Abriram pastelaria em Oeiras na véspera do confinamento

Chama-se Naturluv e fazer diferente é a chave para a sobrevivência. Doces e pão, sem glúten, sem lactose, uma pastelaria alternativa que quer resistir à crise através da inovação. O veganismo é a tónica desta pastelaria do concelho de Oeiras, que defende uma alimentação sem glúten, sem lactose e sem recorrer a ingredientes de origem animal. O Duas Linhas conversou com a engenheira alimentar Márcia Oliveira e com Ricardo Cabral, formado em vendas, os fundadores de uma empresa fora do comum que aposta em expandir-se através das redes sociais para enfrentar os constrangimentos causados pelo coronavírus.

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“É um projeto que já se iniciou, vai fazer agora um ano, de alimentação saudável focado na alimentação inclusiva. Temos vários tipos de alimentos: bolos, bolachas, pães”, explica Ricardo Cabral: “todos os nossos produtos são sem glúten, vegan, sem açúcares refinados e sem lactose”.

O empresário revela o porquê do nascimento desta pastelaria: “Vimos que não existia no mercado um doce que pudéssemos comer e não estivesse carregado de açúcares refinados ou de hidratos de carbono vazios”. Como detetou esse nicho de mercado, resolveram trabalhar para dar este tipo de produtos a todos os públicos, seja a quem tenha restrições alimentares ou esteja numa dieta.

Mas o que é ser vegan? Márcia Oliveira explica: “ser vegan é não utilizar produtos de origem animal [ovos, leite, etc.] e é também um movimento de vida. Todas as pessoas que escolhem não prejudicar os animais. É uma preocupação ambiental”. Entre os vários tópicos sobre alimentação vegan, surge um termo pouco usual e que muitos ainda desconhecem: a aquafaba. Márcia esclarece: “a aquafaba é a água do cozimento do grão; pode ser qualquer tipo de grão, e utilizamos isso para substituir os ovos, para produzir aquela fofura que os ovos dão às massas dos bolos e às tortas”.

Para além desse ingrediente pouco habitual, utilizam também óleo de coco, não refinado, como substituto da manteiga, e também utilizam azeite. “São óleos saudáveis para as pessoas”, diz Márcia.

Nesta pastelaria, o açúcar refinado é considerado um inimigo. A razão está nos riscos para a saúde. “O maior risco é a subida dos níveis de açúcar no sangue”, diz Ricardo, que lembra que o consumo de açúcar pode levar à diabetes e à obesidade.

“Ao início, as pessoas não compreendiam bem o que era este conceito novo de haver bolos que fossem saudáveis. E muita gente tem a ideia pré-concebida de que a comida saudável não tem muito sabor e é insonsa, mas depois de provarem, mudam de ideias”, afirma Ricardo. Diz ainda que o uso de ingredientes naturais aumenta o sabor dos doces. Um exemplo é a receita da torta de laranja alternativa: leva aquafaba e açúcar de coco, ou em alternativa, geleia de agave [geleia extraída da planta do agave e que serve de adoçante, sem qualquer processo de refinamento].

A pandemia e o confinamento não os assustaram. Ricardo Cabral diz que “desde a nossa génese, estivemos prontos para conseguir resistir à pandemia. O nosso espaço é pequeno, somos uma pastelaria sem lugares sentados. Logo desde o início quisemos funcionar em regime de take away e entrega ao domicílio, conseguimos com o nosso planeamento ter uma adaptação melhor à situação em que estamos”.

Ainda assim, os problemas não se fizeram esperar. “Tudo parou e as encomendas foram muito atrasadas, até os próprios processos legais para abrirmos a empresa demoraram mais para obtermos resposta”.

A divulgação da Naturluv é feita sobretudo nas redes sociais (Instagram e Facebook) e já têm clientes na Margem Sul. “Através do Instagram de vez em quando fazemos alguns workshops, damos algumas dicas de como se podem usar estes ingredientes em casa, e temos feito assim. Mas quando isto tudo acabar, queremos utilizar o espaço na nossa loja para receber as pessoas”, diz Márcia. 

Ainda existe a perceção de que ingredientes como as farinhas de grão, de arroz e açúcar de coco são caros e nem sempre ao alcance de todos. Márcia diz que não é bem assim: “quando se faz, por exemplo, um bolo sem glúten e vegan, nós não vamos utilizar a mesma quantidade de farinhas que usamos para fazer um bolo tradicional. A nível de custo, não é algo tão elevado. Por exemplo, o açúcar de coco: como é um açúcar que naturalmente é mais doce, já podemos reduzir na quantidade de açúcar introduzido na receita quando comparado com o açúcar branco. A nível de custo, há de ficar mais ou menos em conta, para as pessoas poderem fazer em casa”. E se os preços de tais ingredientes fossem mais reduzidos? “Isso seria ótimo, o problema é que em Portugal ainda não existem muitas empresas que tenham esse tipo de farinhas. Nós utilizamos farinhas isentas de glúten e optamos sempre por utilizar biológicas”. Ricardo Cabral lembra que “já foi mais caro. Como é um mercado que está a crescer, vai haver mais oferta, e havendo mais oferta os preços também vão descer”.

Ricardo e Márcia, a esperança adoça-lhes a boca. Sem glúten e sem açúcar refinado.

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