Prémio Camões 2020 – uma reflexão oportuna

Na preservação da minha própria identidade, há muito que entrei em “confinamento literário” para assim prevenir contágios ou capturas. Distanciado desses círculos, foi com surpresa que tomei conhecimento da atribuição do “Prémio Camões - 2020” a Vítor Aguiar e Silva, de quem apenas lera a primeira obra, ainda no estertor da ditadura. Inevitavelmente, pelo céu azul das minhas memórias perpassaram algumas nuvens. Tal nomeação, logo imaginei, iria pela primeira vez dar estrilo, em Portugal...

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Conheci Aguiar e Silva entre 1969 e 1971, quando cursava Medicina em Coimbra. À época, a minha geração batia-se contra um poder totalitário e ilegítimo, que cerceava os direitos humanos mais elementares: uma “guerra civil não declarada” que a História nunca apagará e que abriu feridas ainda por sarar.    

Nessa luta pela liberdade e pela democracia, e no cumprimento de “decretos” da academia, não raro integrei piquetes de greve que, alegadamente, intentavam transformar as aulas tradicionais em debates sobre a Reforma da Universidade. Nas Letras, onde a predominância de saias nem sempre conseguia “impor respeito”, Aguiar e Silva era então o delfim de um tal Prof. Álvaro Pimpão, o “papão lá do sítio”.    

As confrontações sucederam-se naquela Escola e de Aguiar e Silva ficou-me a imagem de um assistente talentoso, que nem precisaria da política para subir na vida. No entanto, em sintonia com as “autoridades”, sempre se destacou por recusar o “diálogo”, não hesitando em intimidar quem se lhe opunha. Certamente ao serviço de um Portugal uno e indivisível, meses depois correu que teria até denunciado alunos em processo oficial. E foi sem surpresa que, anos depois, o partido único o escolheu como “jotinha” para a Assembleia Nacional.   

Universidade Nova reconciliada, aberta a todos, tal como a concebíamos em 1969, nunca passou de uma doce quimera da juventude. Quem semeia ventos colhe tempestades e, entre os mais expostos, Aguiar e Silva não escaparia ao “linchamento popular” que se seguiu ao 25 de Abril. Não há revoluções perfeitas, mas, ainda que lamentável, ainda hoje os preconceitos ideológicos e o “canibalismo” são pecados originais que a Universidade de Coimbra sempre recusou admitir. Talvez por agora os praticar de forma bem mais subtil…

Foi, isso sim, com natural surpresa, quiçá indignação, que, cinquenta anos depois, li que Aguiar e Silva se distinguira por marcar positivamente muitas gerações de alunos. Como assim, se a imagem que dele retinha era tão diversa? Poderia alguém, com tal passado, ser merecedor de um prémio tão prestigiado? No entanto, a perfeição é rara entre os homens e os exemplos abundam: quantos não se revelaram superiores, depois de exagerarem na defesa de causas erradas em que acreditaram. Seria o caso?

Obrigado a rever os meus “apontamentos” com alguns amigos, três certezas pude, entretanto, comprovar: para o “Prémio Camões – 2020” sempre o trabalho foi trabalho, não havendo registo de usar o “púlpito” para pregações doutrinárias; ao contrário de muito medíocre, que ainda hoje pontifica, também nunca terá usado a sua “autoridade” para beneficiar aliados ou prejudicar adversários, em provas públicas; e a certa altura do seu percurso de cidadão, certamente privilegiando valores maiores que a ideologia, atreveu-se a, sem contrapartidas conhecidas ou ressabiamentos, travar a voracidade da sua “família de origem” e apoiar Manuel Alegre, um “aristocrata” da honra e da cultura.

Composto um leque de condições essenciais para definir um homem de caráter, que em certo momento se situou no lado errado da História, restou comprovar que, depois de alguns reveses, Aguiar e Silva conseguiu desenvolver uma obra ensaística, a todos os títulos notável, e uma carreira brilhante, reconhecida por milhares de alunos e centenas de colegas, entre eles alguns que admiro. E assim sendo… assunto encerrado.

E assunto encerrado até por que, em coerência com um mundo em que Bob Dylan foi laureado com o Prémio Nobel da Literatura, a “lusofonia” atribuiu o “Prémio Camões – 2019” a Francisco Buarque de Holanda. Um galardão justíssimo e abrangente e a que somente não se associaram Bolsonaros e quejandos.

Nunca imaginei a “vítima Aguiar e Silva”, quando repetidamente proclamei que, à semelhança da Igreja Católica, é mais que tempo da Universidade de Coimbra admitir erros passados e se reconciliar com os seus “mártires”.

Num momento muito difícil em que, mais do que preconceitos ideológicos, prevalecem desvios de caráter na sociedade atual, a atribuição do Prémio Camões a Vítor Aguiar e Silva, longe de controversa, só poderá constituir ensejo para uma boa reflexão em torno de valores que, sendo bem nossos e de toda a Humanidade, poderão ajudar na projeção da lusofonia.

(O autor desta crónica, Cândido Ferreira, ex-aluno e assistente da Faculdade de Medicina; enquanto escritor, e ao contrário de Aguiar e Silva, defende que Portugal lidere, como lhe compete, o novo acordo ortográfico).       

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