Cruzeiro Seixas, o último surrealista

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Cruzeiro Seixas é para mim o último dos guardiões do surrealismo português. Tive a felicidade de aprender com ele um pouco da sua filosofia quando frequentei o seu atelier em Luanda. Éramos vários jovens estudantes ainda do Liceu Salvador Correia, sonhadores de utopias, ou talvez não, viventes do improvável, intelectuais de jovem cepa sedentos de aprender.

Cruzeiro Seixas representava para nós, simples e irrequietos filhos da terra, o guia da desconstrução dos medos do desconhecido. Espectador respeitoso sentado à volta da fogueira ouvia os nossos poemas proibidos no coberto das noites à beira de praias desertas, onde as brisas eram ventos de futuros.

Havia partilhas regadas a cerveja levada em caixas, ele bebia de nós a juventude desejosa de liberdade, nós bebíamos dele a graciosidade dos seus poemas numa linguagem nova para os nossos ouvidos. E bebíamos à saúde do amanhã desejado.

Um belo dia meteu-se ao volante do seu velho Carocha e foi por aquela Angola infinita em busca de mundos que, seguramente, ele nunca imaginara vir a conhecer nas suas tertúlias à mesa dos cafés da moda em Lisboa quando o surrealismo inquietava o estabelecido da época.

Ali ele terá sido genuíno e puro na procura do desconhecido. E humilde. Nunca soube se a sua viagem até às Lundas tinha algo de peregrinação ou se simplesmente respondia a um chamado interior.

Produzia muito no atelier em Luanda, tanto que o seu pequeno apartamento representava um pesadelo, não fossemos nós pisar alguma tela. Não revelava preocupação por isso, parecia interessar-se mais pelo programa para essa noite numa praia qualquer a norte da grande cidade.

Mais tarde, quando em funções na delegação da RTP-Algarve, sou informado de que ele estava como director da Galeria de Arte de Vilamoura que acabara de abrir as portas ao público. Fui entrevistá-lo num reencontro tão inesperado como emocionante. Era a mesma pessoa simples e acolhedora, mais de vinte anos depois. Tinha escolhido o Algarve, perto de Faro, onde sublimava as suas angústias, como me disse.

Guardo dele a memória de alguém capaz de mudar o mundo pelo simples traço de um pincel, de uma caneta, de um lápis, em qualquer tela ou mesmo envelope de carta. Um desses momentos está numa parede em minha casa, perpetuando as utopias partilhadas em tempos passados.

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