A corda rói pelo lado mais fraco

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Temos consciência da necessidade de adotar medidas para combater o crescimento do número de infetados do covid-19 que assola o nosso país nos últimos meses. Sabemos de antemão que um novo confinamento integral irá ser um descalabro para a economia.

Da última reunião do Conselho de Ministros  esperávamos com ansiedade o anúncio de medidas de prevenção ao elevado número de contágios. Aguardávamos medidas muito semelhantes a que países europeus já implementaram, e não foram muito diferentes: 121 concelhos em confinamento durante 15 dias, horários de fecho estipulados para estabelecimentos comerciais e restaurantes, mas o que surpreende pela negativa é o fecho das feiras e mercados de levante (espaços de comércio que se montam e desmontam). Inadmissível como se deixam centros comerciais abertos, onde já se comprovou em estudos que os riscos de contágio são maiores que nas feiras, porque o ar não se renova, e fecham espaços de comércio ao ar livre que se realizam em algumas horas…

O nosso governo, nesta altura, não deve ser seletivo, não se pode render aos grandes interesses económicos e fazer contas a receitas de impostos. Certamente que os centros comerciais têm mais trabalhadores e a receita contributiva é maior para os cofres do estado, mas nas feiras e mercados há milhares de famílias que igualmente contribuem com os seus impostos e que dependem do dia-a-dia para colocarem o pão na mesa. O nosso governo não pode discriminar cidadãos em função do valor que descontam, não podem ser sempre os mesmos a pagar as favas quando cientificamente se comprova que há menos risco de contágio nos mercados e feiras porque estes são realizados em espaços ao ar livre…

O confinamento da primavera trouxe enormes problemas económicos para todos os setores da sociedade, os feirantes pagaram bem caro o fecho dos mercados e feiras, foi um drama para a maior parte deles, pois dificilmente conseguiram aceder às compensações criadas pelo estado pelo excesso de burocracia no tratamento dos documentos requeridos. De março a junho uma boa parte dos feirantes teve que contar com o que tinham e não tinham para colocar comida na mesa, as “almofadas financeiras” duraram menos de um mês e tiveram que recorrer à solidariedade de familiares e de instituições. Sabe-se até que os mais velhos das famílias tiveram que abdicar do dinheiro das suas reformas para pagar os medicamentos para que o pedaço de pão não faltasse nas mesas.

Quando reiniciaram a atividade em junho foi outro problema, estávamos quase em pleno verão, apenas tinham material de inverno para vender. Sem dinheiro para comprar novo material, foram momentos difíceis para uma boa parte deles que sem ovos tiveram que fazer omeletes. Agora, quando alguns feirantes se estavam a recompor, vem mais um “tremor de terra”…

Este governo não pode ser tendencioso, a saúde pública está em causa para todos, com os efeitos colaterais económicos e sociais. A corda não pode roer pelo lado mais fraco. Se nos centros comerciais se asseguram as regras de prevenção através dos seguranças e vigilantes, nas feiras e mercados a mesma monitorização pode ser realizada pela polícia municipal ou fiscais das juntas de freguesia e municípios. Se for preciso diminuir espaços de venda para que a distância assegurada seja mantida que assim seja. Se os feirantes só podem atender 3 ou 4 pessoas de cada vez, que assim seja…

O covid-19 não tem uma apetência especial pelos mercados e feiras, ele é bem democrático no contágio embora depois as medidas de combate à pandemia sejam injustas e antidemocráticas, porque neste país uns são filhos e outros enteados…

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