O segredo da Estação de Santa Apolónia

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A Estação ferroviária de Santa Apolónia, em Lisboa, vai passar a ser ocupada em grande parte por um hotel. Apesar de o turismo marinar em amarguras pelo menos nos próximos anos.

A notícia foi-me trazida pela pianista Catherine Morisseau que vive de Lisboa no coração. Catherine tem travado grandes batalhas contra a Câmara de Medina, incendiando as redes sociais. Por exemplo, a propósito da construção de blocos de apartamentos de raiz no Campo de Santa Clara, alterando a malha urbanística existente.

A Estação de Santa Apolónia bem poderia ter um centro cívico ou um museu como fizeram os franceses. Mas não. Segue o caminho do antigo Ministério da Administração Interna, na Praça do Comércio, transformado em hotel do Grupo Pestana, num abrir e fechar de olhos. Agora é um pedação, provavelmente dentro de meses é a totalidade do edifício.

A Câmara de Lisboa marcha em sentido inverso de Barcelona, muito mais experiente. Ada Colau, a alcaide da cidade, restringiu a entrada de turistas em alguns locais, com o aplauso dos habitantes de Barcelona. E ainda antes da pandemia. E justificou: “não é possível aumentar mais o número de turistas, o crescimento do turismo está a tornar a cidade inabitável para os nossos 1,7 milhões de residentes”.

Mas por cá, Fernando Medina deixou enxotar homens, mulheres e crianças dos bairros históricos e da Baixa de Lisboa para dar asas ao alojamento local. Lisboa tornou-se uma Disneylandia do turismo de mochila. E em cada esquina nasceu um hotel.

Catherine Morisseau tem trolitado nessa política cruel para as famílias e prejudicial para o futuro de Lisboa. E até já andou a tocar o seu piano na caixa aberta de uma camioneta, como protesto. E também, diga-se, para delícia dos poucos habitantes sobreviventes desses bairros.

Fernando Medina e o seu braço direito Manuel Salgado têm sido mais explosivos que Krus Abecassis, quando se empenhou na construção das Torres das Amoreiras, autênticas bombas de fragmentação da malha urbana Lisboa.

É difícil aceitar que edifícios emblemáticos passem de forma repentina para a esfera privada. São retirados ao Estado, que somos todos nós. E subtraídos a gerações. Foram construídos com sangue, suor e lágrimas a troco de poucos reis, tostões ou centavos.

No Porto, na Avenida dos Aliados, o meu avô, órfão de pai, andou a dar serventia a pedreiro, com 11 anos de idade, a troco de uma bola de pão por semana. E tuberculizou ao fim de um ano. Regressou a Barroselas descalço e à beira da morte. Era assim com todos. Falsas promessas e venham mais miúdos.

Estes edifícios, vendidos ao desbarato ou cedidos de forma generosa, pertencem ao Povo português. Não deveriam ser alienados ou alugados em contratos sem fim, por quem tem a força de apenas 96 950 votos. No caso, em Lisboa. A esses votos podem-se juntar 26 619 do Bloco de Esquerda e 20 418 do PCP. São números das últimas eleições legislativas. Lisboa é capital de um País de 10 112  355 de habitantes. 96 950 votos é uma insignificância.

A cidade deveria ser gerida por um presidente eleito pela grande Lisboa, pelos lisboetas de Lisboa e dos concelhos em seu redor. E os senhores da Câmara deveriam poupar-nos à vergonha de ver hotéis e fundações construídos em terrenos públicos à beira Tejo ou de alienarem edifícios para fins privados que custaram os olhos-da-cara a gerações e gerações que começaram a trabalhar aos 10 e 12 anos. Que ganharam salários de miséria. Que foram às centenas nas cheias de 1969 como se fossem bocados de madeira. Que morreram aos milhares em guerras estúpidas. Que comeram metade de uma sardinha ao almoço. Que sobreviveram à tuberculose generalizada. E que pagam agora a luz com língua de palmo aos chineses.

Há lá direito de num sopro passarem – quase em segredo – a Estação de Santa Apolónia para as mãos de privados, quando no Largo, todos os dias, se reúnem dezenas de sem-abrigo para receber uma sopa e um pão com qualquer coisa dentro. A estação deveria ter um centro social e não mais um hotel. Hotéis há muitos e os palermas somos nós.

9 comments

  1. Salvo raras excepções, o país é há muito tempo governado por autarcas sem o mínimo de alcance para um futuro radioso em que as populações sejam as mais beneficiadas pelo trabalho desenvolvido. Nos projectos, quase sempre existe um “gato escondido com o rabo de fora”. Há centenas de exemplos por esse Portugal fora.

  2. No estrangeiro e de muito longe do meu país, nunca deixei de me manter ao corrente sempre que me é possível, e de me preocupar com o procedimento de tantos invecis, incompetentes e desonestas entidades governamentais e autocratas, que tomam decisões irresponsáveis em nome dum Povo que se deixa enganar, ser governado e espoliado.

  3. O PCP não está na gestão da cm Lisboa e foi quem denunciou e combateu a negociata do hotel em Santa Apolónia. Na altura não houve espaço no jornal para divulgar o alerta do PCP. Agora há espaço para, mentindo, o tentar meter no embrulho. Os comunicados do PCP são públicos, http://www.dorl.pcp.pt, investiguem.

  4. “Mais do mesmo” :
    O Estado português serve-se dos dinheiros públicos para beneficiar património que acaba por ir parar nas mãos de particulares, (só ficam com carne limpa). Mais tarde, depois de alguns anos de exploração já em estado decrépito, volta às mãos do estado para obras. As PPP neste país foram sempre um negócio para esmifrar o orçamental geral do estado público. O que está a acontecer com o Novo Banco, é bem a prova da estratégia política dos governos desta neodemocracia em
    Ilusionista que trabalha para os “Padrinhos desta réspublica”

  5. Como é que o Medina é responsável pelo que e fez no Terreiro do Paço, ou será em Santa Apolónia, a ser verdade o que aqui se diz, se os edifícios não são da Câmara? Que demagogia é esta e visa o quê?

    • pelo que se depreende do artigo, a estação de Santa Apolónia pertence ao Estado, será que pertence à CML?, talvez, mas de qualquer modo quem licencia obras e todas as outras autorizações é a CML.

  6. A Estação pertence à empresa Infraestruturas de Portugal, e não necessita de licenciamento da CML, assim como as Universidades não necessitam.

  7. O hotel não irá ocupar toda a Estação de Santa Apolónia mas, apenas, o lado da Estação virada para a Av. Infante Dom Henrique – há que entreter os hóspedes (se os houver no fim da obra!) com os barulhos dos combóios e dos navios cruzeiro a chegar e a partir dando-lhes, para a troca, a visão do rio e o barulho da Discoteca Lux Frágil. Do outro lado da rua, creio que serão mantidos serviços da CP. Acresce que, desse lado, haverá, um pouco acima, um outro hotel, no local onde se encontrava o Hospital da Marinha, construído no local do antigo Colégio de São Francisco Xavier, vendido a franceses por cerca de 18 milhões de euros e que se encontra, neste momento, igualmente em obras. Situado num plano mais elevado, a vista deste hotel será incomparavelmente melhor do que a de Santa Apolónia.

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