Anormalidade

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Dia 1

Disse que ia voltar. Que esta separação não vai durar muito. Despedi-me da minha praia, dos amigos de sempre e dos novos. Na camioneta em movimento vi o último pôr do sol. Senti-me grata pelo silêncio dos passageiros. Não abri o portátil, pouco olhei para o telemóvel. Em casa dormi profundamente, não há nada como a própria cama.

Dia 2

Fiz frente à chuva para entregar uma chouriça e um pão a um amigo, ofereci outro à estimada vizinha, ainda tenho o kit de petiscos para um terceiro. Está a adiar, vai receber um pão duro, paciência.

Na Almirante Reis percebi que há muito não via carros em fila, tantos! Assim como não ouvia o ruído ou via a cara contrariada dos condutores. Foi o primeiro choque, o trânsito. 

Apesar de andar sempre com a máscara no braço, quase me esqueci de a usar no Alentejo. Os passeios são largos, as pessoas poucas, de forma que voltei a viver a “normalidade” que agora parece tão longe. Aqui a máscara está sempre colada à cara.

Dia 3

Pergunto-me se a invenção das grandes cidades não é uma anormalidade. Em nome do conforto constroem-se edifícios que tapam o céu, a perspectiva do espaço torna-se menor, às vezes reduz-se a metros. Vivemos às camadas, uns em cima dos outros, sem qualquer espírito de bairrismo. Corremos para todo o lado, sempre cheios de pressa, consumimos coisas e mais coisas metidas em embrulhos de felicidade instantânea. Questiono cada vez mais o conceito de qualidade de vida.

Dia 4

A chuva teima lá fora mas tive a coragem de me enfiar numa loja e trocar umas calças por uma camisola gira. Sim, também sou consumista, um trapo novo sempre me põe mais bem-disposta.

Percorro a baixa de noite, sinto paz nas singelas luzes de Natal, é assim que gosto delas: discretas, recicladas do Natal anterior, nada espampanantes. Mesmo assim, a máscara tapou-me o sorriso.

Decido fazer um esparguete com tomatada mas opto por torrar pão alentejano, umas fatias com manteiga (há lá melhor torrada do que esta?), queijos e a chouriça picante que tinha resolvido guardar para mais tarde, mas junto-a ao petisco. Ponho uma mantinha nas pernas, o meu estômago e coração regressam ao mar e à paisagem infinita. Encontro a normalidade dentro de casa.

Dia 5

Não me apetece mas saio à rua, preciso de tirar um código no multibanco. Tão pouca gente na rua, que bom, consigo ver a cidade, até o céu. Mas reparo que as lojas estão fechadas, o supermercado também… Ah! O recolher obrigatório da uma da tarde! As ruas desertas por imposição entristecem-me, mergulho num filme descartável.

Dia 6

A chuva persistente, insiste, lava-me a alegria. Estou em Lisboa há meia dúzia de dias e a paz de espirito já se esvaziou pelas sarjetas.

Nada de dramatismos, pá! Enquanto o alento vai e vem, torro uma fatia de pão alentejano, bebo um chá com mel caseiro. Desde que haja um mimo da vila, aguento-me à vida de cá, aos horários, às máscaras, à tristeza enraizada que me fez fugir ao encontro da normalidade de antigamente. Que estranho o uso da palavra antigamente.

Dia 7

O pão XXL alentejano está a chegar ao fim. A partir de agora as fatias são pequenas, com mais côdea do que miolo. Tal como os dias, cada vez mais duros de engolir.  A chuva, que tanto prezo ouvir dentro de casa, começa a martelar-me a cabeça, tornou-se ruído.

Não tenho café e a ordem de soltura acabou há muito. Hoje lembrei-me do recolher à uma da tarde… Lembrei-me logo de seguida que um dos minimercados abertos tem uma máquina de cápsulas. A alegria do dia!

Entro de novo em casa com um copo térmico na mão, duas bicas lá dentro. E assim, com um pormenor por maior, a chuva pára, o abajur faz de conta que é o sol, acabo o cigarro que vai tão bem com o café, a tristeza sai porta fora. Regresso ao quarto onde o gato aquece a cama e sonha com dias melhores. Junto-me a ele mas demoro uma eternidade a adormecer.

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