Um outro olhar sobre a cidadania

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Esta disciplina faz parte dos curricula do 2º e 3º ciclos de escolaridade. O conhecimento que tenho dela é como docente de uma língua estrangeira e como encarregada de educação. A primeira nota é que veio substituir de alguma forma uma outra de alguns anos atrás, a Formação Cívica, que era essencialmente um tempo por semana com os alunos e dada pelo Diretor de Turma.

Estive dez anos sem ensino regular e, quando regressei, há dois, foi-me atribuída uma hora de Cidadania e Desenvolvimento, vulgo CIDES, por ser diretora de turma de uma turma do 8º ano. A atribuição não veio a ser concretizada, o que pessoalmente me aliviou, pois seria mais um nível para preparar e a minha formação é de Inglês e é Inglês que sei e quero lecionar.

Vejamos. Esta disciplina é ministrada por um professor de qualquer área, não havendo formação específica para a mesma. Ninguém se formou em CIDES e as suas áreas temáticas são transversais. Independentemente da sua relevância ou não, e da valorização da mesma por uns e detração por outros, este é o primeiro ponto. Enquanto que na disciplina de Educação Moral Religiosa e Católica, aka EMRC, temos um docente formado nessa área, pois penso já não existirem padres a fazê-lo, em Cidadania a abordagem dos temas não é feita com conhecimento alicerçado numa formação específica.

A aposta nesta disciplina, a querer-se que ela seja realmente válida e valorizada, tem de passar por aí primeiramente. As loas que lhe têm sido feitas não encontraram, pela minha parte, nenhum eco na prática. Como mãe, aliás, esse eco tem sido nulo. Tenho visto esta disciplina na mancha horária  como mais um exemplo de boa vontade e amadorismo, brioso ou não, por parte de quem é chamado ao serviço.

Não conheço totalmente o programa, não pesquisei, mas, enquanto professora na escola, temas como os direitos humanos, afetos e violência nas relações, prevenção rodoviária e outros (a)parecem referenciados como dados na prática. Muitos destes temas, especialmente o dos afetos e violência no namoro, por exemplo, são também dados em EMRC. A área da sexualidade também, assim como nas Ciências Naturais, embora seguramente de outra forma.

A questão que levanta celeuma é manifestamente, creio, a da sexualidade e sobretudo a da identidade ou igualdade de género. E aqui também há exageros nas reações, porque se tem encarado esta discussão, com frequência, como uma questão ideológica divisória entre pensamento progressista ou depravado de esquerda e pensamento conservador ou medieval de direita. No entanto, também aqui há nuances e os rótulos não constroem nem deixam espaço para o diálogo, como quase nunca em tantas circunstâncias.

Há uma leitura que corroboro nos que defendem estas abordagens nas escolas, aquela que diz que beneficiam os miúdos mais desfavorecidos culturalmente. Sem dúvida que sim. Estes e todos os outros temas e matérias que significam conhecimento, discussão, visão, espírito crítico (e este também daria um bom mote para discussão, já agora) e liberdade. No entanto, reconheço, tal como em EMRC, que possa haver direito à escolha, ou seja, que possa ser uma disciplina opcional. Ou seja, que os pais, mal ou bem, possam decidir sobre a mesma não me perturba minimamente. Porque a questão de fundo não é a que se coloca nas outras disciplinas de caráter obrigatório com professores formados cientificamente na área.

Digo mais. Foi-me dito em setembro, a mim e a outros, no ensino secundário, ou seja onde não existe a disciplina de CIDES, e falando dos cursos profissionais, que temos de dar obrigatoriamente as temáticas da sexualidade e da identidade género, com um mínimo de horas por turma. Temos, logo à partida, de preencher a grelha de acordo com as temáticas da nossa disciplina e abordar estes assuntos, sem formação específica para os mesmos. Claro que damos, fazemos  milagres, há bom senso e boa vontade e se não houver há na mesma.

A grande questão e a que me perturba realmente é esta – a de que a tutela quer ser moderna, inclusiva e acompanhar o progresso dos outros países europeus mas que a forma que usa para fazer aplicar estas diretrizes é desastrada, incompetente e mentirosa. Conta com os agentes de sempre a quem tudo se pede e que tudo conseguem, até porque a fotografia vem primeiro e a eficácia depois se vê. Quem ousa recusar ser conivente com tais exigências da tutela?

Já agora, quem dá Cidadania ao meu filho é o seu diretor de turma, professor de EMRC. Querem seriedade na escola e na educação, dos miúdos ou dos filhos? Centrem a vossa atenção sobre a maneira atabalhoada e inapta como a tutela conduz o processo de ensino-aprendizagem e nesta matéria em particular. Exijam qualidade, verdade e concordância no terreno com aquilo que a mesma apregoa e pretende.

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