“O SNS está a ser comido pelos privados”, dizia António Arnaut

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132 euros é quanto custa no Serviço Nacional de Saúde, uma endo-colonoscopia com sedação sugerida pelo próprio SNS. 20 euros para isto, 10 para aquilo, mais 30 para outra coisa e mais 60 para análise dos pólipos retirados. Não sei quantas famílias portuguesas poderão fazer este exame essencial depois dos 50 anos de idade. Mas, disseram-me, se o utente conseguir provar ser indigente, então não paga nada. O SNS imaginado pelo advogado António Arnaut não é este. O seu financiamento devia ter origem exclusiva nos impostos que todos pagamos.

Nos últimos anos, ouvi de António Arnaut repetidas queixas, quando lhe dava boleia para o Hotel Excelsior, junto ao Largo Marquês de Pombal. António vinha a Lisboa de comboio, duas vezes por semana, comandar o Grande Oriente Lusitano e sentia-se cansado. Não chegou a bisar o cargo de Grão-mestre como muitos desejavam. Contou-me que conseguiu fazer aprovar o SNS sem ninguém perceber. Levou o assunto a discussão e votação na Assembleia da República e no meio da confusão dos primeiros anos da Democracia, a coisa passou sem se saber qual o impacto nas finanças públicas.

Dizia-me ele, “Achas que eu ia deixar as pessoas continuarem a morrer? Sem consultas, sem exames, sem medicamentos? Olha! Morreu, chegou a vez dele. Qual quê!” Com as devidas diferenças, António Arnaut teve um impulso semelhante a Marcelo Caetano, anos antes, quando alargou as reformas aos rurais. Os bem instalados protestaram, espernearam e aceitaram mal a entrada no sistema de quem nunca tinha descontado. Os principais a protestar foram os empregados das cidades e também os funcionários do Estado, que ainda hoje vão a uma consulta de especialidade por 4 euros, via ADSE.

Fechar urgências para beneficiar privados

Em Portugal, após 25 de Abril de 1974, nunca ninguém foi barrado à porta de um hospital, como acontece com os americanos. Mas um dia isso vai acontecer.

“É disso que tenho medo”, dizia-me António Arnaut, quando saíamos do Grande Oriente Lusitano a caminho do Hotel. António era um homem de ideias e ideais. Levou o seu projeto do SNS à Maçonaria de inspiração francesa para ali ser discutida. E foi. “Sabes? Se tivesse sido discutido no lado dos ingleses, seria um grande berbicacho, porque a saúde para eles depende do orçamento. Não é um abraço fraterno,” confessou Arnaut.

As preocupações de António estão hoje em cima da mesa, mas já são um muro. Os hospitais particulares prometeram ajudar o SNS. Para descongestionar. Mas não é verdade, afligia-se Arnaut. Na verdade, os grandes grupos económicos estão a comer o SNS.

O Hospital da Luz de Ricardo Salgado financiou-se com o fechar de porta, por exemplo, da ala pediátrica do Hospital São Francisco de Xavier. Depois das 19 horas, os pais e miúdos eram encaminhados para o Hospital da Luz. Apesar de existir um belíssimo edifício, bom equipamento e ótimos médicos e enfermeiros no Hospital São Francisco de Xavier. Foi também assim que Ricardo Salgado sacou dinheiro  ao Estado, ou melhor aos portugueses, para agora dizer não saber onde o meteu. No banquete até deitaram abaixo o mais moderno e recente quartel de bombeiros, para ampliar o Hospital da Luz. Já ninguém se lembra. Foi há meia dúzia de anos.

António Arnaut falava que “Há uma cambada de corruptos que fazem as vontades ao Salgado e amigos. Quando eu morrer, pá! Não deixes morrer o Serviço Nacional de Saúde. O Povo, os trabalhadores, os miúdos e os velhos quando não têm assistência na saúde morrem. Sabes?” E sobre a ADSE? “Nem me fales nisso, pá! São portugueses com duas caras. Protestam mas comem quando lhes interessa.” E depois dava uma gargalhada. “O Soares torceu o nariz, sabes? Mas disse-me: apoio, se achas que é bom. E apoiou!” Uma vez perguntou-me: “Achas que eles acabam com o SNS?” “Claro que não”, respondi eu.” “Mas um claro-que-não é um sim, pá!” E eu calava-me.

Saía e abraçávamo-nos. E ele entrava no Hotel Excelsior já curvado. “Não te cales”, acenava ele. Pois não! Paguei 132 euros no Hospital da Luz com uma requisição do Serviço Nacional de Saúde. E fiquei a pensar: e se eu fosse um dos 720 mil portugueses com salário mínimo e família para sustentar? O que fazia? Ficava calado? Ainda entreabri os lábios mas a menina do guichet foi clara: “eu sou funcionária, para reclamações tem o livro.”

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