Um euro por português

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Se houve algo de evidente a retirar desta pandemia que nos tem afligido nos últimos meses foi a descoberta do pouco que cada português vale, na realidade.

Português que se preze tem sempre uma opinião abalizada, definitiva, incontestável que vai recolher na opinião publicada ou nos debates televisivos.

Opta por um jornal, ou por um comentador, e as opiniões destes passam a ser dogmas.

O facto do Quociente de Inteligência dos jornalistas, ou comentadores, que lhes servem de “mestres”, ser notoriamente abaixo do normal, apesar de ser evidente o baixo nível cultural da maioria dos que ocupam os espaços de opinião na nossa comunicação social, não impede que a maioria das discussões se decida com a frase: “é só leres o que o jornal diz” ou “foi o que ouvi na televisão”.

O jornal e a televisão passam à categoria de seres supremos.

Não quem nele escreve, não quem nela opina, mas “o” jornal e “a” televisão.

Os políticos sabem isso e, logicamente, temem a “opinião publicada”.

Porque, sabem, depressa se transforma em “opinião pública”.

Disfarçam dizendo que respeitam o pensar, ou o sentir, do Povo.

Na realidade só temem a imprensa.

O autarca, no caminho de casa para o local de trabalho, pode passar cem vezes com a roda do carro no mesmo buraco ao longo de meses. Este só será tapado no dia em que o jornal da terra publicar a fotografia com uma legenda de três linhas.

O deputado pode faltar cem vezes num ano, com a sua presença a ser assinalada por um companheiro ou funcionário, que só será obrigado a explicar-se se alguma estação de rádio der a notícia.

Um ministro pode ter um curriculum analisado e aprovado por todos os membros de todas as instâncias – muitos deles conhecedores de todo o trajecto do governante – até que um canal de televisão venha provar que o senhor doutor só tem o 12º ano. A partir daí tem que se explicar.

Estes escândalos foram diminuindo, ao longo dos anos, não por haver agora gente mais séria mas porque, actualmente, na maioria dos casos, são as administrações, e não os jornalistas, a ditar as regras de conduta das redacções.

Quem escreve não tem autonomia para além de redigir uma notícia nos moldes em que lhe é ditada.

A imprensa está, praticamente, na mão de multinacionais ou grandes empresas mais interessadas em que os seus jornais, rádios e televisões sirvam os seus interesses do que a verdade.

O Poder, que tem assim a possibilidade de conhecer bem quem são os seus potenciais inimigos, preocupa-se mais com a maneira de os satisfazer do que com a obrigação de governar em prol do bem público.

E mais fácil agradar aos magnatas da Imprensa do que a todo o Povo.

Só isto justifica o silêncio em relação aos milhares de milhões de euros roubados na banca – sem um único condenado – aos escândalos com desfalques astronómicos como os casos dos submarinos, siresps, Freeport, vistos gold, etc., etc., etc..

Os mesmos jornais que enchem as primeiras páginas com parangonas com assaltos a cafés, bombas de gasolina e supermercados esqueceram, há muito, os processos da banca, das empresas de telecomunicações, da corrupção de políticos.

Hoje, com a quebra de receita em vendas e publicidade, causada pela situação de pandemia em que vivemos, não tiveram os empresários da comunicação social, qualquer pejo em exigir (mas exigir mesmo) que o Estado os apoiasse com dinheiro.

Nem este teve qualquer problema em se ajoelhar e ceder.

Resta a consolação de sabermos que esta gente se vende por pouco.

Com onze milhões e duzentos e cinquenta mil euros o Governo comprou mais uns meses de notícias abonatórias.

Pouco mais de um euro por português…

Valha-nos a Santa Internet, e os jornais on line, refúgio dos que querem informação sem filtros.

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