O nosso frio é a margem de lucro deles

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Nem sempre acontece mas, há uns dias, o jornal Sol escreveu uma grande verdade: Portugal é onde mais se morre de frio, no inverno.

Realmente, a maioria dos portugueses não tem dinheiro para pagar contas excessivas de eletricidade. Não porque consumam eletricidade desregradamente, mas porque a eletricidade é tão cara que o salário médio português (970 €) não é suficiente. Esta coisa das médias é caricaturada com aquela história dos dois portugueses em que um deles come duas galinhas e o outro passa fome e a estatística diz que comem ambos uma galinha.  Quando falamos em salário médio convém dizer que 22% dos trabalhadores portugueses ganha apenas o salário mínimo nacional (635 €). E convém não esquecer os que nem isso têm. No final do mês de julho havia 407.302 desempregados inscritos no Instituto do Emprego e Formação Profissional. Para quem teve um salário de 700 € durante os últimos 12 meses, o subsídio de desemprego atual é de 482 €.

É verdade que para desempregados e outro tipo de pessoas ou agregados familiares carenciados, existe a chamada “tarifa social” (30% de desconto), mas que só se aplica a agregados familiares com rendimento inferior a 484 € por mês. Uma coisa para indigentes absolutos.

O que fazem estes portugueses quando a casa fica gelada? Não despem o casaco. Dormem com botija de água quente debaixo dos lençóis e de barrete na cabeça.

Habitações mal construídas

O frio atmosférico penetra livremente nas habitações dos portugueses. Um levantamento, efetuado em 2017, pelo Portal da Construção Sustentável, em colaboração com a Quercus, afirmou que 18 mil famílias sentiam na pele as “condições precárias” de “carências habitacionais”. O mesmo relatório indica que 74 por cento dos inquiridos consideram as residências frias durante os meses álgidos e apenas 1 por cento dos participantes vive numa habitação termicamente confortável. Nos meses de inverno, a taxa de mortalidade cresce 28% devido ao frio. A solução seria recorrer aos aquecedores, mas essa intenção é travada pelo preço da eletricidade, uma vez que Portugal tem das tarifas mais caras da Europa, mas nos outros países os cidadãos possuem um poder de compra muito superior ao nosso.

As casas são mal feitas para os construtores e os mediadores imobiliários ficarem ricos mais depressa. A margem de lucro deles é proporcional ao frio que nos penetra até aos ossos.

Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), quase 19% das famílias não têm condições financeiras para assegurar o aquecimento das habitações, sendo Malta o único país da Europa com uma realidade pior do que a nacional. Mas na ilha de Malta o inverno é suave.

Eletricidade, oitava mais cara da Europa

Ou seja, quase dois milhões de portugueses não têm como manter as suas casas quentes devido ao preço da eletricidade, e estes dados são corroborados pelo Eurostat, o gabinete de estatísticas da União Europeia, que em janeiro do ano passado avançou que 19,4% dos portugueses dizem que não conseguem aquecer as habitações durante o inverno por não terem dinheiro para pagar as contas. E mesmo assim o preço da eletricidade doméstica em Portugal é o oitavo mais caro da Europa.

Se isto não envergonha o governo de um país é porque esses políticos não têm vergonha na cara.

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