Os negócios do covid (1)

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No meio da maior desgraça há sempre alguém que beneficia. Nesta pandemia não é diferente e quando vemos dezenas de laboratórios em todo o mundo numa corrida desenfreada para encontrar a vacina ideal contra o covid-19, sabemos que não se trata apenas de impulso humanitário.

O laboratório farmacêutico norte-americano Gilead Sciences acaba de publicar as contas do terceiro trimestre de 2020 e só com a droga Veklury (Remdesivir) já encaixou 873 milhões de dólares (apenas nos primeiros nove meses deste ano).

(fonte: https://www.gilead.com)

O Remdesivir é um medicamento antiviral inicialmente desenvolvido para combater o vírus ébola, mas revelou-se um fracasso nessa luta. Experimentado contra o covid-19 demonstrou ter capacidade para diminuir o tempo de internamento em casos graves de doentes já a necessitar de ventilação. Segundo o relatório patente no site da Gilead Sciences, o Remdesivir (comercializado sob a designação Veklury) pode ser ministrado a pacientes com mais de 12 anos de idade e 40 kg de peso. Em casos não muito graves, o tratamento pode durar entre 5 a 10 dias, em situações mais graves o medicamento tem de ser tomado no mínimo durante 10 dias.

O pior é que cada frasco custa 345 €, preço que torna o medicamento inacessível exceto se for adquirido pelo Estado e distribuído através do SNS. E é assim que este laboratório norte-americano está a faturar em grande e a engordar as contas bancárias dos acionistas. Por exemplo, o Governo português acaba de anunciar a compra de 100 mil frascos de Veklury, face às expetativas de agravamento da pandemia. Fazendo as contas, são 34 milhões e 500 mil euros que Portugal vai pagar à Gilead Sciences.

(cada frasco de Veklury custa 345 €, fonte Ministério da Saúde)
(fonte: https://www.gilead.com)

Sim, a investigação farmacêutica obriga a grandes e, por vezes, prolongados investimentos. Mas face aos números que os laboratórios apresentam nos seus balanços contabilísticos anuais, a margem de lucro deve ser bastante interessante. É notório que os laboratórios farmacêuticos não existem para fazer caridade e que os seus acionistas querem garantir o retorno do dinheiro com o respetivo lucro (este ano os acionistas da Gilead Sciences vão receber dividendos de 0,68 cêntimos por ação) e é por isso que, talvez, nem tudo deva ser deixado ao livre arbítrio das regras do capitalismo.

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