Sem vacina à vista, assim vai a nossa Arqueologia

- A presente pandemia, ao agravar a crise financeira e ao restringir o tráfego internacional, realçou uma evidência que há muito venho denunciando: o património arqueológico lusíada, em prejuízo da ciência histórica e da nossa identidade cultural, continua à mercê de oportunistas e pilha-galinhas…

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Alguns dos segredos mais excitantes que a vida me revelou, resultaram de incursões pela “grande floresta da arqueologia”, um recanto de evasão. Nessas longas “caminhadas”, que me abriram a um conhecimento mais profundo sobre o desenvolvimento humano, tive a felicidade de apreciar, e em certos casos até de poder preservar, inúmeras raridades de quase todas as civilizações e épocas.  

Um raríssimo auroque em mármore, proveniente do Alentejo, ainda com a assinatura em X, corrente na pré-história

No rescaldo dessas “aquisições”, que agora procuro distribuir por museus, uma certeza assentei: dotado de um clima privilegiado e de um confinamento imposto pelo oceano, sem espécies concorrentes fortes e com uma orografia que permitiu bons abrigos, o território que habitamos facilitou suaves povoamentos que deixaram marcas geniais. Sem dúvida, Portugal é dos países mais ricos em achados arqueológicos.

Rara estátua de uma “deusa da fertilidade”, em alabastro, encontrada em Abrantes

Mas como pode um simples “curioso” sugerir tal opinião se, desde há décadas, não aparecem artefactos com interesse e se os nossos museus apenas se enchem de cacos? Há quantos anos não aparece ouro, por exemplo?

Estátua de mamute, rarissima, talvez única no mundo que não é de osso ou marfim, encontrada em Sintra

A resposta a esta magna questão vai sempre “bater no mesmo ceguinho”. Com uma Jurisprudência assente em leis que “protegem ferozmente o interesse público”, a nossa Justiça, quando funciona, quase sempre sacrifica o justo e protege o pecador. E é assim que até o património à guarda de importantes instituições se volatiliza, ainda de forma mais segura do que em Palmira ou Bagdad. Será preciso recordar exemplos?

A explicação para esta “anomalia” é muito simples. A nossa legislação foi plasmada da lei francesa, onde qualquer novo “tesouro arqueológico” é pertença do Estado. Um quadro legal que os franceses contornaram habilmente porque, desde aí, a Bélgica passou a ser sede oficial de quase todos os achamentos relevantes. Já no nosso país, com a obrigação de se suspenderem imediatamente demolições ou escavações, restam duas “safas” a quem tiver o “azar” de topar qualquer “coisinha”: ou cala o bico e arrasa tudo; ou, dentro do velho princípio de que o segredo é a alma do negócio, procura retirar algum provento nas redes de tráfico dirigidas sobretudo para a vizinha Espanha.

Mas há ainda mais e ainda pior. A par da “garimpagem privada” que, tal como a prostituição, só em teoria é combatida, o “negócio” depressa alastrou ao setor público onde se desenvolveu uma cultura de pilhagem a que raros investigadores escapam.

Passo a explicar, até por ser uma “praia” que frequento há dezenas de anos. As investigações arqueológicas, ancestralmente entregues a estudantes em férias sob a égide de professores credíveis e interessados, passou, entretanto, a ser pasto de dezenas de “empresas privadas” a quem o Estado contratualiza os serviços de exploração. Sociedades controladas na maioria por agentes do Estado, não espanta a garantia de negócios lucrativos: se nada aparece de relevante, a empreitada é a “despachar”; se surgem “peças boas”, sacam-se pela calada da noite e ainda voam mais depressa do que no Egipto, no século XIX; e se aparecem cacos ainda bem, pois assim se reforçam currículos e se alimenta a indústria de restauros que também tem direito à vida.

Há muito procurado para emitir pareceres técnicos sobre peças antigas, e vítima como os demais portugueses de confinamento físico, em 2020 fui surpreendido pela mostragem de peças que, na posse de privados, não conseguiram “passaporte” fácil para sair de Portugal. Desde sempre interessado em promover a defesa do nosso património e cultura, e com muito tempo livre, entre outras preciosidades que me foram presentes dei-me ao cuidado de, recentemente, destacar uma coleção que integra milhares de peças do Paleolítico e que será uma das mais importantes “jazidas” extraída numa só “estação”, em todo o mundo.  

Resgatada, há décadas, por um amador, sob a ameaça constante da burocracia e da “ciência oficial”, que neste caso optaram por privilegiar uma abusiva extração de areias, nunca a “autópsia” ao local foi promovida. E, no entanto, pela morfologia e composição dos artefactos, tudo ali aponta para que o povoamento da Europa se tenha iniciado há centenas de milhares de anos e pelo Estreito de Gibraltar.

Há cerca de dois meses, quando anunciei este “achado” em crónica que mereceu várias publicações e milhares de visualizações, acrescentei ser essa também a tese adiantada por novos autores que, com base em estudos genéticos, sugeriam que os nossos primitivos seriam berberes e não caucasianos. Para minha surpresa, dias depois, também a revista “Super Interessante” avançava com a mesma tese, agora num extenso artigo de um reputado autor espanhol que se fundamentava em provas arqueológicas bem menos consistentes do que as que Portugal dispõe.   

Tendo, desde sempre, os legítimos proprietários deste “resgate” manifestado firme vontade em o disponibilizar aos “estudiosos” de carreira, quando divulguei a sua existência acreditei, ingenuamente, que em breve seria contatado por alguém. No entanto, apesar das explícitas fotos que acompanhavam o texto “Adão e Eva”, nunca tal veio a acontecer. Inconformado, resolvi então informar alguns investigadores nacionais, na berra, da existência desta coleção. No entanto, espantosamente ou talvez não, nenhum respondeu a uma comunicação que certamente fará as delícias de qualquer Instituto Europeu da especialidade.

Um verdadeiro sarilho se tal vier a acontecer, comprovando uma pandemia negada por todos os interesses dominantes, em Portugal. Como tudo indicia, refiro-me ao “vírus da corrupção”, contra o qual parece não  haver vacina disponível nos próximos anos.

14 comments

  1. A questão como a coloca não corresponde inteiramente â verdade. Existem muitas empresas de arqueologia que não são dirigidas por agentes do Estado (nem com eles têm qualquer ligação). Para além disso, os arqueólogos são profissionais como todos os outros e têm direito a receber os seus honorários em troca do trabalho desenvolvido. Muitas vezes, os proprietários escondem as descobertas por não quererem contratar os arqueólogos para analisar e registar o que apareceu, pois consideram que é um gasto desnecessário.
    Depois, tal como aconteceu consigo, pensam que só os reputados professores universitários estão capacitados para estudar esses tesouros. Mas tal também corresponde a um pensamento incorrecto, pois muitos dos melhores investigadores na área da arqueologia não estão nas universidades. Não tiveram cunhas para ficar por lá.

    Se estiver interessado em que o espólio seja estudado e entregue aos museus competentes basta procurar-me no facebook: Jorge Feio (com a fotografia de um gajo à pesca: eu).

    Um abraço e bom ano

  2. Com certeza esse senhor, curioso e coleccionador, terá provas daquilo que afirma, para poder falar assim tão à vontade. Porque não denuncia essas situações à Polícia Judiciária e à DGPC? Para grandes afirmações terão de haver grandes evidências, caso contrário será só uma questão de tentar caluniar uma classe académica / profissional por motivos que, por enquanto, nos escapam.

  3. É um relato de experiência vivida. Ter provas é outra coisa. Isso cabe á polícia ou ao Ministério Público. Já agora, leu o primeiro texto publicado sobre este assunto? Tem um link para ele neste texto que comentou.

  4. Uma palermice sem pés nem cabeça. Peças de originalidade duvidosa sem contaxtos arqueológicos, compra de supostos materiais arqueológicos através de um mercado ilegal, retirada de materiais de sítios arqueológicos (também ilegal), desconhecimento da ciência arqueológica e das suas metodologias, acusações a profissionais sem apresentar qualquer prova. Enfim, de facto que as autoridades tratem do assunto.

  5. ARQUEOLOGIA COM PÉS E CABEÇA

    Muito sensibilizado por centenas de “gostos” e dezenas de “partilhas”, e a par de alguns pedidos de explicação a que já respondi, tomei esta manhã conhecimento de esdrúxulos comentários publicado em “Duas Linhas”.

    Nunca discuto com quem, sem ter a humildade e a cortesia de pedir esclarecimentos, opta por ataques descabidos e infundamentados.

    Em defesa da honra, informo, contudo, que, cidadão cumpridor das leis, há muito alertei a PJ para irregularidades e “vazios legais”, tendo, em sequência, até merecido a honra de “peritar” uma polémica coleção de falsidades, tal como claramente indiciei no meu primeiro artigo sobre este tema.

    O mesmo procedimento sempre assumi com o Ministério da Cultura e o Instituto dos Museus e Conservação, que até já emitiram vários pareceres sobre algumas das coleções por mim doadas ou a doar, certamente com o conhecimento da também aludida DG.
    Considero, pois, “uma palermice sem pés nem cabeça”, qualquer comentário que se possa desenrolar fora do contexto da procura da verdade, a primeira preocupação de qualquer homem honesto, pratique ou não ciência.

    Sem necessidade de comparar percursos cívicos ou profissionais, resta-me lembrar que a calúnia, a ameaça e a intimidação são “artes marciais” com que há muito aprendi a lidar. Desde muito cedo com a PIDE, com quem “convivi” estreitamente. Mas, hoje, prefiro evocar Galileu, uma referência de toda a minha vida…

  6. Caro Senhor Cândido Ferreira, como se costuma dizer, “quem vai à guerra dá e leva”.
    Quando o senhor faz uma acusação geral a toda uma classe académica / profissional, não está à espera, com certeza, de receber mimos ou elogios. Seria a mesma coisa que denegrir toda a classe profissional médica ou outra classe académica qualquer.
    Ninguém o ameaçou e nem o intimidou, bem pelo contrário, o modo como se exprimiu no seu texto, acusando e apontando o dedo a todos os profissionais de Arqueologia, é que se tornou algo sem lógica e sem qualquer sentido de bom senso (daí a palermice sem pés nem cabeça).
    Também constatei que posteriormente se retratou dessa atitude, admitindo desconhecimento sobre a ciência em questão e sobre as metodologias dos seus profissionais.
    Como profissional do Património há mais de três décadas, agradeço, desde já, a sua preocupação em ter denunciado casos irregulares em sítios arqueológicos.
    Quanto aos vazios legais, continua a ter toda a razão, mas isso não é só apanágio da Arqueologia, é uma triste realidade transversal a quase todas as actividades que se praticam em Portugal, como bem conhecemos.
    Da minha parte e de outros colegas lutamos todos os dias pela preservação do nosso legado histórico e tentamos, dentro daquilo que nos é possível, alterar esse estado de coisas, para que tenhamos uma lei de património mais clara e incisiva.
    Começámos com o pé esquerdo, mas fiquei esclarecido que, da sua parte, tomou as medidas adequadas para combater algo que está errado e que nos lesa a todos nós.
    Cumprimentos.

  7. Senhor Vítor de Sousa:

    Tendo o Senhor cumprido os mínimos de urbanidade para merecer uma resposta, esclareço que há muito, e sobretudo desde Março 2020, venho alertando para a degradação do SNS, sem que nenhum profissional do setor, onde “raros escapam” ao caos instalado, tenha interpretado as duras verdades que denuncio como “acusação geral a uma classe”.

    Nada tenho, pois, de que me “retratar”, muito menos de atos ilícitos merecedores do “tratamento das autoridades”. Um sentimento que, aliás, me foi transmitido unanimemente por vários arqueólogos, porventura seus amigos, que me endereçaram mensagens de apoio.

    Mais esclareço que, nunca tendo sugerido possuir qualquer formação académica em Arqueologia, também nunca admiti “desconhecimento sobre a ciência em questão e sobre as metodologias dos seus profissionais”.

    Sobre estas matérias garanto, contudo, conhecer bem duas realidades: a primeira é que no estado atual da arte qualquer artefacto arquelógico é “duvidoso”, até prova em contrário; a segunda é que reconheço com muito maior facilidade os profissionais que, tal como na medicina, não cumprem as “metodologias” da profissão que abraçam.

    Espero e desejo que, relevada com este escrito a sua “fervura em nenhuma água”, o possa vir a incluir entre as pessoas merecedoras da minha estima e consideração.

  8. Caro amigo, para haver fervura tem de haver pelo menos alguma água.

    Para quem trabalhou anos a fio dentro da área da Arqueologia e do Património histórico em geral, em Portugal e fora do país, procurando seguir sempre as metodologias e a ética que aprendi na Universidade e na vida, torna-se revoltante uma generalização como o senhor colocou no primeiro texto.

    Quanto aos artefactos arqueológicos, não me manifesto sobre fotos, mas posso lhe acrescentar que nem todos os itens arqueológicos são duvidosos. Se conhece as nossas metodologias de trabalho e investigação, como afirmou, saberá que a Arqueologia faz-se por contextos arqueológicos e quando um objecto está contextualizado não é duvidoso na sua autenticidade, restando somente a questão da interpretação do mesmo. Quando um objecto está fora de contexto, sendo autêntico, dará apenas uma informação “tipológica” e estética.

    Espero ter sido esclarecedor. Cumprimentos.

  9. Caro amigo Vítor Sousa:

    Preferia que reconhecesse que o corpo humano, com quase 2/3 de água, é suscetível de entrar em ebulição espontânea. Mas, compreendo e relevo, isso é “ciência” da minha área e não da sua.

    Admito, no entanto, que, embora involuntariamente, a leitura de alguns dos meus textos mais contundentes possa fazer levantar fervuras indesejadas. Insisto, porém, que nunca me passou pela cabeça “denegrir classes”, mas tão somente servir quem “segue as metodologias e a ética que aprende na Universidade e na vida”.

    Assim, ambos de acordo, agradeço-lhe os restantes comentários, que se “encaixam” perfeitamente nos magros conhecimentos que detenho sobre estas matérias.

    Na convição de que será um encontro amistoso e frutuoso, e no qual poderei aprender muito, será um prazer recebê-lo, se e quando entender mirar o “outro lado do espelho”.

    Desde já, violando confinamentos, estendo-lhe um abraço sincero.

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