O fotógrafo de 61

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Foi ainda moço para Angola e, contrariamente à ideia generalizada de que os portugueses partiram inocentes e ingénuos, Manuel Delicado foi já com uma noção politizada do que se passava. “Sempre acompanhei os noticiários e os jornais; sabia bem para o que íamos”. Embarcou no paquete Vera Cruz rumo a Luanda e por lá ficou durante uns tempos no Campo Militar do Grafanil, até ter guia de marcha para Zala. São hoje conhecidas as peripécias a que os portugueses foram sujeitos num dos municípios de Nambuangongo: “Quando chegámos a Zala, ai é que apanhámos à séria! Não podíamos sair do acampamento que éramos logo atacados… mas, lá sobrevivi”, diz-nos o senhor Manuel.

Percorreu o Norte de Angola de lés a lés, recorda as longas caminhadas pelas picadas e o perigo constante das minas e as táticas, muitas vezes improvisadas, que utilizavam naquela guerra de guerrilha. “Eles conheciam o trajeto e montavam uma daquelas armas de avião no topo da colina disparando lá para baixo a ver se nos acertavam. Chegámos inclusive a virar, sempre que por lá passávamos, os capacetes na direção do fogo inimigo (…) até que tivemos de mudar de estratégia. Eles esperavam por nós de dia, então passámos a ir de noite. Mesmo que conhecessem melhor o terreno, seria contraproducente montar as armas com pouca visibilidade”.

Apelidado pelos camaradas como Jerry Lewis (por o acharem tão parecido com o comediante dos anos 60) era, no entanto, mais conhecido como fotógrafo de serviço. A sua câmara foi, de resto, uma mais valia para a realização deste artigo onde exibimos algumas das fotografias do senhor Manuel.

Quando chegou a altura de escolher entre a fotografia e o oficio, acabou por enveredar pelo oficio continuando, após a guerra, a trabalhar como estofador. Não regressou na mesma boleia que muitos dos seus camaradas. Manuel Delicado viu em Angola um bom sítio para fazer a sua vida. Por lá ficou, casou e constituiu família, até ao dia em que os rumores de que as “coisas estavam prestes a piorar” ecoaram pelas ruas e todo o homem e mulher brancos foram compelidos a regressar. Descreve o dia 11 de Novembro de 1975 como sendo um dos dias mais tristes. Não em termos políticos mas emocionais. Lembra Angola com saudade e só Deus sabe o quanto lhe custou voltar “especialmente para um Portugal que olhava os retornados com desprezo”.

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