Admirável mundo novo

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Durante alguns anos trabalhei em Paris, num canal de televisão. É uma cidade mais fria que Lisboa, não só na temperatura ambiente. Mas, em termos atmosféricos, faz frio. Entre Outubro e Maio faz um frio de rachar. No centro de Paris é raro nevar, mas nos arredores é frequente. A minha casa ficava em Bussy Saint George, a uns 40 quilómetros do centro de Paris. Em Bussy faz muito mais frio do que na cidade. E o que faz a diferença não é a distância, é a poluição. Paris é aquecida pela poluição. Bussy tem menos poluição. Todos os dias quando regressava a casa notava que o termómetro da mota indicava 4 graus a menos à chegada. Se estavam zero graus na Rua Cognacq-Jay, em Bussy estavam -4.

Mal comparado, é o que se passa em Lisboa e Mafra, por exemplo. Em Lisboa os jacarandás florescem sempre mais cedo do que fora da cidade. Em Mafra, às vezes não chegam a dar flor. Mafra é um sítio frio. Lisboa tem a poluição a aquecê-la. É como se as grandes cidades estivessem sob uma campânula. Só que não é uma campânula protetora. Os governos das cidades preocupam-se mais em tratar o lixo e a poluição do que a evitar que se produzam. Às vezes até parece que querem continuar a alimentar indefinidamente o negócio do tratamento e reciclagem de lixo. Porque é um negócio.

A Organização Mundial de Saúde estima que mais de quatro milhões de mortes anualmente podem ser atribuídas à poluição, que geralmente é causada pelo uso ineficiente de energia em residências, indústria, desmatamento, transporte e atividade agrícola, assim como centrais elétricas a carvão.

Em muitas cidades europeias, a poluição é um problema real. A poluição atmosférica provoca muitas doenças. Asma, cancros, doenças crónicas, alergias. Quando perguntei à médica que trata dois dos meus três filhos que são alérgicos a quase tudo, um deles é também asmático, porque razão aquilo acontecia, ela respondeu-me que era da poluição.

E disse-me, ainda, que os limites instituídos para a poluição ambiental, nomeadamente a atmosférica, não são definidos só pela ciência. Na equação entram muitos interesses, desde os industriais aos comerciais. E os políticos que temos não sabem resistir às pressões dos grupos económicos. É por isso que em muitos lugares respiramos ar envenenado e bebemos água com demasiados químicos e nos alimentamos com produtos afetados pela poluição e pelos anabolizantes. Sempre nos limites da Lei, é claro.

Os paraísos não existem e as fábricas dão emprego a muita gente, dirão vocês. Sim, mas cada vez menos, digo eu. A indústria está cada vez mais robotizada. Quantos operários humanos vê na fotografia desta fábrica de montagem de automóveis?

Um dia destes, os industriais livram-se definitivamente de operários e sindicatos. A tradicional imagem da saída dos operários da fábrica no final do turno será apenas uma recordação em fotografias antigas…

As pessoas é que não se livrarão da poluição. Nem das máscaras que filtram o ar que respiramos. Mas já nos estamos a habituar, certo?

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