Na rua

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É deveras aborrecido não haver festejos dos Santos Populares. Deu-me cabo do negócio. Todos
os anos preparo tudo com extrema higiene, um ambiente agradável para que as clientes saiam a agradecer mil. Algumas, de tão contentes que ficam, insistem em pagar mais do que é pedido.
Mas atenção, não é qualquer uma que tem acesso ao meu serviço na noite de Santo António. Sou eu quem escolhe, não é público. É só para algumas.
Ponho-me à janela onde afixei ao lado uma placa discreta a dizer ladies toilet. As senhoras
entram, pagam logo à entrada, são encaminhadas até à casa de banho a brilhar, usam-na,
deixam-na a brilhar. Têm o necessário lá dentro, à saída um kit com papel para secar as mãos (de boa qualidade) e outros objetos só para senhoras.
Este ano não houve negócio para ninguém, nem pimba a ecoar pelas colunas, nem sardinhas e
febras na grelha, nem mesas estendidas pelos vários largos que perfazem o bairro. Houve
silêncio, a ausência da multidão na rua. Os catraios costumavam passar por aqui a caminho do
castelo, regressavam 15 minutos depois, garrafa na mão, alguns sem saber se estavam a festejar o Santo António ou o São João. Este ano o Santo António foi um dia como os outros, uma noite igual a tantas outras.
É pela saúde pública que se calaram os santos. Tenho de aceitar, compreendo, aplaudo até a
intransigência de fechar os negócios locais até às 19 horas. É pelo bem que os santos se calam.
Não fiz o meu negócio de duas horas, apenas duas horas, para que as senhoras pudessem
retocar a maquilhagem, num espaço limpo com boa onda. Bem sei o que é estar no meio da folia dos santos, aflita, sem ter onde retocar a maquilhagem. É um tormento.
Mas porque não fazes negócio a noite toda? Fazias uns trocos valentes! Não, o negócio salva as
aflitas, os trocos na caixinha servem para ir beber umas imperiais ao arraial e brindar ao Santo
António. Sou lisboeta, bairrista, não há altura mais bonita da cidade como esta, Lisboa em festa! E se a noite de Santo António é a pior para se festejar – Lisboa é invadida por pessoas que na sua esmagadora maioria vivem fora da capital – o resto dos santos é Lisboa em estado puro.
O meu aniversário é no dia do outro santo mas não quero estar com os amigos num espaço
fechado. Esvazio antes parte da mobiliária, cadeiras e mesas cá fora, na rua, garantindo a
distância de segurança. Caldo verde, bifanas, uma sangria de frutos silvestres, minis. Muitas. E
ainda uma salada rica para os vegetarianos. Não é preciso um mar de gente nem música pimba.
Um punhado de amigos, comida, bebida, saúde! Estamos juntos, estamos vivos, estamos na rua pois Lisboa é na rua.
São João, padroeiro do Porto, é festejado pelo país inteiro excepto em Lisboa. Lisboa, excepto nolargo do meu bairro, no dia 24 de Junho. És tão boa Lisboa!

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