Marcelo já foi à Feira do Livro

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Quem inaugurou a primeira Feira do Livro, em 1930? Os relatos da época não mencionam esse pormenor. Algumas fotos mostram Fernando Pessoa rodeado por outros escritores famosos, mas, pelo menos na net, não há fotos nem de Carmona nem de outros ministros que eram quase todos militares (Salazar, nas Finanças, era um dos poucos civis). Vivia-se em plena ditadura militar e é provável que os governantes não se quisessem misturar com o povo.

Passaram 90 anos e hoje temos Marcelo, o presidente afável e voluntarioso que não só vai à Feira do Livro como compra livros e apela aos portugueses para fazerem o mesmo. Ah!, mas os livros são caros, dirão com alguma razão aqueles que gostariam de ir mas cujo salário está mais reservado às batatas e latas de atum em conserva.

Ler é dar de comer a um milhão de portugueses

Bom, em 1930 não era muito diferente, talvez até fosse pior. Dois anos antes tinha havido o famoso crash bolsista em Nova Iorque e a crise era já global. Em Portugal, nesses tempos, poucos iam à escola, poucos saberiam ler e, assim, iriam fazer o quê numa Feira do Livro? Hoje, quase todos sabemos ler e escrever. Vamos mais à Feira do Livro? Talvez o apelo do Presidente Marcelo tenha a ver com essa necessidade. Ler é dar de comer a um milhão de portugueses, teria dito Marcelo se se tivesse lembrado do famoso slogan do regime de antanho.

Comprar um livro não é só compensar o escritor. Há muito mais gente que vive deste negócio, desde os editores, aos tradutores, livreiros, designers, produtores editoriais e mais uns tantos de diferentes áreas profissionais. Todos juntos, somam mais ou menos um milhão, porque temos de contar com filhos e demais dependentes.

Por causa da pandemia, mil vezes pior que o crash de 1928, o setor livreiro tem sido devastado economicamente e esta Feira do Livro pode servir para aliviar um pouco a pressão. Talvez por isso, o Presidente da República pediu que “muitos milhares” de pessoas visitem a Feira do Livro de Lisboa. Num discurso na cerimónia de inauguração da 90.ª edição da Feira do Livro de Lisboa, Marcelo Rebelo de Sousa prometeu mesmo regressar várias vezes para comprar uma lista de livros que hoje elaborou numa primeira visita ao recinto, onde é obrigatório o uso de máscara.

Acompanhado pelo presidente da Câmara de Lisboa, Marcelo disse que “foi preciso coragem para pôr de pé esta Feira do Livro” no atual contexto de pandemia de covid-19 e “agora é precisa a coragem dos lisboetas e dos não lisboetas para virem à Feira do Livro”, mas sempre “de forma respeitadora das regras sanitárias”.

Quem vos escreve estas linhas vai seguir a sugestão do Presidente da República. Uma vez não são vezes.

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