Lourdes, a autarca

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Lourdes tem 54 anos, emigrou no início da década de 80 para fugir da falta de perspectivas, das dificuldades que adivinhava para o futuro se se deixasse ficar na “santa terrinha”.

“Vim para Paris com 15 anos, sozinha. Os meus pais nunca foram imigrantes e fui a primeira da família a emigrar. Vou a Portugal todos os anos, tenho a minha mãe e 2 irmãos na terra e o resto da família em Lisboa!”, começou por dizer ao Duas Linhas quando a abordámos, curiosos por saber coisas desta portuguesa notável.

Lourdes Fernandes acaba de ser eleita autarca no 17º bairro de Paris, nas recentes eleições autárquicas que decorreram o mês passado. Não julguem que ser autarca de bairro é pouca coisa. De facto, cada bairro de Paris tem uma Câmara Municipal, a escala do país justifica este tipo de divisão administrativa. Só o 17º bairro, por exemplo, tem cerca de 168 mil habitantes, o que equivale a uma cidade de tamanho médio em França e se compararmos com Portugal equivale a uma cidade como, por exemplo, Amadora, Almada ou Oeiras, é um bairro maior que Guimarães ou Odivelas.

Lourdes foi eleita na lista liderada por Geoffroy Boulard, um republicano conservador. Boulard foi reeleito e Lourdes faz, então, parte da equipa que vai governar o 17º bairro de Paris nos próximos seis anos.

– Alguma vez sonhou em ter uma actividade política?, quisemos saber.

– Nunca tive interesse em partidos políticos. Mas sempre me interessei pela atualidade política sobretudo em questões sociais locais.  Esta atividade para a qual fui convidada é um percurso natural do meu envolvimento.

Lourdes é uma activista compulsiva, ajuda toda a gente e mobiliza tudo e todos para causas comuns. O presidente de Câmara do 17º bairro diz que “reparei nela porque ela já era muito activa na vida do bairro através da sua atenção aos outros, como porteira, mas criou também a maior festa dos vizinhos de Paris. Eu quis que este talento do 17.º bairro fizesse parte da nossa equipa”, afirmou Geoffroy Boulard, durante a campanha eleitoral, em declarações à agência Lusa.

A mais-valia de Lourdes não é ser portuguesa porque no 17º bairro talvez nem existam muitos portugueses a viver. Trata-se de uma questão económica, apenas, explica Lourdes:

– Há menos casais jovens que ficam em Paris. O custo do alojamento é um dos maiores factores. Sobretudo para aqueles que têm o sonho de ser proprietários de uma casa. Os mais velhos reformam-se e regressam a Portugal ou mudam-se para locais menos caros, pois as reformas que vão receber não são adequadas para o custo de vida em Paris.

Agora que foi eleita, Lourdes vai trabalhar na área da solidariedade.

–  Vou desenvolver a solidariedade de proximidade e criar mini-bairros, como aldeias dentro do meu bairro. É isso que já faço.

Proximidade e pandemia covid-19 parecem ser coisas antagónicas, mas Lourdes não se deixa intimidar pelas dificuldades.

– o que mais a impressiona nesta pandemia covid-19?, perguntámos.

– O que mais me impressiona nesta pandemia é a capacidade de disseminação altíssima e a fragilidade a que estamos sujeitos, levando-nos a uma responsabilidade com a nossa saúde e com a dos outros, o que nem sempre é levado em conta. Como sabemos as pessoas consideradas com maior propensão a quadros graves são os idosos e pessoas doentes. Un sector onde procuro ajudar!

A solidariedade talvez seja o pelouro mais difícil de gerir, nas atuais circunstâncias. Desejamos a Lourdes Fernandes sorte e força, porque o que aí vem pode ser bem pior do que aquilo que já temos.

Lourdes Fernandes com Geoffroy Boulard

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