O marinheiro camuflado

Foi uma má escolha, colocar um militar na coordenação do Plano de Vacinação. E confirmou-se, com a sua aparição de camuflado nº3 na TV. O novo coordenador estava vestido como quem vai para a guerra e não para o controle de vacinas de uma pandemia. Foi um cheirinho a Sidónio Pais.

0
1252

E claro já veio falar para além do âmbito do cargo. Como se fosse especialista em medicina. Andou o Pinheiro de Azevedo a despir a farda, quando era primeiro-ministro, nos tempos difíceis do PREC – Processo Revolucionário em Curso, para agora 47 anos depois termos um marinheiro de camuflado à frente de uma Comissão de Vacinação.

Ramalho Eanes também começou assim, nos cartazes dos anos quentes da Revolução. Mas com fato de cerimónia. E rapidamente enveredou pelo civilismo. Mesmo quando, em plena campanha presidencial, subiu para o tejadilho de um automóvel, no Alentejo, para fazer peito às balas.

Os militares vestem os seus trajes próprios nos quartéis e nas guerras. Só nos faltava, um dia destes, um advogado aparecer de toga num acto público ou um médico de bata para tomar posse num cargo público.

Recordo-me deste militar à frente das Relações Públicas da Marinha. E soube da sua passagem pelos submarinos. Mas por que razão isso lhe dá créditos no âmbito de uma pandemia? 

Não podemos passar a vida a lançar mão a militares para legitimar o poder. Como aconteceu antes de Abril de 1974. E depois. Com Spínola, Costa Gomes e Eanes. Somos um Estado de Direito Democrático, como sempre disse o professor Jorge Miranda. Respeitam-se os currículos profissionais e as competências.

Leave a reply

Please enter your comment!
Please enter your name here