Os Touros Bravos não são bois?? Então são o quê??

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Tomámos conhecimento há uns dias que a UNESCO não irá reconhecer as touradas como “Património Cultural Imaterial da Humanidade” em necessidade de salvaguarda urgente, tal como pedido pela associação espanhola International Tauromaquia Association. Aplaudi entusiasticamente esta decisão, mas admito que continuo a ter dificuldade em entender a continuidade deste espectáculo tétrico, particularmente quando se celebra o vigésimo aniversário da Estação Espacial Internacional e se dão passos concretos para pôr seres humanos em Marte. Nesta fase do desenvolvimento da nossa espécie, já não deveria ser necessário ter de explicar porque é que as touradas já deviam ter desaparecido.

Como ando a rebentar de trabalho, quase que deixei esse facto escapar sem comentário, mas entretanto li o artigo de Florbela Fernandes, intitulado “O touro bravo não é um boi” e, depois do facepalm que se impõe quando se lê um disparate desta magnitude – que deixou o Darwin, Linnaeus e mais uma dúzia de naturalistas às voltas nas tumbas -, lá me sentei a escrever estas linhas. Estimada Anabela, um biólogo marinho (como eu) não é um veterinário, mas até eu sei que um touro bravo é uma das milhares de raças (ou sub-espécies) da espécie Bos taurus, que inclui outras raças como a famosa (e deliciosa) Angus, Charolesa, Longhorn do Texas e uma multitude de outras sub-espécies que o Dr. Google lhe mostrará se teclar “cattle breeds”, porque a língua inglesa disponibiliza sempre resultados mais profícuos. Irá notar que o touro bravo aparecerá em todas as listas que o Google disponibilizar, à semelhança das listas disponibilizadas em compêndios técnicos veterinários. E sim, dei-me ao trabalho de confirmar este facto junto da Direcção-Geral de Alimentação e Veterinária, com quem tenho o privilégio de trabalhar em projectos variados há muitos anos.

Já vamos aos argumentos pró-toiros debitados pela Florbela, na sequência de uma visita à maravilhosa ganadaria Murteira Grave mas, antes disso, vamos só deixar algo bem claro: a tourada é um espectáculo durante o qual toureiros – e toureiras – espetam ferros no dorso de um mamífero senciente. “Senciente”, já agora, significa que tem sentidos apurados, que é um conceito com o qual alguém com formação de Assistente Social realmente deveria estar familiarizada. Outros organismos sencientes são, por exemplo, nós, os cães, os gatos, os hipopótamos, as girafas, os ursos, e a lista podia encher largos milhares de páginas. Mas não nos deixemos distrair e foquemo-nos neste ponto essencial: a tourada é um espectáculo durante o qual toureiros – e toureiras – espetam ferros no dorso de um mamífero senciente.

Este artigo devia acabar na frase anterior. Ponto. Porque não há justificação possível para o que está descrito na frase. Ponto. Mas, já que as associações pró-tourada – e a Anabela Fernandes – acham por bem defender algo que é indefensável, atiremo-nos ao exercício de desconstruir metodicamente os seus argumentos, um por um.

O primeiro argumento que normalmente invocam nesta discussão é que as touradas dão emprego a um vasto sector. Essa informação pode ser refutada citando a deputada independente Joacine Katar Moreira, com um sonoro e rotundo “MENTIRA!!!”

Vejamos: a AutoEuropa dá emprego a muita gente; o sector têxtil dá emprego a muita gente; o sector da cortiça dá emprego a muita gente; as telecomunicações dão emprego a muita gente e, mais uma vez, podíamos encher páginas de exemplos de sectores profissionais que empregam largos milhares de indivíduos. No caso das touradas, proponho-vos o seguinte exercício: já que foram ao Google pesquisar “cattle breeds” e viram muitos posters com touros bravos – entre outras raças – agora escrevam “cartaz tourada” e cliquem na opção ‘imagens’. De seguida poderão pegar numa folha de papel e começar a anotar os nomes que observam nas centenas de cartazes que o Google disponibiliza.

Deixem-me adivinhar: na vossa folha têm os apelidos Zoio, Palha, Moura, Bastinhas, Telles, Rouxinol, Salvador e mais uma dúzia de outros nomes que se repetem ad aeternum, certo? Bem espremido, entre toureiros – e toureiras –, grupos de forcados (que são amadores e, como tal, levam porrada à borla), ganadeiros e afins duvido que consigam encher, sequer, a folha com que iniciaram esta tarefa. É isso o vasto sector que tem de ser protegido a toda a força? Uma mão cheia de técnicos agrários que, na sua esmagadora maioria, tem outras fontes de rendimento?

Por falar em outras fontes de rendimento, tomemos o exemplo do João Moura, que nos deslumbrou a todos com o seu extraordinário talento para a manutenção de galgos de corrida, em fevereiro deste ano. Aliás, até podíamos divagar acerca do simbolismo dessa notícia, que ocorreu logo no início do ano e marcou o tom deste 2020 de que ninguém se vai esquecer. Mas regressemos ao João Moura e aos restantes comparsas, que se dedicam a outras actividades que, seguramente, não os deixarão passar fome se deixarem de espetar ferros em touros. Aliás, a julgar pelas fotografias que todos vimos do ex-toureiro-agora-criador-de-galgos, dir-se-ia que o cavalheiro não tem mesmo passado fomeca nenhuma desde que cessou a actividade de tourear. Já as fotografias dos galgos, sugerem alguma dificuldade com o conceito de “partilha”, mas pronto, ninguém é perfeito.

Aproveitemos este mote para sugerir uma actividade comercial que poderá proporcionar um rendimento razoável a este imenso grupo de profissionais, que serão responsáveis por uma fatia que não chega a qualificar-se como “ínfima” do produto interno bruto nacional. Aliás, tendo em conta que a maioria das touradas são subsidiadas pelos municípios, esta actividade retira valor ao PIB, em vez de o acrescentar. Mas voltemos à sugestão de outra actividade que ia avançar: carne de touro bravo.

Se estavam à espera que o biólogo marinho que escreve estas linhas fosse vegetariano e fervoroso defensor dessa filosofia, enganaram-se redondamente, porque o dito biólogo é, sim, um fervoroso defensor dos direitos dos animais – mas gosta de os comer. Lamento, mas estou/amos no topo da cadeia alimentar e tenho/emos polegares oponíveis, o que significa que, na vasta teia alimentar de que fazemos parte, este vosso criado é um grande apreciador de secretos.  E não esqueçamos a deliciosa dobrada. Ok, ok, admito que as alterações climáticas me estão a empurrar numa direcção vegana, mas não misturemos alhos com bogalhos. Como já disse aos meus amigos vegetarianos e anti-tourada várias vezes: “Se cairmos numa ilha deserta e houver lá um touro, vocês ficam com os cocos e as mangas, que o entrecosto é meu.”

Assim sendo, deitámos por terra o outro argumento clássico, que dita o fim da raça ‘touro bravo’ caso proíbam as touradas. Efectivamente, os touros bravos podem ser comidos, à semelhança das restantes raças bovinas. Eu diria mesmo que o ambiente free range e biológico em que habitam permitirá aos seus criadores cobrarem valores premium, já que se trata de um produto gourmet. Quem sabe se essa fonte de rendimento lhes permitirá comprar uns saquitos de ração para galgo, antes que a Leishmaniose dê conta deles?… Afinal de contas, a comunidade tauromáquica assume-se como intensamente apaixonada pelos animais à sua guarda, não é?… Adiante.

Ainda nesta linha, não esqueçamos os parques zoológicos, ou mesmo reservas, em que turistas pagam somas consideráveis para ver animais no seu ambiente natural. A mim não me choca que se coloquem uns belos touros bravos numa lezíria e que a turistada tire umas fotografias com eles, confortavelmente instalados num jipe. Quem sabe se a visita possa começar com um briefing durante o qual lhes seja explicado o fim a que essa raça se destinava antes de se tornar objecto da nossa gula, não só gastronómica mas também fotográfica? Estão a ver, [email protected] [email protected] e [email protected], como este biólogo marinho se preocupa com a vossa sobrevivência e se dá ao trabalho de vos apontar caminhos que garantam um rendimento saudável? Quem é amigo, quem é?

Impõe-se, neste momento, uma nova chamada de atenção para o argumento da Florbela Fernandes, que acrescenta que o propósito de vida do touro bravo é o “combate leal na arena”. “Leal”? A sério? Eu aplicaria “leal” a um combate em que os resultados são repartidos mais ou menos numa proporção de 50/50 ou, vá lá, 60/40… Ou seja, tínhamos metade dos touros a sair das arenas efectivamente maltratados mas, na outra metade, tínhamos toureiros a saírem de charola, rodeados de amigos chorosos envergando vestes negras uns dias depois… Mas, corrijam-me se estou enganado, esta proporção anda mais na casa dos 999/1, provavelmente até uma (ou mais) ordem(ns) de magnitude acima. Um resultado de uma contenda milenar que ronda os “999/1” (?) a favor dos seres humanos não se configura propriamente como “leal”, pois não?

Façamos um breve ponto da situação, voltando a lembrar que a tourada é um espectáculo durante o qual [email protected] espetam ferros no dorso de um mamífero senciente: É uma fonte de rendimento impactante para a economia nacional? Não é e os mesmos nomes repetidos nos cartazes provam-no; É a única fonte de rendimento para o sector que se dedica a esta prática? Não é e recordemos que a sazonalidade da mesma sempre obrigou a fontes de rendimento alternativas; O fim deste espectáculo significa o fim dos touros bravos? Não, porque estes podem ser criados para serem comidos – ou apreciados no seu ambiente natural -, que são destinos idênticos aos de outros mamíferos e são destinos naturais. Não há nada de natural em vender bilhetes para ver senhores – e senhoras – de collants rosa e sabrinas a espetarem ferros no lombo de mamíferos sencientes.

As mentes mais argutas viram na frase anterior uma excelente oportunidade para apontar o dedo ao biólogo marinho que escreveu estas linhas: “Olha o sexista do gajo, a insinuar que os homens não podem andar de collants rosa??” Meus caros – e caras – agradeço terem mordido o anzol que pendurei em frente às vossas faces, mas podem usar o que vos der na real gana, incluindo kilts, burkas, fishnets e afins, tapando as vossas partes pudibundas por baixo, ou deixando-as al fresco. É-me absolutamente indiferente. Citei os collants rosa em tom propositadamente provocatório, porque o meio tauromáquico é profundamente machista e creio que os seus constituintes nunca se deram ao trabalho de reparar num espelho quão sedutores parecem de leggings, jaqueta de lantejoulas, collants rosa e sabrinas. É só para saberem que não nos passou despercebido que é esse o uniforme que escolhem envergar quando espetam ferros no lombo de mamíferos sencientes. Eu cá teria optado por um daqueles fatos de macaco laranjas do filme Hostel, mas gostos não se discutem.

Partilho agora convosco um conceito que me parece aliciante para os indecisos, porque não tenho a presunção ingénua de tentar virar umª aficionadoª, da mesma forma que não há retórica socrática nem platónica neste Universo – ou nos outros – que me faça equiparar este banho de sangue a um bailado, parafraseando uma ex-líder política que saiu de cena tão rapidamente quanto as touradas já deviam ter saído. Recomendo então aos indecisos que fechem os olhos e imaginem uma tourada com outro animal qualquer. Um urso, um leão, um dragão de Komodo, um orangotango, um tubarão branco, o monstro do Loch Ness, a lista não tem fim. Agora descrevam os adjectivos – se conseguirem – que o vosso cérebro associou à imagem do animal da vossa escolha, cravado de ferros e a pingar litros de sangue para uma arena, enquanto uma turbe ululante aplaude o urseiro – de collants rosa, sabrinas e lantejoulas.

Já lá chegaram ou precisam de mais um bocadinho? É assim que o resto do mundo olha para as touradas. Vêem-nas como o espectáculo incompreensível que realmente são. Porque não há argumento que justifique o espetanço de ferros no lombo de um mamífero senciente. Não o faríamos a um urso, nem a um leão, nem a uma girafa, nem sequer a um jacaré, ao Yeti ou mesmo ao Sasquatch, então porque diabo o fazemos a um touro bravo e encolhemos os ombros, como se o animal tivesse sido posto na Terra para levar com ferros e mais nada? Aqui na Península Ibérica – e em mais algumas partes (poucas, felizmente) do mundo, crescemos a aceitar essa prática como normal. Mas não há rigorosamente nada de normal num espectáculo durante o qual toureiros – e toureiras – espetam ferros no dorso de um mamífero senciente.

E querem que vos seja profundamente sincero? Como biólogo posso avançar que, se o bicho não servir para ser comido, nem para ser visto, pois então que acabe. É preferível a extinção de uma raça – que não é uma espécie – do que mantê-la meramente para que se vendam bilhetes para vermos pessoas a cravar-lhes ferros no lombo. Recomendo que se guardem gâmetas em azoto líquido e que se fabriquem embriões – no ventre de fêmeas de outras raças bovinas – quando a sociedade tiver maturidade para tal. Se o método de fertilização in vitro funcionou com o meu Nikola, que completou 15 meses há dias, também funcionará com touros bravos, que merecem melhor do que andarem a marrar em capas vermelhas, para gáudio dos néscios que apreciam esse abuso.

Termino com a resposta a uma provocação que me atiram com frequência durante estes debates acalorados, nos quais me envolvo com frequência em almoços e jantares de família e amigos – agora tão distantes: “Eu queria era ver-te a ti lá em frente ao bicho, a pegá-lo!”. A resposta tem duas partes. Primeira: “Não, obrigado. Prefiro deixar o bicho sossegado.” Segunda: “Eu queria era ver-te a ti pegares o bicho mas selvagem, na lezíria, sem os cornos embolados e sem um aquecimento de quarenta minutos a levar com ferros no lombo.” Isso é que era um “combate leal”.

Agora sim vou terminar, com um recado para os membros da classe política, que dir-se-ia temerem a reacção adversa da população caso tenham a audácia de, um dia, proibirem um espectáculo em que se espetam ferros no dorso de um mamífero senciente. Aconselho os senhores – e senhoras – dirigentes políticos a passarem algum tempo nas redes sociais e verão que a população portuguesa já se afastou bastante das fotografias a preto e branco que as revistas National Geographic disponibilizavam quando se falava de Portugal há 40 ou 50 anos. Nessas fotos apareciam homens de camisa aos quadrados, com 4 dentes, barretes de lã preta, um cigarro no canto da boca e barba por fazer. As senhoras tinham fisionomia idêntica – incluindo a pelosidade facial – mas distinguiam-se dos cavalheiros pelas sete saias aos folhos. Éramos assim mais ou menos a meio do século passado e dir-se-ia que a classe política continua a ver-nos da mesma forma: pobres (de carteira e espírito), simples, derrotados, básicos na mais pura essência da palavra.

A classe política precisa de abrir os olhos e apreciar que todos andamos, agora, com smartphones que custam mais do que um ordenado mínimo nacional. Andamos bem vestidos, com logotipos variados – nem todos de contrafacção – e cheiramos a abundância. Aliás, vestimo-nos de licra (ocasionalmente rosa) e corremos pela cidade num esforço permanente de queimar o excesso de abundância das coxas, glúteos, barriga e cintura. Esta população, senhores dirigentes, não quer votar em quem apoia o espetanço de ferros no lombo de mamíferos sencientes. Esta população moderna e elucidada prefere votar em quem valoriza a Natureza e o bem-estar animal.

Está na hora, senhores – e senhoras – dirigentes, de entenderem que ganham mais votos junto dos milhões de nomes que não estão nos cartazes tauromáquicos, porque não são esses – poucos – apelidos que vos irão reconduzir nos cargos. Está na hora de darem finalmente um murro na mesa e pararem com um espectáculo que só nos embaraça internacionalmente. Para isso já chega o Chega, mas isso fica para outro dia.

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