Os santos rejuvenesceram!

Surpreendi-os. Entrei de mansinho, pé ante pé, não os queria distrair, que os imaginei em oração. Um ainda me espreitou; os outros mantiveram-se absortos, protegidos pelo halo providencial dos resguardos. Foi assim, há uns meses, quando, antes de abrir a sessão da assembleia-geral da Santa Casa, fui espreitar, na Sala da Provedoria, anexa à Sala do Despacho, as imagens e os quadros que tinham regressado do restauro… Imagens e quadros do espólio da igreja.

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Quiçá, algum dia, surja a dúvida: porquê tanta obra de arte nas igrejas? E quem diz nas igrejas católicas, poderá também pensar nas ortodoxas, nas mesquitas ou nas sinagogas. Os templos constituem, aliás, numa cidade, lugares de visita turística por excelência, justamente por neles se haverem congregado, ao longo dos séculos, genuínos testemunhos da Arte.

Resposta muito simples, creio. Tal como nós gostamos de ver as paredes de nossas casas com imagens que as embelezem e nos ajudem a ter serenidade, também os fiéis que se reúnem num templo gostam de poder admirar as esculturas, as telas, que os ajudem a mais facilmente comungarem com a Beleza divina.

Essas manifestações artísticas – fruto, amiúde, de mui devotas doações – têm, além disso, uma intenção didáctico-pedagógica, se assim me é lícito exprimir-me. É que de imediato me surgiram ao pensamento as imagens fortes dos mosteiros da Bucóvina, na Roménia. As suas paredes, tanto as interiores como as exteriores, inteiramente preenchidas por policromas pinturas a fresco, a representar cenas da Bíblia e dos Evangelhos. Toda uma doutrina se espelha ali! E ficamos embevecidos perante aquelas obras-primas que demoraram, algumas, anos a serem devidamente acabadas! Numa altura em que a literacia – como hoje se diz – era mínima, esses quadros funcionavam, às mil maravilhas, como livros abertos. E atraentes!…

A igreja da Misericórdia

A igreja da Misericórdia de Cascais não foi, por conseguinte, alheia a esse movimento de dádivas ou de aquisições, ao longo dos seus já 470 anos. A instituição foi fundada em 1551 e teve como primeiro templo a capela de Santo André. Existe, aliás, uma saborosa lenda a esse propósito, contada, após o terramoto de 1755, pelo Pe. António Inácio da Costa Godinho, pároco da igreja da Ressurreição, pois que era a essa paróquia que pertenciam então as terras da margem esquerda da Ribeira das Vinhas.

Conta ele que «há, na dita casa da Misericórdia, uma imagem perfeitíssima, com o título de Nossa Senhora dos Anjos, da estatura de uma mulher ordinária, e se não sabe quem a fez. Está sobre uma penha, com dois anjos e, no meio, uma coroa com as armas de Portugal. Apareceu, naquele tempo da ermida de Santo André, antes de ser Misericórdia, em uma praia junto à dita ermida, para onde foi primeiramente levada; e, daí, para a dita igreja paroquial da Ressurreição, primeira e segunda vez. E, de uma e outra vez, tornou a aparecer na mesma ermida, onde a deixaram estar e se lhe erigiu a Irmandade do mesmo título, que ainda hoje existe e tem compromisso aprovado pelo Ordinário. É imagem muito milagrosa e devota e poucos imploram o seu patrocínio que não alcancem o benefício que pretendem, principalmente quando sai fora, por ocasião de alguma necessidade pública, que milagrosamente se vê remediada a dita necessidade».

Recorde-se que a igreja da Ressurreição se localizava sensivelmente onde está hoje o largo da estação da vila.

Voltando à questão das doações, não é, pois, de admirar que hoje se leia esta resenha na página da Santa Casa:

O seu património móvel, já inventariado – peças de escultura, paramentaria, pintura, ourivesaria, cerâmica e mobiliário – está intimamente ligado às práticas de culto religioso e à realização das procissões das Endoenças e do Senhor dos Passos. Endoenças eram as cerimónias de Quinta-feira Santa e a procissão do Senhor dos Passos, de larga tradição na vila cascalense, realizava-se na Sexta-feira Santa.

Há, na igreja (voltamos à página da Santa Casa) imagens de São Joaquim e Santa Ana (século XIX), Santa Bárbara (séculos XVII-XVIII), Santo António com o Menino (século XVIII), duas Nossas Senhoras (século XVII), a referida imagem de Nossa Senhora dos Anjos (séculos XVII/XVIII), uma imagem de vulto perfeito de madeira policromada representando a Virgem com o Menino “Salvator Mundi”, amparado sobre a mão esquerda da Mãe, braço erguido, maça a repousar sobre a mão, rosto alongado, olhar sereno… A maça, redonda como o mundo, a simbolizar esse carácter salvífico.

Como e porquê os surpreendi!

Importa, pois, explicar como é que eu fui encontrar os santinhos nesse recato todo, quando deveriam mostrar-se à devoção dos fiéis.

É que, como se supõe, não é só nos humanos que o tempo deixa marcas: nas esculturas e nos quadros também. Por isso, a dada altura, para lhes reavivar cores, limpar poeiras incómodas, prevenir bichezas maléficas, há que fazê-los entrar – para estarem na moda – em quarentena! Dir-se-á que, como santinhos que se prezam, decidiram dar o exemplo e… entraram em quarentena antes dos humanos. E foi necessária toda uma equipa bem adestrada para bem os acompanhar nesse período de restabelecimento.

Escolheu-se a WOA, Way of Arts, uma empresa 100% portuguesa (apesar do nome escolhido), que – como o seu mentor, Gonçalo Leandro, teve ocasião de nos dizer – «está a fazer 18 anos de vida e encara a conservação e restauro, desde sempre, como um processo de reflexão, no qual se conjuga a interpretação com a ação na procura de um balanço harmonioso entre a obra, o passado e o presente».

Palavras bonitas, estas, que – garantimos – correspondem à verdade.

Para nós, de resto, é uma empresa nossa vizinha, sediada no ninho empresarial (como eu gosto da designação!…) que dá pelo nome ADN Cascais, ali para as bandas do alto da Cruz da Popa, Alcabideche, e que, apesar da sua ‘juventude’, já arrecadou, em 2015, uma  Menção Honrosa, no âmbito do Prémio Nacional de Reabilitação Urbana, por ter sido responsável pela conservação e restauro de várias áreas do Palácio da Pena, sendo de destacar o trabalho desenvolvido no Salão Nobre; teve, em 2012, o prémio Empresa Empreendedora do Ano, no quadro do Prémio DNA Cascais; recebeu, também nesse ano de 2012, uma menção honrosa da Associação Portuguesa de Museologia, “Melhor Intervenção em Conservação e Restauro”, pelo trabalho realizado no Refeitório dos Frades do Palácio de São Bento. As intervenções feitas desde 2013 a 2017 em monumentos da área da Parques de Sintra-Monte da Lua (Palácio da Pena, Palácio de Monserrate e Chalé da Condessa d’Edla)contribuíram para a atribuição do World Travel Award à Parques de Sintra-Monte da Lua, tida pelo júri como a melhor empresa do mundo em conservação.

Acrescente-se que a WOA considera as artes e ofícios como «uma área fulcral para equilíbrio emocional, não só de quem as executa, mas também da sociedade em geral» e tem-se empenhado, por isso, em «tentar encontrar soluções que permitam salvar alguns ofícios que estão a desaparecer e que são fundamentais para o futuro na preservação do património histórico». Registe-se que, neste domínio do apoio às artes e ofícios, agrada aos seus mentores ver, nos projectos a que lançam mão, «artesãos, artistas e técnicos de conservação e restauro talentosos, empenhados e realizados». Inserida no projeto europeu Smart Hands, a Way of Arts está a concluir um filme sobre a forma como olha para as artes e os ofícios.

Bem andaram, pois, os responsáveis pela preservação do património móvel da Santa Casa da Misericórdia de Cascais ao entregarem aos jovens técnicos da WOA uma tarefa que já estava a ser prioritária e de que eles se desempenharam – e continuarão a desempenhar-se – a contento.

Mui resguardados, nem todos os santinhos se deixaram mostrar aquando da minha incómoda visita; mas o que vi, garanto, satisfez-me plenamente.

2 comments

  1. Mais um belo texto de José d´Encarnação. Todos os interstícios da extensão são recheados de informação apetecível. Gosto desta reflexão sobre o papel que a Arte desempenha (em quase todos os templos religiosos do mundo) na expectativa dos fiéis que a eles se recolhem. Diz José d´Encarnação que as imagens, esculturas e pintura sacras, são uma espécie de intermediação entre a beleza divina e as expectativas humanas, mormente dos que, em recato as contemplam, crentes de ficarem, assim, mais próximos da divindade. Gosto de lendas, e já a propósito do património imóvel religioso, destas que se relacionam com Cascais. As mais comuns têm a ver com o aparecimento de imagens de santas, sempre elas, belíssimas e persuasivas (até lhes fazerem as vontades) que são surpreendidas em lugares ermos. E tudo vem a propósito de uma reunião de José d´Encarnação numa sala da Misericórdia de Cascais, contígua a uma espécie de armazém, onde um conjunto de imagens religiosas, recuperadas com “arte” e semi-escondidas, esperam a sua vez de aparecer. O autor detalha de que material são feitas, quem representam, a simbologia que lhes está associada. Mas ainda mais importante, realça a sensibilidade e cuidado que certa empresa de créditos firmados, WOA, coloca no restauro de peças de arte. E um desses cuidados é respeitar a beleza de cada exemplar, neste caso esculturas e a sua relação com o tempo em que foram criadas. E acima de tudo garantir que elas continuam a desempenhar essa função de intermediárias entre a divindade e o crente. Volto a dizer: que belo texto.

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