Náufragos

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Um Muro no Meio do Caminho, de Julieta Monginho (Porto Editora, 2017)

Náufragos – I

«O mal começa na rejeição do outro.»

Dormem na estrada, com a cabeça no alcatrão, a face contra o lancil da berma. São crianças. Centenas de crianças sem abrigo, estendidas no meio de sacos, sapatos, trouxas. A União Europeia chama-lhes menores não acompanhados e eu, sentada na beira do meu sofá, corrijo as notícias em voz alta: «São crianças, crianças órfãs.» Enfurece-me a asseptização do discurso, o branqueamento da realidade, a maneira como os poderes políticos se servem da linguagem para criar distância entre nós e os outros, escolhendo palavras desprovidas de carga afectiva, palavras que não fazem parte do nosso léxico sentimental. Menores não acompanhados: imagino um balcão da TAP com uma hospedeira sorridente acolhendo uma criança que vai viajar sozinha de avião pela primeira vez. Ouço menores não acompanhados, mas o que vejo na televisão são crianças que a Europa abandonou a meio de uma estrada. As noites sucedem-se e ninguém lhes dá abrigo. Dormem ao relento. Moria, a panela de pressão, explodiu. Os refugiados revoltaram-se, as chamas devoraram o campo. Ao inferno de Moria, infecto, contaminado, sucede um inferno ainda pior, sem tendas, sem refeições, sem água corrente, sem assistência.

Tiro da estante o meu exemplar de Um Muro no Meio do Caminho de Julieta Monginho e, guiando-me pelos cantos dobrados, releio parágrafos inteiros. A história repete-se, feita de impotência e desespero: «É preciso que ponham fogo a um campo para provar que ali existem pessoas encalhadas no pesado tempo que lhes coube? […] O fogo foi posto, mais do que uma vez, e nada aconteceu». As palavras fogo posto são repetidas nos noticiários, como se a possibilidade de ter sido um grupo de refugiados a atear as chamas ilibasse a Europa da criação destes campos que se assemelham ao Purgatório, campos onde, aos poucos e discretamente, os refugiados são votados ao esquecimento. Refugiados encerra a ideia de refúgio, mas não é um porto de abrigo que espera estas levas de sírios e afegãos que encalham nas ilhas gregas. «Fugir da morte certa e encontrar o quê?», pergunta Monginho. «Muros, insultos, fronteiras», «os passos em volta de uma jaula».

Neste romance que ganhou o Grande Prémio da APE, a autora dá voz aos refugiados e corpo às mulheres. «É no corpo delas que começa a dor. São elas a parir e a ver partir os seus meninos – os soldados, os mortos. São elas que escondem a vergonha, limpam e ordenam, calam e renunciam. Seguindo os homens, a sua fúria, a sua loucura, a sua ousadia. […] São elas quem sofre sem poder levantar a voz contra a fome de poder. Elas, que conhecem a fome primordial, o sangue primordial, nada podem contra a voracidade que avassala os machos, e os leva a prolongar o corpo nas armas de matar e de morrer.»

Vítimas da violência dos adultos, as crianças de Moria dormem na estrada, à espera que alguém as recolha, acolha, lhes dê um futuro. O livro de Julieta Monginho abala-me e, como um náufrago, agarro-me a duas linhas de esperança: «São duras, as fronteiras», diz a autora. «Mas as palavras são mais fortes, as mãos dadas, os pés prontos para dançar e caminhar.»

Appunti per un naufragio, de Davide Enia (Sellerio Editore, 2017)

Náufragos – II

«E eu? Existe um porto para mim?»

«Sabes o que se obtém fechando demasiadas pessoas num espaço tão reduzido?», pergunta uma das vozes de Appunti per un naufragio, referindo-se a um centro sobrelotado que acolhe migrantes em Lampedusa.«Raiva. É assim que se criam bestas. E, de facto, rebentou uma revolta, com colchões a arder e uma ala incendiada.» A literatura não tem de ser militante, engagée, mas gosto cada vez mais de livros que me falem de temas incómodos e me desassosseguem. Uns dias depois de eu ter recomendado Um Muro no Meio do Caminho a uma amiga italiana, ela enviou-me o livro de Davide Enia, que ainda não foi publicado em Portugal. «Quando cheguei ao fim, chorei», confessou-me ela. Eu também.

Durante três anos, o dramaturgo e encenador italiano viajou para Lampedusa, a ilha mais ao sul da Europa, para recolher as histórias dos vários naufrágios e salvamentos, dos muitos socorristas e inúmeros migrantes, histórias de vida e morte no mar. O resultado é um texto profundamente poético e comovente. Lampedusa pertence às Pelágias, arquipélago simbólico que «representa o ponto de encontro entre dois continentes, África e Europa». Ao contrário das suas irmãs, Linosa e Lampione, «não tem origem vulcânica, porque faz parte da placa tectónica africana». E são africanos os migrantes que diariamente as autoridades italianas resgatam ao largo de Lampedusa. «O que está a acontecer agora no Mediterrâneo pode ser visto como uma antecipação do futuro», explica uma das personagens, «aquilo que se separou [as placas tectónicas] está a unir-se. O movimento, o deslocamento, a migração fazem parte da própria vida do planeta. Migram os pássaros e migram os peixes, movem-se os mares e deslocam-se as manadas e os continentes. Acontecerá. Já está a acontecer. África aproximar-se-á e instalar-se-á em cima da Europa e do que resta dela.»

Enia dá voz aos homens que todos os dias respondem a pedidos de socorro e desafiam a morte para resgatar desconhecidos que, no mar, não têm cor, etnia ou religião. Com invulgar empatia, conta-nos fragmentos de vidas, ciente, porém, de que «as nossas palavras não conseguem captar plenamente a verdade» dos migrantes. «A história da migração serão eles próprios a contá-la, os que partiram e que, pagando um preço inimaginável, chegaram a estas praias. […] Eles empregarão as palavras exactas para descrever o que significa alcançar terra firme, depois de escapar da guerra e da miséria […]. E serão eles que nos explicarão em que se transformou a Europa e nos mostrarão, como um espelho, no que nos transformámos nós próprios.»

O texto de Davide Enia relembra-nos quem somos, remete-nos para a nossa humanidade. «Das zonas de guerra não se foge de avião», escreve. «Foge-se a pé e sem visto, pela simples razão de que não se emitem vistos. Quando a terra acaba, é preciso subir para dentro de um barco. Começo, assim, pela origem, já que é só uma, a fonte da qual emana a água que nos mata a sede. No fundo, é sempre a mesma história que se repete. Uma jovem fenícia foge da cidade de Tiro, atravessando o deserto até ao fim, até os pés não poderem seguir em frente, porque em frente está o mar. Encontra, então, um touro branco, que se agacha e a acolhe no seu dorso, transformando-se em barco e sulcando o mar, até chegar a Creta. A rapariga chama-se Europa. Esta é a nossa origem. Somos filhos de uma travessia de barco.»

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