Beirute, a mártir

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«A literatura dá-me vida e a vida mata-me.»

Nunca viajei para o Líbano, mas conheço intimamente Beirute. Foi isto que pensei, quando, no dia 4 de Agosto, vi as imagens do porto da cidade reduzido a destroços. A tristeza que senti não foi a de uma mera espectadora. Beirute era real para mim, passeei nas suas ruas durante muitas horas, guiada pelas palavras do escritor Rabih Alameddine.

Traduzi Uma Mulher Desnecessária há quatro anos, mas a personagem principal, Aaliya, acompanha-me até hoje. Identifiquei-me profundamente com a sua necessidade de solidão e, acima de tudo, com o seu amor à literatura: «A literatura é a minha caixa de areia. Nela brinco, construo os meus fortes e castelos, passo momentos gloriosos.» Nas páginas do livro desfilam grandes nomes da literatura mundial – Tennyson, Rilke, Yourcenar, Tchékhov, Novalis, Sebald, Imre Kertész, Javier Marías – e muitas citações de Fernando Pessoa, por quem o autor nutre uma enorme admiração. A literatura é, para Aaliya, o escape a um mundo devastado por guerras constantes: a guerra civil que no final dos anos 70 transformou Beirute numa «cidade erma, cidade esgotada», o cerco israelita de 1982, a guerra em 1986, «seitas a matarem-se umas às outras, milícias a asfixiarem a população». Através de Aaliya, ficamos a conhecer «os labirintos em eterna mutação dos campos palestinianos», o infame campo de Sabra, onde as ruas e os becos se «multiplicam de noite como ratazanas». Sentimos «o odor intenso e enjoativo» que permeava o ar durante a guerra, um cheiro «a corpos deitados fora à pressa e à toa, um odor a carne, fresca e em putrefacção».

Como todos os beirutenses, Aaliya tem uma capacidade ímpar de resiliência. «Não se vêem, em nenhum beirutense, os sinais das cicatrizes psicológicas que estas batalhas causaram. Suprimimos tão bem estes traumas! Adiamos a escuridão irrespirável que pesa sobre nós». Foi precisamente de resiliência que nos falaram os repórteres no rescaldo das explosões de 4 de Agosto. Os habitantes desta cidade martirizada uniram-se para resgatar os sobreviventes e recolher os mortos, pondo de lado as divergências que os esgaçam. No romance, Aaliya é uma mulher de armas; chegou a dormir com uma AK-47 na cama, depois de três homens lhe terem invadido a casa de madrugada e defecado numa das assoalhadas. Enquanto a cidade «se auto-imolava, enquanto todos à minha volta andavam a matar ou a certificar-se de que não se deixavam matar», ela encontra a felicidade possível nas pequenas – grandes – coisas da vida: os livros, a música clássica, a sua amizade com Hannah, uma personagem tão bela quanto trágica, e a sua relação com as três vizinhas do prédio, «as três bruxas» que nos remetem para Shakespeare e, mais do que isso, para um sentimento de sororidade.

Uma Mulher Desnecessária fala-nos da condição das mulheres – «apêndices desnecessários» – na sociedade libanesa, dos casamentos forçados, da humilhação social inerente à esterilidade e ao divórcio, da violência de género. É um romance sobre o amor e a morte, o suicídio e a capacidade de sobrevivência, narrado com um surpreendente sentido de humor que nos faz sorrir a cada passo. É uma celebração da vida, da literatura, da amizade entre as mulheres. É, acima de tudo, uma ode a Beirute, «louca, linda, decrépita, envelhecida e carregada de dramatismo».

Uma Mulher Desnecessária, de Rabih Alameddine (trad. Tânia Ganho, Porto Editora, 2017)

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