Os vendedores de promessas

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Tive um familiar que não tinha habilitações superiores, mas que se apresentava sempre como engenheiro ou doutor, consoante a circunstância. A única vez que me lembro de ter assistido a uma das suas rábulas, fui muito crítico e pedi-lhe para não o voltar a fazer na minha presença, porque me deixava desconfortável.

Ele era vendedor e confessou-me que só utilizava essa estratégia no âmbito da sua actividade, porque “impressionava os parolos” e, consequentemente, abria inúmeras portas, o que aliás eu próprio acabara de testemunhar, depois de o ter visto vencer uma disputa comercial assim que” exibiu os galões”, sem ter que acrescentar mais argumentos à discussão.

Portugal não é um país de parolos mas tem-nos em número bastante considerável, tal como não me parece que seja racista, embora ainda ostente o peso que séculos de colonizador lhe conferiram, corporizado numa percentagem significativa dos 800 mil retornados (e mais alguns que por aqui viviam), que tiveram dificuldade em adaptar-se à nova realidade.

Não baseei a conclusão em nenhum estudo particular, apenas na minha própria experiência e naquilo que vou observando e, penso até que, estas reminiscências extinguir-se-ão por si próprias a breve prazo. Todavia, não acho que se deva baixar os braços, porque anda por aí outro género de vendedores (licenciados mas sem qualquer tipo de escrúpulos), a arregimentar seguidores no terreno fértil dos parolos e dos saudosistas que ainda resistem à mudança.

1 comment

  1. Em relação a esta crónica tenho sentimentos divididos.
    Não sei se não seremos mesmo um povo de parolos, no sentido em que pensamos pouco, refletimos pouco, estudamos pouco e, aqui em desacordo total, sei que somos mesmo uma sociedade racista, serodiamente racista, às vezes dissimuladamente racista, mas sempre racista.
    Há uns 20 anos que vivo com uma mulher negra de Angola, nascida em cabinda. Todos os meus filhos são mestiços. Ouço-os em casa, ao jantar, contar as cenas do dia. O racismo está lá, quase sempre, nessas conversas sobre a escola, os professores, os colegas do emprego, os chefes, os clientes e os insultos dos que passam de carro e gritam “ó preta, vai para a tua terra!”.
    Acontece que a minha mulher e os meus filhos, a maioria das pessoas, são gentis. Durante um tempo não relevam essas merdas, mas as mágoas amontoam-se mesmo sem querermos. E um dia salta a tampa. Eu acho que está quase a saltar, a não ser que a pressão diminua. É uma questão da Física, afinal de contas.
    Concordo contigo naquela parte dos “vendedores de promessas”, embora ache que o que fica da tua crónica não é essa questão. Mas isso talvez dependa da sensibilidade de cada um.
    Depois de ter enviado um email com esta crítica, quis deixá-la aqui igualmente, tipo “declaração de voto”.

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