País de racistas?…

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Jubilado em 2018, após décadas de trepidante carreira médica, ainda hoje me procuram amigos, e amigos de amigos, que em mim buscam “certezas” e, sobretudo, a tranquilidade espiritual por que anseiam.

Na defesa do bem-estar humano, nunca olhei a sistemas de saúde, classe social, religião, clube, origem étnica ou cor da pele dos incontáveis doentes que sempre procurei ajudar e sem usufruir de honorários.

Foi neste são princípio que, ainda na semana que passou, tive o privilégio de conhecer o ancião que me ladeia, nesta foto. Nascido há 80 anos, numa ex-colónia que Portugal “pôs a saldo” sem ter, sequer, sufragado a sua não vontade de independência, foi para mim uma surpresa encontrar alguém que, tendo percorrido o mundo, é uma referência internacional em acidentes aéreos.

Impressionado pela sua rara cultura e fina sensibilidade, e muito embora só recentemente tenha conseguido obter a cidadania portuguesa, cuja bandeira jurou, deparei-me com um grande “senhor”, tão ou mais português do que muitos que aqui nasceram e sempre aqui viveram.

 A jovem que nos acompanha, sua neta e por sinal tão “escurinha” como metade da minha família, que também por Angola andou e criou sementes, é um orgulho. No entanto, a encerrar um percurso académico promissor e que culminou num mestrado brilhante, na área dos petróleos, no Arizona, aí lhe foi diagnosticada uma doença crónica que, embora contornável, exige cuidados de que o seu país não dispõe.

Sem apoios, e ainda à procura do primeiro emprego, resolveu “investir” em Portugal, terra que, basta ouvi-la, sempre a seduziu.

Entrando, como doente, no “circuito da medicina privada”, foi certamente bem acolhida e tratada: só que a custos financeiros que, acrescidos por protocolos mínimos que as empresas determinam aos profissionais que contratam, serão insuportáveis mesmo para altas bolsas.

Em Portugal, tal como atualmente acontece no resto do mundo, o “superior interesse” da agiotagem está a sobrepor-se aos míseros direitos humanos. Neste caso, tendo eu recorrido à ajuda voluntária de ex-colegas do SNS, que mantêm sobre a defesa da vida humana e da Medicina uma noção digna, por ora ela procura ganhar tempo, enquanto sobe um calvário da burocracia que, não sendo cega, nem sempre é justa.

Reconheço ser preocupante para o nosso país a integração de comunidades, de que é paradigma a muçulmana, que historicamente resistem a integrar-se. E também aceito que minorias há, que, para respeitarem os outros e se fazerem respeitar, deverão merecer mais e melhor atenção por parte dos poderes públicos. Quanto a energúmenos, e alguns se manifestam entre os portugueses, creio firmemente que estão repartidos com algum equilíbrio pelos diversos grupos étnicos e classes. Razão por que, até pelos imensos estragos que provocam, dúvidas não me restam de que a “raça” que, neste momento, mais deve preocupar os portugueses, sejam de esquerda ou direita, é a que usa boas-falas e colarinho branco.             

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