O regresso do nosso descontentamento

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Terminam mais ou menos por esta altura, maioritariamente, as férias dos portugueses. Voltar ao trabalho significará, para a maior parte, recair numa rotina que não os satisfaz profissionalmente. A depressão pós-férias tem a vindo a aumentar, caso típico de quem, entretanto, tem podido efetivamente divertir-se melhor e mais longe, ao contrário do que acontecia há umas décadas.

 O estado do dolce far niente é necessário para retemperar energias, para desligar de preocupações, para desobedecer a horários. Não é fácil, pois, quebrar este quadro de indolência contente, de um dia para o outro, até porque em muitos casos o regresso é feito a todo o gás, sem contemplações em graduar-se a carga de trabalho.

Contudo, na verdade, o mal estar e ansiedade que muitos sentem têm a ver com o facto de não haver real satisfação naquilo que fazem. Ora isto advem de vários fatores, por vezes combinados, o que faz com que em Portugal haja um sentimento de frustração generalizada no que ao emprego diz respeito.

1 – Vocação

A urgência maior é ganhar dinheiro. Para pagar contas, subsistir, aguentar o dia a dia. Sem emprego na área de eleição ou formação, muitos portugueses aceitam um trabalho para o qual não estão vocacionados. Tal situação não gera propriamente felicidade, embora se possa ser profissional da mesma forma se houver brio pessoal.

2- Salário

Convenhamos que no nosso país a esmagadora maioria das pessoas é mal paga. Com salários baixos, a motivação não será a mesma do que aquela que poderia haver se o empenho fosse monetariamente compensado. Não se trata de ambição ou ausência de profissionalismo, trata-se de justiça. O tempo da escravidão já foi.

3 – Horários

Há imensa gente a trabalhar com horários dificeis que, frequentemente, não se adequam a circunstâncias familiares, por exemplo, pelo que alguma vida pessoal pode ficar comprometida. Por muito que o trabalho dê prazer, os afetos de quem nos é próximo também fomentam o bem estar de forma inequívoca.

4- Ausência de opinião e escolha

Na maior parte dos trabalhos, o funcionário não tem qualquer voto na matéria, inclusivamente naquilo que lhe diz diretamente respeito. A sua opinião ou preferência não é simplesmente ouvida nem tida em conta. Esta mecanização cria frustrações e ressentimenros que ampliam o mal estar no local de trabalho e na vida pessoal.

5 – Não reconhecimento

Em Portugal são parcas as palavras de reconhecimento pelo que se faz. É tudo visto como uma obrigação e, assim sendo, quem trabalha cumpre simplesmente o dever. A falta de agradecimento ou congratulação por algo que se fez bem é comum e faz estragos na valorização do trabalhador, mais do que se pensa. O ser humano precisa de estímulo precisamente porque não é uma máquina.

Por vezes, muitas vezes, estes condicionantes surgem combinados. Desta forma, como exigir a alguém que sinta o maior prazer em regressar ao emprego? Se por um lado já sabemos que devemos estar gratos por termos um, por outro, e já num patamar acima de reflexão e consciencialização, compreende-se a angústia que é deixar o verão do contentamento rumo ao panorama de sacrifício e esforço que muitas profissões acarretam pelas razões mencionadas.

Posto isto, este é o tempo da despedida de dias mais soltos e livres. É aproveitar e esperar utopicamente que o mundo do trabalho o seja um pouco mais também.

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