Ainda o 25 de novembro

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Partilho com todos uma entrevista não exclusiva concedida na manhã de 25 de novembro, por solicitação da revista russa “Solidarismo”, hoje focada em combater todos os extremismos. As perguntas foram-me dirigidas via Internet, por um colaborador português.  

Que memórias retém do Governo, COPCON e 5.ª Divisão, em 1975? Eu tinha 25 anos nessa altura e, desde muito cedo, lutava pela liberdade e pela democracia. Por isso fui detido, antes do 25 de Abril, por diversas vezes. Depois, enquanto dirigente do PS, participei em centenas de ações de esclarecimento e mobilização contra as tentativas golpistas que então se desenharam, à direita e esquerda. Em algumas delas, mais do que coragem, foi-me também exigida sensatez e algum heroísmo.

Qual a sua atividade na oposição ao PREC, no “Verão Quente” de 1975? Em que foi diferente o PS, comparado com outros grupos mais à direita? No PS, víamos com igual preocupação as duas fações radicais interessadas em extremar uma guerra civil que procurávamos evitar. Integrei um grupo a quem foi distribuído armamento militar, mas a ideia era evitar confusões e defender os canais de comunicação. Nos comícios e outras ações de risco em que participei, ou fiz “segurança”, era a extrema-esquerda quem mais nos preocupava. Com raras e rústicas exceções, tenho a sensação de que, em recuo, a extrema-direita mais “erudita e lúcida” nos considerava até como um bom “guarda-chuva”.

Qual foi a sua participação durante o 25 de novembro de 1975? O meu grupo foi chamado, pouco depois da meia-noite, a “controlar” o tráfego de uma estrada estratégica. Desmobilizado só cerca do meio-dia, dirigi-me então à sede do PS em Coimbra onde, perante a postura ambígua do Comando Militar, e a intimidação na rua de grupos civis de esquerda, entendi desencadear um contra-ataque e tomar a Emissora Nacional. Ajudado por centenas de manifestantes, eu próprio saquei o microfone aos militares presentes e, da escadaria exterior, apelei à mobilização popular e proclamei o apoio da cidade ao Grupo dos Nove. Minutos depois, as ruas enchiam-se de apoiantes. Nesse “assalto” participaram membros ilustres do PS, mas também alguns do PSD, como Fernanda Mota Pinto, que, entretanto, haviam procurado refúgio na sede do PS e assim reforçaram as nossas posições.

Qual é a sua avaliação pessoal sobre este período? Venci e estive do lado certo da História, o que é motivo de orgulho. Mas, sem nunca integrar qualquer diretório político, preferi exercer a carreira de médico e defender causas cívicas, desde sempre ligado aos Direitos do Homem. A evolução do meu país nunca foi a que sonhei.

Quais têm sido as suas atividades políticas, desde 1975? Fui dirigente do PS, seu candidato à Câmara de Leiria e Presidente a nível distrital. Recusei ser político profissional e, voz independente e incómoda, fui sendo afastado. Mais tarde, em 2015, fui um obscuro candidato à PR, desapoiado pelo PS e silenciado por quase todos os poderes instalados. Ainda mantenho a filiação e centenas de amigos no PS, mas há muito que entrei em rota de colisão com a “máquina”.

Pensa que foi criada qualquer tradição ideológica de resistência às políticas do PREC, durante o “Verão Quente”? Se sim, continua até ao Portugal moderno? A “normalização” política, a adesão à Europa e os “anticorpos” desenvolvidos durante a ditadura e PREC, mitigaram esse tipo de reação. Tal como acontece em todo o mundo, a A25A foi perdendo importância e também a direita cedo se esfumou, nunca mais tendo ganho peso, como ideologia. O mundo não pára.

O atual período de governação do PS com a esquerda, alterou a memória do PREC? A recente aproximação estratégica do PS aos setores de esquerda, levou a sua Direção a rever a sua própria História e, em nítida traição aos seus fundadores, não comemorar, ou mesmo condenar, o 25 de novembro.

Tem alguma recordação de contatos com outros elementos mais direitistas da oposição ao PREC, como Francisco Van Dunen ou Ramiro Moreira? Nunca tive nada a ver com este género de extremistas que, felizmente, nunca me ameaçaram e que também não tive necessidade de enfrentar. Os mais extremados com quem confraternizei eram os militantes da LUAR, que entendíamos como uma espécie de “braço armado” do PS. Quem vai à guerra dá e leva e, naturalmente, estive envolvido em confrontos violentos de que me resultaram leves ferimentos físicos, que não morais ou psicológicos.

Como vê as continuidades e descontinuidades de 25 de abril, 28 de setembro, 11 de março e 25 de novembro? Hoje, como uma natural libertação de energias, depois de uma longa opressão. Na altura, foi-me muito difícil e até penoso, pois ingenuamente acreditava numa revolução pacífica e racional, sem grandes incidentes. E também numa descolonização condigna.

Como alguém do PS, como entende o fim do PREC pelo “Grupo dos Nove” e a divisão posterior entre os vencedores: Sousa e Castro, Melo Antunes, Pires Veloso e Jaime Neves? Todas as revoluções atingem pontos de equilíbrio. Sou um cidadão do mundo empenhado em causas humanistas e não um comentador. A diversidade faz parte da condição humana e nunca fulanizarei divergências políticas, salvo perante injustiças ou flagrantes erros de interpretação. Parece não haver polémica sobre o patriotismo ou o caráter pessoal dos protagonistas referidos…

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