O que eles fazem com o nosso dinheiro

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Trabalhar no Banco de Portugal é um privilégio. Façam uma busca na net sobre “conflitos laborais no Banco de Portugal”. Não encontram nada. Não há conflitos, devem todos ganhar razoavelmente, dos motoristas e porteiros ao senhor Governador. As regalias devem ultrapassar as arrelias e, provavelmente, é capaz de ser um dos melhores empregos do Mundo.

Claro que as regalias não são iguais para todos. Exemplo das reformas douradas ao fim de poucos anos de serviço. Mesmo regalias mais comezinhas como ir relaxar para a Quinta da Fonte Santa, não deve estar ao alcance de qualquer amanuense ou secretária do BdP.

A Quinta da Fonte Santa, em Caneças, é um caso curioso. Alegadamente, foi adquirida para ali se realizarem ações de formação profissional (é o argumento mais comum nas publicações que referem a ligação do BdP à propriedade). A primeira pergunta que se coloca é se o BdP precisava assim de tanto espaço para ações de formação. Não lhe chegavam os imensos e numerosos edifícios espalhados pelo país, foi preciso comprar os 22 hectares da Quinta da Fonte Santa.

O Banco de Portugal pertence ao Estado. Se a Quinta da Fonte Santa pertence ao BdP é igualmente património do Estado. Mas no muro diz “propriedade privada”. E é gerida como tal. Ao longo do extenso muro existem, pelo menos, três portões. Todos fechados. Um deles dá acesso à escola de equitação, outro parece ser uma entrada secundária, o terceiro portão é a entrada principal. Além de fechado, tem guarita para o guarda.

São 22 hectares totalmente murados. Tem vários equipamentos no interior, desde habitações a piscinas, recantos no meio do bosque com bar de apoio… courts de ténis e picadeiro. Aliás, que se saiba, dentro da Quinta da Fonte Santa funciona uma escola de equitação, essa sim, empresa privada. Há de pagar alguma renda ao BdP, mas não sabemos se paga e quanto paga.

Num artigo já antigo do jornal i, ficamos a saber que “a propriedade foi adquirida em 1989 pelo Banco de Portugal para local de lazer de funcionários e convidados do Banco e suas famílias. A propriedade sofreu várias remodelações, que a tornaram num local ideal para recreio.”

E no site da Câmara Municipal de Odivelas somos informados sucintamente da realização de festas e agradáveis convívios, animados pelo Coro do grupo Desportivo do Banco de Portugal.

Na época em que o BdP adquiriu esta quinta, era Governador o economista Tavares Moreira. O mesmo Moreira que, depois de ter saído do BdP, foi condenado judicialmente, proibido de exercer funções na banca durante 7 anos, por ter manipulado e falsificado as contas do Central Banco de Investimento (CBI) da Caixa de Crédito Agrícola, de forma a ocultar prejuízos de cerca de 25 milhões de euros em 2000 e 2001, com recurso a sociedades “offshore”.

O mandato de Tavares Moreira como governador do Banco de Portugal também foi polémico. No início dos anos 90, sob a sua gestão, o BdP investiu 17 toneladas de ouro num esquema com especuladores financeiros americanos. Perdeu-se o ouro, mas Tavares Moreira ficou com os anéis. Nunca foi responsabilizado. A morte livrou-o de chatices.

Enquanto viveu, gozou a vida. A Quinta da Fonte Santa deve ter sido cenário de alguns desses momentos bem passados.

28/3/2000 Tavares Moreira durante uma conferencia de imprensa do PSD sobre o aumento dos combustiveis Foto: ACACIO FRANCO

1 comment

  1. O que descreves é uma vergonha para todos nós. É a imagem de um país pelo rabo. Clique que autobenificia. Uns poucos nasceram ricos e umas centenas vive como se fossem podres de ricos. Que pena o juiz Carlos Alexandre continuar a contar quantos dias faltam para a reformas e os serviços de informação servirem o governo de serviço e não terem as mesmas dinâmicas que a CIA a NSA ou até o FBI.

    O Nixon foi ao ar graças ao número dois do FBI. Bernard Madof está a cumprir 150 anos de prisão. Trump levou um pontapé no rabo e ainda a procissão vai no adro.

    Por cá ninguém levanta neste caso o crime de peculato?

    Temos todos muito medo.

    E achamos que um dia vamos poder fazer o mesmo “se calhar”, “é uma questão de sorte”, porque “fez ele e fez bem”, “primeiro estamos nós”” “souberam safar-se”, “se não fossem estes eram outros” e por aí fora. Vergonha de nós portugueses.

    Andamos nisto desde 1383.

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