A guerra no Índico

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João Carlos Mota Gonçalves alistou-se na Marinha para tentar escapar à guerra, mas não teve sorte. Embarcou, em 28 de março de 1966, no NRP Álvares Cabral (uma velha Fragata construída em Inglaterra e comprada em segunda mão pelo governo português em 1959) e só saiu 30 meses depois no dia 23 de Setembro de 1968.

imagem do NRP Álvares Cabral quando era HMS_Burghead Bay em 1945, fonte: Wikipédia

O navio fez a mesma rota das naus de Vasco da Gama, aportou em Luanda para uns dias de descanso, dobrou o Cabo da Boa Esperança e chegou finalmente à cidade da Beira, em Moçambique. Vasco da Gama seguiu mais longe, mas eles ficaram por ali mesmo.   

A missão era de apoio logístico e transporte de tropas. E foi o que fizeram, com bom ou mau tempo. Dia 18 de Janeiro de 1968, “quando fazíamos transporte de um batalhão de paraquedistas da Beira para Nacala, apanhámos uma depressão tropical durante 5 dias seguidos e enfrentámos vagas de 14 metros de altura. Tivemos uma inclinação de estibordo para bombordo de 45 graus. Estes foram os dias mais marcantes e mais perigosos” de João Carlos, na guerra.

A Marinha, muitas vezes subvalorizada, desempenhava um papel importante no decorrer desta guerra. Eram um meio de transporte coletivo em grande escala e um apoio às populações, garante o 1º Grumete Artilheiro.

fragata da Marinha de Guerra, NRP Álvares Cabral

Durante uma das “mais longas comissões já vistas”, além de responsável pelo armamento a bordo do NRP Álvares Cabral, desempenhou ainda funções de dactilógrafo, graças às competências profissionais adquiridas antes de ir para a tropa. Sabia ler e escrever bem à máquina, acabou por ser o autor do “Manual das Peças Antiaéreas e Fixas do Navio”, obra que lhe valeu um louvor que nunca chegou a receber porque a ordem chegou meia dúzia de dias depois de ser desmobilizado da Marinha.

Desse tempo africano guarda memórias do característico cheiro da terra e, com certeza, da beleza da paisagem costeira moçambicana. Mas também não esquece o sacrifício a que foram obrigados pelo regime de Salazar: “É preciso as pessoas não se esquecerem, em especial dos jovens que lá ficaram”. Como ex-combatente ao serviço da Marinha sente-se, de certa forma, negligenciado pelo Estado. Recebe um subsidio de 75 euros por ano. É a compensação por dois anos e meio de guerra.

RB/CN

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