Quando as aparências iludem…

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Por insólito que o título pareça, esta crónica funda-se, unicamente, em cenas reais e “ciência” certa. Resta acrescentar que, com arqueologia a “rimar” com pandemia, o humor é o combustível que alimenta a “passarola voadora” com que sobrevoo abismos.  

Certo dia, adquiridas numa longínqua “república de bananas”, um amigo apresentou-se em minha casa com “peças de arqueologia”, aquisição recomendada por “peritos” da “civilização local”.  

– Não são uma maravilha?… – Perguntou, enquanto espalhava o lote, sabedor de que eu, embora oriundo das medicinas, cedo me interessara por essas “artes”.     

A vida é um jogo em que ora se ganha, ora se perde. Nessa tarde, uma desilusão, nem precisei de óculos para ter a certeza de que tudo aquilo não passava de tralha. E, para evitar melindres, entendi “chutar para o lado”:

– Muito bem, mas vieste para bebermos um tintol. E arranjei cá uns queijinhos…

Finta que não surtiu efeito. Bom apreciador do melhor que a vida oferece, dessa vez ele “negou fogo”:

– Antes disso, quero mesmo saber a tua opinião. Quanto achas que isto vale?

O rapaz tinha pago uma fortuna e eu, sem espaço para atirar a bola para a frente, voltei a recorrer à “dona diplomacia”:

– É pá, agora é tarde. Não devias ter comprado, sem antes falares comigo…

– Então… achas que as peças valem menos?

– Sabes que não sou “pessoa-de-achar”. Só falo quando tenho a certeza. E a minha certeza é que eu não as compraria.

Golpe de misericórdia, mas que ainda o deixou em maiores pulgas, enquanto eu saía a pedir auxílio à enfermeira mais indicada para tratar da sua doença: a “dona gastronomia”. Sem êxito, porque nem recorrendo a essa “magia” me livrei do frete:

– Tens a mania que sabes tudo. – Resmungou ele, não convencido, logo que regressei com a minha própria “loiça”. – Como te atreves a pôr em causa a competência de Fulano e Sicrano, que são das maiores sumidades mundiais?  

– A gente tem de ouvir cada uma… – Ensimesmei, tendo ainda fresca uma “peritagem” que a própria “Judite” me encomendara e que pôs cobro a inúmeras confusões levantadas em torno de uma “coleção de falsificações”, mais tarde adquirida por um célebre Banco.

– Competência é uma coisa e seriedade é outra. Será que terei de fazer o “teste do cuspo”, à tua frente?

– Mas que raio é isso?

E foi então que abri mesmo a boca, mas para molhar o indicador e passar alguma saliva sobre uma das suas peças. Como se maquilhada, toda a “amarelagem” logo desapareceu, libertando um “encantador” artefacto de barro vermelho, “made in século XXI”. E foi assim que ele entendeu que, antes de se meter por atalhos, devia preparar bem as viagens. E, sobretudo, desconfiar de certas agências e guias…

Esta semana, o meu amigo voltou. Tendo eu, entretanto, adquirido mais “arqueologia”, a conversa depressa se centrou num leilão recente, recheado de peças únicas, reunidas por um famoso colecionador inglês. Acompanhado de insuspeitos certificados, até um perito americano designava o conjunto como “erudito”.

A leiloeira é séria e, perante a pandemia em curso, entendi abrir uma exceção e licitar à distância, sem prévia análise. Temia uma “praça forte”, mas a fugir aos padrões “normais”, tive a sorte de adquirir várias peças a “preço de saldo”. No entanto, para minha surpresa, duas delas não resistiram ao “teste do cuspo”…

É óbvio que, descritas como pertencentes à dinastia Han, de que Cristo foi contemporâneo, ambas sofreram profundos “retoques” no século XX. Uma chinesice que, agora, deixa certezas e dúvidas: a certeza de serem autênticas; a dúvida, ainda no ar, de quem terá nascido primeiro… se estas peças ou se o Imperador Han. O que, logicamente, torna as peças ainda mais valiosas…

Em tempos de pandemia, a conversa descaiu, naturalmente, sobre a tal “república das bananas”, onde, garantia o meu amigo, “cada um chuta para onde está virado”.

– Ninguém se entende, por lá! Aquilo está sem rei nem roque.

– Estamos bem melhor em Portugal. – Concordei. – Aqui, pelo menos, há rei. E se às vezes até vai nu, é só quando sai para levar a “pica”.

– O governo de lá até publicou um diploma que ninguém entende. Olha que ainda recomendam máscaras ou viseiras indistintamente, como se fosse tudo o mesmo.

– E tu, que tens por lá amigos na política, porque não lhes recomendas o “teste do cuspo”? É fácil, é barato e eles devem perceber as diferenças…

Também desta singela conversa ficaram certezas e dúvidas: a certeza de que há que ter muito cuidado com as imitações; a dúvida… é “covidizer” no final, ao meu amigo, que os políticos de imitação ainda matam mais do que o Covid. E que quem se mete com eles, leva.

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