Cascais e a Revolução Republicana

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A luta de Republicanos e Democratas pela vitória nas próximas eleições presidenciais americanas tem ocupado amplamente os noticiários, mormente pelo estilo ímpar do candidato Ronald Trump. Essas designações do outro lado do Atlântico nada têm a ver, todavia, com palavras iguais do lado europeu, mesmo se tivermos em conta, por exemplo, a vizinha Espanha, onde Republicano significa nitidamente o que  se opõe ao regime vigente, que é a Realeza. No caso da América, a dialéctica é, no fundo, entre a Direita e a Esquerda, consubstanciando Trump a tendência conservadora e Joe Biden a perspectiva mais inovadora.

No que respeita a Portugal, o último quartel do século XIX foi deveras buliçoso e os sucessivos governos não logravam resolver as constantes dificuldades por que o Povo ia passando. E, como tudo na vida e já a Bíblia no-lo conta, no livro do Levítico (16: 1-23), havia que encontrar um bode expiatório.

Os Hebreus agarravam em dois bodes: sacrificavam um deles em holocausto, no Templo de Jerusalém, no Dia da Expiação; o outro, depois de o sacerdote, impondo-lhe as mãos, lhe ter confessado os pecados do seu povo, era largado, na expectativa de que um dos anjos maus o viesse buscar e, dessa forma, o Povo estaria liberto da carga negativa que porventura lhe oprimia o espírito.

Entre nós, as querelas desse final de século apontavam predominantemente numa direcção: «Se tivéssemos um regime republicano, o Povo decidia quem mandava e era tudo muito mais fácil». Assim, no caso do Ultimato Inglês – essa mais uma das patifarias que a História portuguesa deve aos seus «aliados» ingleses – a opinião pública culpou o Rei de ter deixado roubar-nos o território entre Angola e Moçambique, cortando, desta sorte, a meio o que orgulhosamente se designara de Mapa Cor-de-Rosa. Tivemos que ceder perante a força das armas, mas hoje – que, felizmente, o Hino Nacional se está a fazer ouvir mais vezes, mercê das vitórias dos nossos atletas – a proclamação «Às armas! Às armas! Contra os canhões marchar, marchar», recorda-nos que esses canhões eram os dos senhores britânicos…

Não cabe aqui a evocação do que foi a Revolução de 5 de Outubro, que determinou a rendição de el-rei D. Manuel II. Dir-se-á, contudo, que momento importante na história local foi a participação dos cascalenses.

Relata Ferreira de Andrade que, na tarde de 5 de Outubro, vindo da Parede, com alguns correligionários e foguetes, chegou à vila o Sr. José João Dinis, que nessa mesma manhã fora nomeado administrador do concelho pelo Dr. Afonso Costa, em nome do Governo Provisório e na ausência do seu colega do Interior.

«Acompanhado das filarmónicas de Carcavelos e da Parede, percorreu no meio do maior entusiasmo as ruas da vila», como reza uma local do Diário de Notícias.

No edifício da Câmara, depois de tomar posse de todos os documentos da municipalidade, içou a bandeira republicana e pronunciou um discurso, aconselhando a maior prudência e ordem a todos aqueles que o tinham acompanhado da Parede.

Parede constituía, de facto, um dos mais fortes redutos das hostes republicanas. Teve o Dr. Jorge Miranda ocasião de, em penadas largas, dar conta do que foi esse «bastião republicano no concelho de Cascais», em artigo que publicou no Arquivo de Cascais, o então Boletim Cultural do Município, nº 12, 1996, pp. 81-87.

Das consequências dessa revolução em Cascais, cumpre destacar o elevado interesse pela instrução, uma das ‘bandeiras’ relevantes dos republicanos: urgia instruir o Povo, para que melhor soubesse defender os seus interesses e assumir o destino nas suas mãos: «Depois do pão, a instrução»! – proclamava-se.

É nesse plano que se enquadra a criação, na Parede, da Associação-Escola 31 de Janeiro, que teve como primeiro presidente da Direcção, a partir de 31 de Março de 1912, o paredense Abeillard Raul Fragoso de Vasconcelos, também ele presidente da primeira vereação republicana da Câmara Municipal de Cascais, que tomara posse a 13 de Outubro de 1910. A designação «31 de Janeiro» prende-se com 31 de Janeiro de 1891, data da revolta republicana fracassada, nascida no Porto em protesto contra a pusilanimidade manifestada pelo governo por ter cedido ao referido ultimato inglês.

É nesse âmbito que se insere igualmente a criação, a 8 de Janeiro de 1911, da Sociedade de Educação Social de S. João do Estoril (mais tarde, popularmente conhecida como «Escola de Verbena»), que – tal como a 31 de Janeiro, da Parede – ainda hoje existe. Já – infelizmente! – não existe como escola a que foi a Escola de Birre, resultante da transformação da Ermida de Santo Isidro, no quadro da laicização dos edifícios religiosos empreendida pelos republicanos. O núcleo principal da escola era justamente o corpo do templo, notando-se perfeitamente a separação para a zona do altar-mor.

Birre foi um grande centro republicano também, de que duas placas toponímicas ímpares – essas felizmente bem salvaguardadas – constituem documentos relevantes. Têm ambas a data de 23 de Abril de 1916. Homenageia, uma, Fausto de Figueiredo, presidente da Comissão Executiva da Câmara Municipal de Cascais «pelo grande incremento por ela dado ao fomento da instrução popular do concelho»; a outra, João da Câmara Pestana, como responsável pela Direcção Geral da Agricultura, «pelo valioso concurso por ela dado ao desenvolvimento da pecuária e da agricultura».

Situam-se os Paços do Concelho de Cascais na Praça 5 de Outubro, como acontece com inúmeros outros casos em Portugal. Nalguns, preferiu-se Praça da República. Reflexo da revolução e da nova ideologia na toponímia. Curiosamente, em Loures, há o Largo 4 de Outubro, porque foi nesse dia, um dia antes do que viria a acontecer no resto do País, que uma Junta Revolucionária decidiu tomar os Paços do Concelho e içar neles a bandeira republicana.

Como curiosidade toponímica, dir-se-á, a terminar, que existe, em Coruche, a Praça da Liberdade; antes, fora Praça 5 de Outubro e, no século XIX, quando por ali a burguesia deambulava nos seus negócios e o local regurgitava de gente, foi Praça do Comércio. 5 de Outubro, após a implantação da República; da Liberdade, após a Revolução de Abril. E o curioso está no facto de as três designações constarem na placa – a mostrar não apenas uma continuidade, mas, de modo muito perspicaz, a revelar que os responsáveis pelos serviços de toponímia da Câmara Municipal estão bem cientes do que é a tradição, a memória, as raízes, o património. O mais habitual é… destruir!

                                                                    

2 comments

  1. Mais uma bela lição de História sobre aspectos particulares (relativos ao concelho de Cascais) da implantação da República. Ouvia muito falar, em miúda, desse lema “depois do pão a instrução” porque o meu bisavô materno estivera ligado à Escola Livre das Artes do Desenho e muita importância dava à instrução popular. Escusado será dizer que era republicano e ainda tinha o privilégio de assistir à mudança no dia 5 de Outubro de 1910.
    Agradeço mais este belo texto e cumprimento o autor por tê-lo escrito e partilhado connosco.

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