Bugio, a madeira apodrecida e os navios encalhados

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As autarquias de Oeiras e Almada têm uma querela antiga e civilizada sobre o Bugio. Em tempos idos, o Bugio já esteve ligado por um istmo à Trafaria e, portanto, pertenceria ao concelho de Almada, mas o Marquês de Pombal quis ficar com o calhau só para ele e agregou-o a Oeiras. Na verdade, o Bugio pertence à APL – Administração do Porto de Lisboa, a gestora das duas margens do Tejo desde o Bugio até Vila Franca de Xira.

Almada chegou a ter um projeto, nos anos 60 do século passado, para a construção de um porto marítimo e o fecho da golada, unindo definitivamente o calhau do Bugio a terra. Mas Salazar deixou andar e nunca nada se fez.

Hoje, o Bugio é uma espécie de berloque, não serve para nada, mas é das tais joias de família que ninguém quer por no prego.

Quem vai ao Bugio (no verão há passeios organizados a partir da marina de Oeiras) fica admirado com a paisagem e com a resistência daquelas pedras ao longo dos séculos. Mas o interior da estrutura militar está um pouco degradado, as madeiras apodrecidas. Por dentro é um sítio abandonado. Por fora tem outro brilho.

A capela, os tanques de azeite (o farol funcionou a azeite, óleo, queima de gás, até ser eletrificado com energia produzida por geradores em 1959), as camaratas dos soldados e, mais tarde, dos faroleiros, os paióis, enfim tudo aquilo que se construiu para que o Bugio funcionasse como fortificação militar de defesa da barra do Tejo e farol de ajuda à navegação desde o final do século 16 (quando era rei D. Sebastião). As obras demoraram o seu tempo e só no reinado de D. João IV o forte foi “inaugurado”, digamos assim.

Em 1755 foi destruído pelo terramoto, em 1758 o Marquês de Pombal mandou reconstruir a estrutura, Salazar ordenou a desativação como estrutura militar em 1945, hoje é farol automatizado, com energia solar e já sem faroleiros.  

Tem sido uma dor de cabeça para engenheiros e afins, a conservação do forte, num local constantemente agredido pela força do mar e erodido pela corrente do rio. Já não existe o areal que o rodeava e, na maré baixa, permitia quase que lá se chegasse a pé a partir da Caparica. Hoje é um baixio que volta e meia prega partidas a marinheiros mais azelhas ou azarados. Aliás, não é por acaso que a zona entre o Bugio e a Trafaria se chama Cova do Vapor, designação nascida do naufrágio de uma embarcação a vapor, o “Patrão Lopes”, em 1936.

O último acidente foi em 2018 quando o “Betanzos”, um cargueiro espanhol que saía do Tejo encalhou no baixio do Bugio e emocionou os auditórios das televisões com as histórias do resgate da tripulação e da embarcação. Mas houve muitos outros, ao longo dos anos. E enquanto o baixio ali estiver, há de voltar a acontecer.

encalhe do “Betanzos”, 2018

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