O País das Maravilhas

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Há dias em que não se pode sair de casa, porque até as fardas dos melhores generais correm o risco de ir parar à lavandaria.

Vem este lugar comum a propósito do Infarmed e da nossa DGS, que, esta semana, foram alvo de críticas que ofendem a honra dessas entidades e ferem a consciência nacional. E para que equívocos não subsistam, peço que não confundam esta DGS com a outra, a PIDE, prestimosa Instituição que até já nem é para aqui chamada, porque há muito mereceu altas distinções e uma cuidadosa reciclagem, por parte de quem de direito. 

Quem não se sente não é filho de boa gente. A “férrea” atoarda de que a DGS e o Infarmed “nada aprenderam com os erros do passado”, ainda por cima proferida à sorrelfa e por um alto responsável da nossa prestigiada República, só podia cair mal nos portugueses bem informados e de boa vontade: uma esmagadora maioria, que não se revê em “rodriguinhos” malévolos e traiçoeiros, nas “costas” de tantos que tanto se esforça pelo nosso bem.    

Repondo a verdade e a justiça, urge reparar a honra dessas Instituições, que têm demonstrado notáveis desempenhos técnicos e científicos no combate à atual pandemia. A que acresce o preito de um tremendo esforço na aplicação de centenas de orientações tendentes a salvar um SNS que, por culpa dos profissionais e dos doentes, se encontra em “cuidados intensivos” e “coma induzido”, desde há meses. 

Se outras pertinentes razões não existissem, só estes factos bastariam para, em devido tempo, terem sido suspensos os inúteis encontros semanais de trabalho, um péssimo hábito que também só alimentava a confusão no povo e agendas populistas. 

Sucesso indesmentível, mas que rói as más consciências por até furar os olhos, também toda a coordenação tem sido exemplar: ainda esta semana a Ministra da Saúde censurava autarcas pato-bravos que sugeriam o uso obrigatório de máscara, “por acaso” a primeira medida recomendada pelo Primeiro-Ministro, no dia seguinte; enquanto isso, o PR, o exemplo maior de coerência no cumprimento de regras sanitárias desde o início da pandemia, atirava as culpas para o povo… que, como sempre, faz parte do problema e de vez em quando abusa, obrigando-o a entrar em confinamento.    

Com tamanhas garantias de qualidade, não admira que João Leão, o novel Ministro das Finanças, tenha tranquilamente afirmado, na sua primeira entrevista à TV, que, pesem algumas “incertezas”, como a recente interdição aérea, a “recessão já bateu no fundo”, o salário mínimo terá um “aumento significativo” em 2021, o “investimento público subirá 20%” e, esquecido o pagamento dos calotes a empresas e privados, mas a gozar de “estabilidade fiscal”, o Estado está em condições de promover “novas contratações na função pública, em que o aumento da massa salarial será… superior a 2%”. Um milagre porque este “leão”, nos dois meses que leva de mandato, já conseguiu mais e melhor que o treinador do Sporting: não só renovou todo o plantel, como ainda espera por novas contratações, não vá o outro António, o Costa e Silva, tecê-las… 

Mas basta de tanto ironizar sobre este “país-do-faz-de-conta”, afinal o melhor remédio que encontro para manter a sanidade mental. Passemos às presidenciais em que, talvez devido ao confinamento, também esta semana se multiplicaram as “reflexões pessoais” sobre um sistema político que, alegado por todos, “pode ser mudado por dentro”.  

Há quatro anos, quando me debrucei sobre este tema, resumi a três “dês” as barreiras que o novo PR teria de vencer: o distanciamento em relação ao povo, questão entretanto disfarçada com selfies erráticas, mas despidas de empenho na resolução consequente de qualquer causa, popular ou não; o despesismo do Estado, uma afronta ao contribuinte que até sofreu incremento; e, por fim, a dependência face aos poderes político-económicos dominantes, santuário onde a atual Presidência também comungou. 

Daí que, patriota que se revê no socialismo humanista e democrático, não possa atribuir “nota positiva” a um Presidente que, embora hábil na gestão política, nem as desigualdades e tensões sociais conseguiu travar. 

Sendo um dos piores presidentes desde 1910, o elogio que Ana Gomes lhe dirigiu, ao assumir-se “candidata do socialismo democrático”, só vem reforçar a minha noção sobre a inabilidade política da candidata. Na verdade, sendo alguém que prestou relevantes serviços e mereça distinção, nunca, ao longo da sua vida, a vi interessada em reflexões coletivas e soluções consertadas, dentro ou fora do PS. Daí, que a sua demorada “reflexão pessoal” se centrasse em excessivas fulanizações, pessoais e não só, sem nenhuma ideia sobre Portugal tivesse sido expressa. É mentira? 

Hoje como ontem, e ao contrário do que Ana Gomes defende e todos os demais candidatos praticam, nenhum partido político, nem sequer uma geringonça, muito menos uma só pessoa, conseguirá “mudar o atual sistema por dentro”. 

Sem dúvida que os partidos políticos são a pedra angular de qualquer democracia, mas, sem um forte incentivo à participação da sociedade civil na agenda do Presidente, e sem orientações políticas coerentes e claras, não há mudança possível para Portugal. Tal como aponta a nossa Constituição, a nossa democracia não se pode esgotar em Partidos que se revelam agências de interesses e se perdem em combates tribais, em que nenhum código de ética e de honra é respeitado.

Para reequilibrar a intervenção da sociedade na toma de decisões coletivas, há que reforçar a presença de outros atores de importância fundamental, como sejam as universidades e as associações de estudantes, as ordens profissionais, os sindicatos e organizações patronais, as ONG e outras agremiações que, desinteressadamente, se empenham na defesa da arte, da ciência, da cultura e do património, afinal o cerne de um povo que tem de se orgulhar da sua identidade e dos seus egrégios avós.

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