Respeitem as farmácias

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Antes de iniciar este artigo, declaro sob palavra de honra que não tenho nenhuma farmácia, nunca tive nenhuma farmácia, não pretendo adquirir nenhuma farmácia e nenhum familiar meu é ou foi proprietário de uma farmácia.

Cumpre-me no entanto o dever de alertar os cidadãos para a situação destes profissionais.

Muitos foram os que bateram palmas aos médicos e enfermeiros que combateram e têm vindo a combater a pandemia.

No entanto, não vi ou ouvi uma palavra de apreço para com as farmácias que foram as primeiras a acudir a população, estávamos ainda no mês de março e o medo era absolutamente avassalador.

Foram as farmácias as primeiras a estar na linha da frente. Foram estes profissionais os primeiros a arriscar a própria vida numa altura em que ainda não era obrigatório usar máscara – mas já existiam infectados, ainda não era obrigatório usar viseira – mas já existiam infectados, ainda não havia álcool gel na entrada dos edifícios – mas já existiam infectados, as pessoas ainda mexiam nos produtos expostos – mas já existiam infectados, ainda não era obrigatório manter distância social – mas já existiam infectados, as farmácias ainda não dispunham de acrílicos nos balcões – mas já existiam infectados. E os farmacêuticos estavam lá, desprotegidos, arriscando a própria vida e a vida dos seus!

As farmácias foram as primeiras vítimas do negócio que se gerou.

E para acudirem à população pagaram o que lhes foi pedido. Máscaras e álcool gel a preços pornográficos.

Dizem os entendidos que é a lei da oferta e da procura. Existindo muita procura aumenta o preço e as farmácias, que nada tinham a ver com a escalada dos preços, ainda foram acusadas, por muitos ignorantes, de serem as culpadas pelo que estava a acontecer.

Não foram e não o são.

As farmácias foram as que estiveram nas trincheiras para que o desespero não tomasse conta da comunidade.

Hoje as farmácias têm centenas de unidades de álcool gel. Não o vendem porque o povo se esqueceu delas e prefere comprar noutras superfícies comerciais. É mais barato e o dinheiro não abunda. E eu percebo.

Hoje as farmácias não vendem máscaras. São muito caras e há quem as ofereça na compra de mercearia. O dinheiro não abunda, e eu percebo.

Hoje as farmácias têm centenas de máscaras e agora, que não há escassez de produto, os presidentes de câmara e de freguesia até as oferecem à população e a população (pasme-se) agradece. O dinheiro não abunda e eu percebo.

No entanto, já que o povo passa dificuldades e tem de comprar ao melhor preço, porque não ajudam as autarquias as farmácias a escoar o produto?

E as farmácias que se viram obrigadas a comprar produtos a preços astronómicos para valerem à população o que fazem com eles?

E nós? Será que em muitos casos a diferença de preços nos prejudica? Ou seremos apenas uma cambada de ingratos?

Sim, as farmácias são o parente pobre da saúde e isso, eu garanto-vos, que não percebo. E jamais perceberei que o povo seja sempre o primeiro a esquecer-se delas.

5 comments

  1. Viram se obrigadas ? Por quem ? A gestão das farmacias é privada Como Tal ninguem as obriga a nada. A grande maioria dessas farmacias de que fala são grandes grupos de varias farmacias que as transformaram em autenticos supermercados com pessoal de Bata ao balcao, nao precisam ajuda de camaras nem de autarquias. Quem precisa de ajuda Sao OS profissionais que nelas trabalham nao os seus donos.

    • Você qual a realidade de uma farmácia desde a crise? Certamente que não por isso não comente negativamente o trabalho do outros…

    • Infelizmente 99 % da populacao reage assim a tudo aquilo que ignora e/ou inveja. Santa ignorância. Os profissionais que la trabalham dia e noite (sim porque tambem ha os serviços) maioria das vezes sao os donos.
      Portugal não é só Lisboa e Porto.
      Outro que compra no “coitadinho” do supermercado baratinho, do “GRUPO” que até tem sede lá fora, que tudo vende destruindo todos os setores e paga salarios minimos.

  2. Muito obrigada pelo seu comentário, pelo carinho e apreço que tem pa nossa profissão.

    Não sei como há pessoas que criticam a sua posição mas essas pessoas de certo foram as primeiras a irem comprar mascaras e geis a preços absurdos. Penso que hoje reclamam porque se sentiram enganados e eu compreendo.
    Na vida nunca se agradam a gregos e a troianos mas na verdade quem reclama das farmácias apenas o faz da boca para fora porque na hora de aperto e na hora H é a primeira porta a quem irão bater! E nós? Nós Farmacêuticos lá estaremos com o mesmo sorriso de sempre e a nossa postura para escutar os nossos clientes!
    Por agora só me resta agradecer pelas suas palavras de reconhecimento

  3. Parabéns Raul e muito obrigado por este artigo, sabemos bem as dificuldades que passamos e o que tivemos que fazer para garantir a segurança de todos de maneira a que os utentes pudessem ter os seus medicamentos usuais em suas casas.
    Abraço

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