Do tempo em que as leitarias tinham vacas

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Antes dos frigoríficos e da pasteurização, havia as vacas. Em Lisboa, por exemplo, quem quisesse beber um copo de leite ia à leitaria. O funcionário ordenhava o animal, o leite era fresquinho, acabado de sair da teta da vaquinha. Isto foi assim até finais do século XIX (19 em numeração romana).

O século XX foi uma vertigem em invenções, avanços tecnológicos. O homem foi à Lua e as vacas desapareceram das leitarias. As leitarias deixaram de ter estábulo nas traseiras, os intermediários começaram a ficar ricos com a distribuição alimentar, passou a ser fino ir lanchar um copo de leite, um galão, uma torrada com pouca manteiga.

Em pouco tempo, as leitarias passaram a cafés. Na passagem para o século XXI alguns desses cafés mais antigos passaram a restaurantes. O turismo justificava a aposta e a margem de lucro num bitoque ou num hambúrguer não tem comparação com a que se obtém com uma meia de leite. Aconteceu assim com A Brasileira do Chiado ou o Majestic no Porto, por exemplo. E aconteceu assim com a mais antiga leitaria da capital, A Camponeza, estabelecimento que ainda vem do tempo do estábulo e da vaquinha pronta a dar leite.

É uma das poucas lojas centenárias que ainda sobrevivem em Lisboa. A fama foi adquirida nos anos 70, 80, do século passado, quando a baixa lisboeta era o “centro do Mundo”, onde se reuniam tertúlias de intelectuais pelos cafés do Rossio e do Chiado. Alguns iam à leitaria A Camponeza, casos dos músicos Vitorino e Janita Salomé ou do cineasta João César Monteiro. Clientela que reforça a suspeita de que já então A Camponeza disponibilizava mais alguma coisa para além de copos de leite. Naqueles tempos, as ruas da baixa estavam cheias de comércio, era ali que as pessoas iam comprar roupa, sapatos, artigos para o lar, quinquilharia, botões e fitas de nastro, flores, mobília, tudo se vendia na baixa.  As melhores empresas tinham de ter escritório na baixa, assim como os bancos. Era ali a alma de Lisboa.

A Camponeza assistiu ao passar do tempo e resistiu a esse desgaste. Ainda lá está. Passei pela rua dos Sapateiros há dias. A leitaria estava fechada. Quando a pandemia passar, voltará a abrir as portas. Hoje já não vende copos de leite. É um restaurante.

Apesar de A Camponeza já não ser o que foi, a alma de uma cidade faz-se também destes locais que nos contam histórias e História (que são coisas diferentes). Seria interessante que locais como este pudessem ser preservados, não só em termos estruturais, mas, também, em termos funcionais. Para que Lisboa não se torne numa cidade banal.

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