Cavaco ainda fala

O regresso de Cavaco Silva às actividades partidárias, leva-nos a pensar na dificuldade que sentimos em perceber os outros. Incluindo os nossos amigos e a família.

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Cavaco Silva teve duas maiorias absolutas como primeiro-ministro e dois mandatos de Presidente da República. Colheu muitas simpatias durante largos anos. Mas foi sempre o apóstolo da desgraça e o arauto do “queima ou vende tudo” que nos encaminhou para a situação política e económica em que estamos.

A sua alegada sabedoria foi errática. Vale a pena recordar o elogio da venda da Sorefame (que fabricava com sucesso carruagens de comboios) à Bombardier. Era para potenciar, disse ele. Viu-se! A Sorefame foi abatida.

Também não esquecemos como Cavaco garantiu na televisão que o BES estava sólido. Foi a poucos dias de o império de Ricardo Salgado se desmoronar. As consequências foram tremendas. Quem ainda comprou papéis do BES deve estar furioso com este grande estratega, de nome Cavaco Silva.

Cavaco é um caso estranho de sucesso. Hostilizado por Sá Carneiro como ministro das Finanças, acabou em líder do PPD-PSD pouco depois. Foi fazer a rodagem do carro ao Congresso dos populistas na Figueira da Foz e zás… ali está o novo líder. O homem garantiu sempre que não era político. Mas tem-se mantido na política como um sempre em pé.

Goste-se ou não de Cavaco Silva e do deserto que ele deixou, uma coisa é certa: é difícil entender quem está ao nosso lado. Quem diz bem e mal de Cavaco, com uma diferença temporal de cinco minutos. Estas variações rápidas impedem-nos de fazer bons planos. Dificultam até as nossas relações mais simples. Com irmãos, amigos, pais ou a família. Ficamos atordoados na procura de objectivos fiáveis e felizes.

Sim, caso contrário, nunca votaríamos para o comando da República num homem que come bolo-rei de boca aberta perante o País inteiro.

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