Ora, abóbora!

O que pode acontecer quando os ricos vão às compras.

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Portugal acaba de extraditar para o Reino Unido uma cidadã alemã acusada de burla no valor de 1 milhão e 200 mil euros. A extradição está envolta em polémica, uma vez que um pedido de habeas corpus (libertação imediata) ia ser apreciado hoje no Supremo Tribunal de Justiça mas, ontem, às 3 da manhã, a polícia foi tirar a detida da cadeia de Tires para a embarcar num voo para Londres, acompanhada por polícias britânicos.

A pessoa em questão chama-se Ângela Gulbenkian, um apelido que por si só chama a atenção. A senhora é casada com Duarte Gulbenkian, sobrinho-bisneto do empresário Calouste Gulbenkian, um arménio muito rico que se refugiou em Portugal para fugir aos nazis e que, depois, em agradecimento, instituiu a Fundação Gulbenkian que todos conhecemos.

A burla que a senhora terá cometido (falta provar em tribunal que o fez) envolve a compra de uma abóbora de 90kg, pintada de amarelo, esculpida (em bronze?) pela artista japonesa Yayoi Kusama. Porque razão esta abóbora vale uma fortuna é um mistério para os que ignoram os processos de avaliação da arte. Mas enfim, o senhor Mathieu Ticolat deu 1 milhão e 200 mil euros à senhora Ângela Gulbenkian para ela ir comprar a abóbora, coisa que ela nunca fez nem devolveu o dinheiro.

E foi assim que Ticolat (homem rico tem sempre bons advogados) meteu uma queixa num tribunal londrino, que acabou por emitir um mandado europeu de detenção da senhora Gulbenkian, que a polícia portuguesa cumpriu.

A dona Ângela não deve estar muito habituada a ir à mercearia comprar abóboras, ela é marchand de arte, uma espécie de intermediária na compra e venda de obras artísticas, pelo qual cobra as comissões da praxe. Alguma coisa lhe correu mal neste negócio e, agora, já não se safa de passar uns tempos numa cadeia inglesa enquanto espera pelo julgamento.

O marido de Ângela, Duarte Gulbenkian, na iminência de ficar sem mulher nos próximos anos, em vez de agradecido está a ameaçar o Estado português com processos. A verdade é que ficou sozinho em casa desde junho, quando Ângela ficou detida preventivamente em Tires, à espera de ser extraditada. Indo de avião, Lisboa fica a uma hora e pouco de distância de Lisboa, mas as instâncias judiciárias caminham mais devagar e só agora ela lá chegou. E Duarte deve estar com saudades.

No meio disto tudo, a Fundação Gulbenkian. Não tem nada a ver com o negócio, Ângela nunca lá trabalhou mas, a utilização do apelido gera confusão e, dizem os burlados, a senhora utilizava o nome da Fundação, que é o seu também, para facilitar os seus negócios. Na verdade, na sua conta privada de Instagram, onde tem quase dois mil seguidores, Angela Gulbenkian não só se apresenta como colecionadora e responsável por uma tal Gulbenkian Private Art Collection como usa o pseudónimo Pantaraxia, que é nada mais nada menos do que o título da autobiografia de Nubar Gulbenkian, filho de Calouste Gulbenkian.  

O mandado de detenção europeu é um procedimento judicial transfronteiriço simplificado de detenção e entrega de suspeitos e que é válido em todo o território da União. Um dos azares de Ângela foi o “brexit” se ter atrasado…

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