Bem diz o povo que, uma vez médico, é-se médico para sempre. Contagiado pelo “vírus da Medicina”, de súbito dei comigo no centro de um “furacão” que ameaçava pôr o mundo num caos. Dessa vez, assim o escrevi, “era mesmo a sério” e havia que “trabalhar certinho para salvar milhões de vidas”.
Enfronhado nas parcas informações que me chegavam, em finais desse janeiro já anulava viagens de longo curso. E, perante o caos a que assistia, e sem ter falho uma só previsão, em fevereiro dei comigo a publicar um conjunto de textos em que propus dezenas de medidas certeiras, que urgia implementar à escala nacional e internacional.
Um ano depois, embora cansado de pregar no deserto, entendo ser meu dever chamar a atenção para o atual estado de um planeta, onde Portugal bate tristes recordes:
1 – A dependência de instituições nacionais e internacionais insuspeitas que, como a OMS ou a nossa DGS, sonegaram informações e protelaram decisões básicas no combate a uma pandemia prevista há décadas.
2 – A impreparação e arrogância de uma classe política, que ainda hoje resiste a entregar a gestão da crise a especialistas.
3 – A marca terrível do poder económico que, centrado em fármacos lucrativos, atrasou várias estratégias que mais tarde revelaram razoável eficácia terapêutica.
4 – O eclipse da comunidade científica nacional e internacional que, jugulada por vários interesses, nunca conjugou esforços e trocou ciência válida.
5 – Uma anedótica agenda mediática que, focada na gestão política e em lugares comuns, promoveu poderes, silenciou especialistas e ocultou graves denúncias.
6 – A incompetência de “técnicos” que, sustentados por uma tutela ignorante, não garantiram uma correta, atempada e equilibrada coordenação de recursos e de esforços, com notória repercussão em todo o funcionamento do SNS.
7 – O desprezo pela prevenção, sobretudo nos grupos de risco, alegadamente para evitar o “alarme social”, a par de uma patética formação sanitária das populações, ainda hoje confundidas por uma “telescola” intragável.
8 – A falta de concentração de esforços nas primeiras linhas do combate – transportadores, agentes de segurança e da proteção civil – perante um cenário que cedo se revelou como de “guerra biológica”.
9 – Os atrasos na aplicação de planos de contingência, desde os lares às prisões, das escolas ao Palácio de Belém, bem como na declaração dos estados de emergência, ainda que parcelares.
10 – O total desnorte da “geringonça” de comando, razão de práticas assimétricas, descoordenadas e até erradas que instalaram o caos na testagem, nas estatísticas e na vacinação.
11 – A tónica nos hospitais de retaguarda e na ventilação assistida, de reduzido alcance clínico, em vez da ativação da prevenção e da organização do suporte básico.
12 – A eclosão de comportamentos eticamente reprováveis, e até criminalmente puníveis, que nada de bom prenunciam.
Em junho de 2020, a pedido de um amigo da Universidade Católica, o Prof. Mendo Henriques, escrevi em “RESSURGIR – 40 PERGUNTAS SOBRE A PANDEMIA”, um livro publicado em Edições Paulistas”:
As graves omissões, desvios e erros evidenciados por quase todos os governos, e também por insuspeitas organizações nacionais e internacionais, durante o combate à pandemia, desnudaram a impreparação da atual classe dirigente, em maioria condicionada a interesses políticos e económicos dominantes.
Caído num pandemônio, e mais do que injetar dinheiro e tecnologia, urge que o homo sapiens reflita sobre a sua própria civilização: sem repor “velhas tradições”, como o primado da ética, da razão e da ciência, e perante tanta variável e incerteza, adivinha-se um século XXI muito turbulento.
Passaram, entretanto, mais seis meses. Será que ainda não é tempo de deitarmos contas à vida?