E ainda se queixam?

- A evolução da ciência médica é mais forte que a política – Miguel Guimarães, Bastonário da OM, no discurso da tomada de posse em Lisboa, a 7 de fevereiro de 2020.

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Foi nesse dia que, verdadeiramente, iniciei a minha saga nesta pandemia. Não foi por acaso que, presente nessa cerimónia, me fui sentar junto a um colega com quem sempre mantive boas relações e que, profissional de exceção, prestou relevantes serviços públicos.  

Nessa tarde, prevendo que a pandemia se iria estender pelo mundo, eu já havia cancelado uma viagem de longo curso ao Oriente e alarmava-me a inércia, que registava em meu redor. Sentindo a necessidade de um plano de emergência, aproveitei então para, “abusando da cunha” desse colega, solicitar uma entrevista urgente à nossa DGS. Semanas depois, já com o “azar a bater-nos à porta”, foi-me disponibilizado o TMV de um enfermeiro que, perante a indisponibilidade geral, talvez me atendesse…  

A 2 de março, com as máscaras e o gel esgotados, e enquanto se assistia a uma patética corrida ao papel higiénico, o PR havia de fugir de Belém, onde nem sequer haviam montado um plano de contingência.

E, dias depois, também o PM visitava, acompanhado de dezenas de emplastros à molhada e sem máscara, uma unidade de infeciologia da capital, enquanto um Secretário de Estado da Saúde, ainda hoje o “técnico de serviço quando a coisa corre menos bem”, se deslocava ao aeroporto para receber, em “nacional-porreirismo”, o nosso primeiro infetado que chegava do Oriente.

Como se comprova, tudo gente bem aconselhada e que sabe o que faz!

Médico jubilado, foi então que, tal como mais de mil, correspondi ao apelo da OM, propondo-me a integrar a Linha SOS, que entrara em rotura. Dias depois, o país foi informado da contratação de 250 novos enfermeiros… ao que a Bastonária da OE denunciou, sem qualquer vínculo e a 6 €/hora.

E assim chegámos a abril quando, já em confinamento, as autoridades pediram auxílio logístico, mormente em Portalegre, onde alguns técnicos requeriam alojamento. Detendo a empresa, que aí dirijo, condições excecionais para albergar os “heróis” dessa luta, e mesmo suas famílias, de imediato respondi a esse apelo.

E foi assim que, dias depois, uma administrativa da saúde local me contatou. Porém, embora empenhada, não entendia que tal oferta teria de decorrer segundo regras de segurança pré-definidas. Transferida a chamada para o mais alto responsável disponível, um enfermeiro, este acabaria por me “despachar” com o pedido de envio de um “regulamento”, que seria analisado se e quando possível.

Até janeiro de 2021, quando voltei a ser contatado, desta vez por uma Associação ligada à hotelaria. A intenção era alojar profissionais que, tais como os do Luxemburgo, tinham de ir acudir ao “incêndio” que lavrava no Alentejo. Em resumo, quantas noites é que eu dava? 

Informei então que a nossa oferta era quase ilimitada e sem fins lucrativos, mas que teria de obedecer ao cumprimento de critérios de segurança e de transparência, bem precisos. E depressa cheguei à tarde de sábado de 6 de fevereiro, quando recebi uma chamada do Hospital de São João, do Porto, aparentemente o Serviço que estaria a coordenar tal logística. Ora toma!

Excecional, e após cinco minutos, uma tal Ana Sofia percebeu as regras e logo deu luz verde a um “plano de emergência” muito simples: qualquer admissão, no nosso hotel, passaria por uma entrevista pessoal, ainda que por TMV, e mais o pedido formal eletrónico, por parte de uma qualquer entidade.  

E foi assim que, nos dias seguintes, via Internet, fomos inundados com dezenas de pedidos de origem duvidosa. Explicitadas, de imediato e pela mesma via, as condições e os contatos a ter, e tal como esperávamos, só um respondeu. Muito bem recebido, prometeu voltar não sem antes deixar uma triste história:

Jovem médico interno de Coimbra, e com excelente nota, fora destacado vezes sem conta com outros colegas para Portalegre, sem qualquer prémio e vencendo um salário que mal pagava as despesas da viagem. Para, no fim de 24 horas de serviço contínuo, e sem tempo para ir a casa, lhes terem sido facultadas velhas casas devolutas, sem as mínimas condições de higiene ou outras. O grupo acabaria por se refugiar nos sofás de um colega, até que um voluntário ofereceu a sua própria casa, a quilómetros. Tendo-se apresentado sem a devida credencial, ficaria de insistir nessa formalidade, nada tendo conseguido até agora.  

E enquanto o “vento” silencia a desgraça, muitos milhares de portugueses continuam com os seus processos clínicos adiados, mormente na SS, sem que as centenas de médicos que se voluntariaram tenham sido abordados.

Há dias, quando, em boa segurança, já poderíamos estar a desconfinar algumas atividades económicas em quase todo o território, a comunidade científica foi “bombardeada” com mais uma opinião sem nenhum fundamento técnico. Na sua mensagem, em defesa de um confinamento sine die, o sempre “bom conselheiro” PR afirmou, no que logo foi partilhado pelo PM, que, em Portugal, a pandemia crescia mais depressa do que descia. É falso!

E, depois, ainda se queixam de que a nossa melhor juventude emigra?

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