já existe o Museu do Azulejo no Convento de Xabregas, mas, pelo menos todo o exterior do edifício é só por si uma obra da Arte do Azulejo, a visitar e colocar nos guias turísticos), e o seu interior poderia ser adaptado a qualquer espaço cultural ( talvez até às diferentes materiais e técnicas do fabrico dos Azulejos… ou de Cerâmica) Há tantas hipóteses!!

  4. Perda enorme, Câmara de Lisboa por favor preservem o mais bonito do nosso país, os nossos azulejos,ceramicas, calçadas, sem isto Portugal fica sem interesse para ser visitado.Os nossos vizinhos preservam tudo quanto tem história, por isso tem uma grande indústria de turismo.

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